Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

O mundo é dos fazedores

Criador do sistema para telefones celulares Android, o empreendedor do Vale do Silício explica sua aposta em um novo setor: o da criação de equipamentos inteligentes

O americano Andy Rubin não é tão conhecido no “mundo exterior” quanto Steve Jobs, da Apple, ou Mark Zuckerberg, do Facebook. Mas, no mundo da tecnologia, ele figura na lista dos grandes inovadores das últimas décadas. Rubin fundou a Android, empresa adquirida pelo Google em 2005. Com impulso do gigante da TI, seu time desenvolveu o sistema operacional para smartphones que hoje lidera o mercado, presente em mais de 1,3 bilhão de aparelhos ao redor do planeta. Rubin também chefiou o laboratório de robótica do Google. No fim de 2014, saiu para fundar a Playground, que vai dar dinheiro e conselhos a empreendedores de um novo setor: o da criação de equipamentos inteligentes. Rubin estará no Brasil em 10 de setembro para o lançamento do Cubo, um centro de inovação e empreendedorismo desenvolvido em parceria com um banco brasileiro e um fundo de investimento do qual ele é sócio.

A chegada ao mercado de impressoras 3D baratas, de circuitos e sensores que permitem a qualquer pessoa criar aparelhos eletrônicos, fez surgir a ideia de que uma nova revolução industrial está em curso. O senhor concorda? Sim, se acrescentarmos um ingrediente a esses que você citou: a internet. O que torna este momento realmente novo e interessante é a possibilidade de os objetos estarem conectados, poderem receber e transmitir informações complexas. A verdadeira revolução, aquela que define o nosso tempo, é o processamento de informações. A internet é uma plataforma sobre a qual construímos inúmeras coisas surpreendentes nos últimos vinte anos. Agora, sobre essa plataforma, também podemos construir as coisas do mundo físico às quais a palavra “industrial” remete. Nessa nova revolução industrial, as formas criadas em impressoras 3D e os sensores ou circuitos que você mencionou andam de mãos dadas com softwares de código aberto e a computação em nuvem.

Fala-se também do surgimento de uma “cultura de fazedores” no mundo da tecnologia. O que a define? Ela diz respeito aos criadores desse tipo de objeto inteligente. E creio que, com os “fazedores”, quem volta à cena é aquela figura do inventor solitário em sua garagem. É uma cultura que retoma alguns valores dos velhos tempos do Vale do Silício, quando um único empreendedor, com uma visão clara de aonde queria chegar, podia prosperar. Se você quiser criar uma rede social hoje em dia, não poderá trabalhar sozinho, porque há empresas maduras, e na verdade muito grandes, que já operam nesse espaço. A área do hardware e do design industrial ainda é relativamente virgem. Uma pessoa pode fazer a diferença, contando com um tipo diferente de colaboração. Ao juntar as peças para fazer algo novo, essa pessoa pode se apoiar em uma série de serviços que já operam em escala, sejam softwares abertos, sejam provedores de placas eletrônicas que podem ser configuradas e reconfiguradas livremente. Isso torna mais fácil transformar sua visão em um produto palpável.

Sua empresa levantou 300 milhões de dólares para investir em fazedores. O ambiente é de fato propício a uma aposta desse vulto? Não há dúvida de que as coisas demoram mais para acontecer quando se quer pôr um novo aparelho na rua do que quando se quer lançar um aplicativo. Para ter sucesso no tipo de empreitada em que me lancei, creio que é preciso retomar a filosofia de Eugene Kleiner, que nos anos 1970 foi um pioneiro dos investimentos no Vale do Silício. Kleiner procurava oportunidades óbvias de mercado, bloqueadas por alguma grande dificuldade técnica. Então, ele investia em quem fosse capaz de resolver essa dificuldade. Hoje em dia, não é bem assim que as coisas funcionam. Com frequência os investidores não sabem onde se encontra a verdadeira oportunidade, então apostam em mil aplicativos para ver qual deles indica um caminho promissor. Além disso, é comum que as empresas que recebem o investimento sejam formatadas já pensando no momento em que serão vendidas a algum gigante. Quero fazer apostas onde a oportunidade de mercado já se delineou com alguma clareza e atuar no médio prazo, ou seja, até o ponto em que a empresa já anda com as próprias pernas.

