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O amor maduro nos tempos da internet

Cresce o número de pessoas com mais de 40 anos que buscam um novo parceiro ou parceira em sites de relacionamento

“Antes de mais nada, confesso que não domino bem essa nova tecnologia digital, portanto, gostaria de, com o auxílio de vocês, cadastrar-me no Par Perfeito.” Assim começava a carta que o militar aposentado Walter Ayres, de 74 anos, enviou a um conhecido site de relacionamentos do país em julho deste ano. A viuvez, em 2013, o havia mergulhado numa implacável amargura. Os dias em Araruama (RJ), onde reside, pesavam como nunca. Preocupado, um amigo sugeriu a Ayres que buscasse na internet algum serviço especializado em aproximar pessoas interessadas em encontrar uma nova companhia. O aposentado acatou a dica, mas tinha dificuldades para se cadastrar. Papel e caneta à mão, redigiu a tal carta mencionada anteriormente. Além da sinceridade sobre suas limitações tecnológicas, destacou: “Tenho 1,70 metro, 70 quilos, não bebo, não fumo, não torço para time nenhum, sou discreto e tímido.” Para reforçar a seriedade de sua intenção em encontrar uma parceira fixa, anexou à correspondência uma cópia do atestado de óbito da esposa. “Como não tenho muitos amigos, faz falta uma companhia para viajar, passear, conversar, sair para comer uma pizza, ir ao cinema”, explicou Walter Ayres ao site de VEJA.

A história do militar aposentado ilustra à perfeição uma extraordinária mudança de comportamento. O namoro virtual deixou de ser uma ferramenta usada com exclusividade pelos jovens. Exigente e muitas vezes sem tempo disponível a perder, o chamado “público maduro” – acima dos 40 anos – tem ampliado a carteira de clientes dos sites de relacionamento. O Par Perfeito, que recebe 450 mil novos inscritos por mês, surgiu em 2000 com o propósito de atender pessoas de todas as idades. Em 2009, os maduros representavam apenas 18% da clientela. Hoje, 30% dos cadastrados se encontram acima dos 40.

A maioria dos sites de relacionamento oferecem acesso gratuito, mas, para utilizar todas as ferramentas disponíveis, é preciso pagar – o plano mensal do Par Perfeito, por exemplo, custa R$ 40. “Uma característica interessante é que, como as pessoas maduras estão realmente comprometidas na busca de um parceiro, elas são quatro vezes mais propensas a assinar o nosso plano pago”, explica o economista Gaël Deheneffe, presidente para a América Latina do grupo americano Match, que detém a marca Par Perfeito.

O interesse crescente desse público em recorrer à internet para encontrar um parceiro ou parceira está longe de se restringir ao Brasil. Nos sites de relacionamento americanos, de acordo com uma pesquisa da consultoria irlandesa Experian Hitwise, usuários de 55 anos ou mais já são maioria – o crescimento foi da ordem de 39% em apenas três anos. O segundo grupo mais popular são os solteiros entre 45 e 54. Esse aumento expressivo motivou o surgimento de sites de namoro voltados exclusivamente para pessoas maduras. O Coroa Metade, que foi ao ar em novembro de 2012, é um dos mais reputados desses empreendimentos no país. O nome, bem-humorado, trocadilho divertido, ajuda a entender porque a busca de amores virtuais na maturidade já pode ser visto com leveza. Em pouco mais de dois anos de existência, o Coroa Metade tem 81 mil cadastrados, sendo 80% com idade entre 40 e 59 anos – os outros 20% são mais velhos, pois só clientes a partir dos 40 podem se cadastrar. “Trinta casais que se conheceram no Coroa Metade acabaram casando”, revela o jornalista Airton Gontow, idealizador do site. “Sou um caso raro de empresário que festeja a cada cliente perdido”, brinca ele.

Divulgação

Airton Gontow, criador do site de relacionamentos Coroa Metade Airton Gontow, criador do site de relacionamentos Coroa Metade

Airton Gontow, criador do site de relacionamentos Coroa Metade (/)

Gontow teve a ideia de começar o Coroa Metade a partir da própria experiência. Aos 43 anos, separou-se e enfrentou dificuldades para encontrar uma nova companheira. A sensação de que uma parceira casual era fácil de achar, mas alguém que realmente tivesse comprometimento havia se tornado artigo escassíssimo também era experimentada por amigas e amigos solteiros. O jornalista não demorou para ter a ideia do negócio. “As pessoas estão vivendo mais e melhor, muitas passam pelo divórcio, portanto, é natural que busquem um outro relacionamento. Ao mesmo tempo, nessa faixa de mais de 40 anos, nem todo mundo quer frequentar baladas. A web acaba sendo um bom recurso”, acredita ele.