Ainda assim, não é muito mais arriscado investir numa empresa que depende de uma linha de fabricação do que numa empresa que depende apenas de algumas linhas de código de programação? Prefiro ver pelo outro lado. As pessoas não se deram conta de que a infraestrutura para dar suporte a empresas que inovam criando aparelhos já está, de fato, disponível. No fim dos anos 1990, levantei 200 milhões de dólares para fundar a Danger, que acabou por produzir o primeiro smartphone que causou algum barulho, o Sidekick. Tivemos de cuidar de tudo. Programamos o sistema operacional do telefone, criamos a placa de circuitos, cuidados do design industrial. Pois bem, o último telefone que eu desenhei com o time do Android, no Google, custou do começo ao fim 3 milhões de dólares, porque hoje é possível terceirizar aquelas tarefas. E é possível, sobretudo, terceirizar a produção. As linhas de fabricação chinesas que operam sob demanda estão, literalmente, pegando fogo. Elas são ágeis e confiáveis. Basta saber tirar proveito delas.

É possível utilizar a tão celebrada filosofia de teste e adaptação das startups de tecnologia em empresas que criam equipamentos? Sim. A palavra-chave é agilidade, a capacidade de tomar decisões rapidamente e mudar de rumo sempre que um novo insight aparece, seja ele do campo técnico ou dos negócios. É uma questão de atitude. Como investidor, procuro empreendedores que tenham paixão pelo seu projeto, mas também certa maleabilidade em dar uma guinada quando necessário. A cultura de investimento e gestão que se formou no Vale do Silício nos últimos dez anos é um ativo muito valioso. Os primeiros investidores podiam ter dinheiro, mas não tinham nenhum histórico na condução de empresas de tecnologia. Essa experiência é algo que eu e meus colegas já trazemos. Os empreendedores estão surgindo cada vez mais jovens no mundo da tecnologia. Hoje, há garotos de 15 anos que já descobriram suas habilidades como fazedores ou desenvolvedores. O que eles não terão é uma educação para os negócios, mas esse conhecimento está disponível nas incubadoras.

Ao lançar o Android, o senhor não apenas criou um sistema operacional, mas também teve de ajudar a fazer o telefone em que ele funcionaria, negociar com operadoras e fazer uma série de outras parcerias. Que aprendizado resultou desse processo? As razões para o sucesso do Android são simples: é um bom produto e foi lançado no momento certo. O iPhone já estava no mercado, era extraordinário, mas também despertava certa ansiedade na indústria de telefonia. Assim, tínhamos a oportunidade de criar não apenas um sistema operacional, mas um modelo de negócios que conquistasse a indústria e os consumidores. O Android é um sistema aberto. Seu código está disponível para todos que quiserem criar a partir dele. Isso reduziu bastante o temor dos fabricantes de celulares e das empresas de telefonia de que uma única empresa viesse a dominar o mercado. Fomos também bem-sucedidos na criação do primeiro aparelho a funcionar com o Android. Trabalhamos com entusiasmo. Fizemos o produto que queríamos usar, e calhou de ele ser o mesmo que 1 bilhão de pessoas desejavam. Não tenho um raciocínio acadêmico. Acho a tecnologia pela tecnologia um desperdício de recursos. Acredito nisto: imagine um produto que as pessoas queiram usar, e então faça tudo para levá-lo a público.

O senhor é um entusiasta do código aberto? Sou um fã da ideia. E acredito que todas as grandes empresas de tecnologia também são fãs, mesmo que não confessem. Eu o desafio a encontrar uma delas que não use algum serviço de código aberto. Facebook, IBM, General Motors, Uber – faça a lista, todos se aproveitam do código aberto em seus produtos. Esse fenômeno raramente é mencionado. Para esses “clientes”, a questão é a seguinte: um software livre, de código aberto, pode melhorar os meus processos? Pelo simples ganho de tempo, a resposta com frequência é positiva. Por que reinventar a roda, se alguém já resolveu o problema? Mas há também aqueles que dão sua contribuição à prateleira dos produtos de código aberto. O Google fez isso com o sistema operacional Android, inteiramente construído segundo essa filosofia. Nesse caso, a questão é: se exponho o meu código a quem queira usá-lo, ainda posso construir um negócio ao redor dele? Posso compartilhar a inovação, inclusive com competidores, e ainda ter uma vantagem? No caso do Android, a resposta foi um redondo sim. Esse foi, aliás, um motor do seu crescimento.

O Brasil é um candidato a receber dinheiro do seu fundo de investimentos? Uma das belezas do mundo tecnológico é que ele o induz a pensar globalmente. Produtos para a internet ou para celulares cruzam muito rapidamente as fronteiras do lugar onde foram criados. E, quando você pensa no mundo, a sua perspectiva muda. Por exemplo, quando eu trabalhava no Google, às vezes era difícil encontrar gente qualificada para ajudar a desenvolver a versão seguinte do Android ou o próximo projeto do laboratório de robótica. Então, descobri que valia a pena olhar para países que não são conhecidos primariamente pela sua indústria de TI, mas que ainda assim têm boas universidades, estão formando bons engenheiros ou bons empreendedores. O Brasil é um ator relevante no mercado mundial de tecnologia, seja por adotar com entusiasmo esse tipo de produto, seja por ter bolsões de excelência capazes de produzir para esse mercado. Quanto ao investimento, acho que as condições são muito interessantes no momento. As economias nacionais atravessam períodos de expansão e contração que não são sincronizados. Como o mundo da TI está aquecido globalmente, e as universidades brasileiras têm formado excelentes profissionais, a economia em baixa não é necessariamente um impedimento para o investidor estrangeiro.

O senhor chefiou o laboratório de robótica do Google. Neste momento, onde está a fronteira da inovação nesse terreno? Alguns anos atrás, o problema a ser resolvido era o movimento. Ele foi solucionado. Algoritmos que garantem o equilíbrio de um bípede ou que resolvem o problema da localização espacial foram desenvolvidos com sucesso. Temos robôs que conseguem se locomover e manipular objetos no mundo real. Simplificando, a robótica já sabe replicar as funções do sistema nervoso central, e usa sensores que desempenham de maneira aproximada o papel das estruturas responsáveis pela visão ou pelo equilíbrio. Mas não entendemos o cérebro inteiro. Por isso, a ciência da computação está estudando o comportamento. Estamos tocando a essência da inteligência, o que diferencia um ser humano de uma máquina. Quando alguém lhe chuta uma bola, você sabe o que fazer com ela. O robô não sabe. Como ensinar máquinas a fazer coisas com base em sua interação com o ambiente?

Em julho, cientistas e empreendedores como Stephen Hawking e Elon Musk assinaram um documento que pede um controle legal rígido de armas com algum tipo de inteligência artificial. O senhor assinaria essa petição? Com certeza. Há inúmeras aplicações para um drone que têm utilidade óbvia – como a inspeção de construções e terrenos acidentados, ou a simples fotografia. Elas são fruto da mera automação, e não da inteligência artificial. Quando entramos nesse último terreno, logo surgem questões éticas. E, à medida que avançarmos, mais questões éticas vão surgir. O uso militar da inteligência artificial requer atenção, sem dúvida alguma. E quanto antes, melhor. Mas eu tendo a ser um otimista. Acredito que o progresso tecnológico é construtivo, e não destrutivo. O simples fato de termos essa discussão desde já é prova disso.

Para ler outras reportagens compre a edição desta semana de VEJA no tablet, no iPhone ou nas bancas. Tenha acesso a todas as edições de VEJA Digital por 1 mês grátis no iba clube.

Outros destaques de VEJA desta semana

Member of The Internet Defense League