Uma rápida busca no Google mostra que não é só o público maduro que está chamando a atenção dos sites de relacionamento. Há endereços eletrônicos voltados exclusivamente para facilitar a união de funcionários públicos, de pessoas acima do peso e até para tímidos atávicos, colados ao computador, aos estudos e nada mais, que estejam procurando um novo amor. A proliferação dos negócios online impactou as tradicionais agências de casamento, que surgiram pela primeira vez nos Estados Unidos, na década de 50. De acordo com um levantamento de VEJA SÃO PAULO, nos anos 90 havia na capital paulista dez escritórios atuando no ramo. Hoje, são apenas três. Para a psicóloga Eliete Amélia de Medeiros, diretora de uma dessas agências, a Eclipse Love, há diferenças fundamentais entre os dois negócios. Diz ela: “Oferecemos um serviço bem mais personalizado, pois entrevistamos todos os candidatos pessoalmente, tudo dentro do necessário sigilo. A pessoa que nos contrata não precisa ficar exposta na internet”. A agência faz uma triagem antes de aceitar o cadastro de um novo cliente. “É preciso ter nível superior, trabalhar, ser independente, não ser fumante ou estar acima do peso”, enumera Eliete. A Eclipse Love conta com 5 mil clientes que pagam entre 3 mil e 16 mil reais por até um ano de contrato. No pacote mais caro, olheiros chegam a ir para as ruas procurar o “pretendente perfeito”.

Tanto nas agências do que chamamos de mundo físico, no avesso da internet, como nos sites segmentados, que restringem o acesso dos usuários, boa parte dos clientes diz procurar um serviço – e um relacionamento – “mais sério”. Em uma pesquisa realizada em 2014, com mais de 16 mil usuários, o Coroa Metade descobriu que encontrar alguém que seja “companheiro para todas as horas” é a característica mais importante para 93% das mulheres e 88% dos homens cadastrados. Honestidade, fidelidade e bom humor também apareceram como qualidades desejáveis para a maioria dos entrevistados.

Airton Gontow conta que há um ano vivenciou “um dos episódios mais emocionantes” de sua incipiente carreira como empresário: foi ao casamento de dois ex-clientes, Vera Garcia, de 47 anos, e Hélio José de Faria, de 60. Meses antes, Vera havia chamado a atenção da equipe do Coroa Metade ao dizer, logo no início de seu perfil, que tinha uma deficiência física, contudo vivia bem daquela forma. “Pelas fotos, só se via que Vera era muito bonita. Não dava para constatar nenhuma deficiência”, lembra Gontow. Vera sofreu um acidente aos 11 anos e precisou amputar um dos braços. Para Hélio, isso nunca foi uma questão. Em menos de um ano de namoro, ele pediu Vera em casamento. “Encontrei o Helio no Coroa Metade em apenas duas semanas! Acabei fazendo meu cadastro porque em salas de bate-papo na web só encontrava molecada. O site acaba servindo como uma curadoria, pois podemos filtrar os candidatos por meio de uma série de características como nível de educação e local de residência”, afirma a ex-cliente de Gontow.

Assim como Vera Garcia e Hélio José de Faria, Walter Ayres, o personagem que abre esta reportagem, acabou encontrando uma nova parceira. Pouco tempo depois de publicar seu perfil no Par Perfeito, uma conhecida o apresentou a uma amiga, ao modo antigo. “Gostei dela e estamos nos conhecendo”, diz ele. Seria uma prova definitiva de que os meios tradicionais para encontrar um novo relacionamento seguem imbatíveis, descolados da internet? Ayres parece não apostar nisso. Por via das dúvidas, e com a experiência que a idade lhe empresta, não fechou sua conta no site de relacionamentos. “Continuo recebendo mensagens e respondo a todas com cortesia, sem esconder que, no momento, estou conhecendo alguém”. Mas logo emenda: “Se ficar sozinho novamente, volto para a internet.”

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