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“Democratizamos o turismo com opções de hospedagem para todos os bolsos”, diz o diretor-geral do Airbnb, que visa crescer com a Olimpíada do Rio

Leonardo Tristão, que antes passou por Facebook, Google e IBM, assumiu o principal cargo da empresa no Brasil e prevê crescimento da companhia durante a crise econômica. Em entrevista, ele ainda revela os planos para os Jogos de 2016

Há pouco mais de três meses no cargo de diretor-geral do Airbnb no Brasil, serviço online de compartilhamento de hospedagens, Leonardo Tristão falou com VEJA sobre os novos desafios para a expansão da plataforma. Antes, ocupava a mesma função no Facebook no Brasil e passou por empresas como Google, IBM e Ericsson. O site já conta com 50 000 anúncios de hospedagem no Brasil, sendo que apenas a cidade do Rio de Janeiro concentra 20 000 do total, firmando-se como o sexto maior destino do Airbnb no mundo. Desde 2014, o volume de anúncios cresceu em 28%, enquanto o de viajantes foi para 121%. De acordo com Tristão, 70% dos usuários preferem reservar apartamentos ou casas inteiros, enquanto 30% dividem a hospedagem com anfitriões.

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O delicado momento econômico brasileiro ajuda ou atrapalha o crescimento do Airbnb? A crise é uma oportunidade. Em primeiro lugar, precisamos dar força à nossa comunidade, formada pelos clientes do Airbnb, das duas pontas. Os anfitriões são a interface com o hóspede, não a nossa empresa. Tivemos um crescimento grande de anúncios em consequência da Copa do Mundo, em 2014, e os brasileiros então começaram a entender nosso serviço. No ano passado, a procura por hospedagens ainda era maior pelos estrangeiros. Agora ganhamos nova aceleração com a crise, já que disponibilizamos opções mais em conta de hospedagem do que os hotéis, e esperamos ver o mercado doméstico estimulado. Do lado do viajante estrangeiro houve um aumento de demanda por causa da alta do dólar, o que o elevou seu poder aquisitivo. Com 50 000 anúncios espalhados pelo Brasil, em todas as regiões, temos um leque grande para qualquer orçamento.

O Airbnb é um e-commerce ou uma rede social? Temos um senso de comunidade muito forte, mas não acredito que seja uma rede social. É um movimento diferente, no qual os anfitriões se encontram para trocar experiências sobre como melhor hospedar e usar a plataforma. Não há as mesmas características de um site como o Facebook. A partir disso, da recepção por parte de um morador da cidade, democratiza-se o turismo com uma experiência distinta de viajar, valorizando a cultura regional, indo além do típico turismo. Isso também motiva as pessoas a se engajarem. Os usuários, por exemplo, dão dicas espontaneamente, sem receber comissões em troca. Essa ideia de comunidade é parte fundamental da estratégia do Airbnb. Mesmo assim, reafirmo, não somos uma rede social.

O senhor decidiu sair do Facebook, extremamente popular no Brasil, para uma empresa que ainda não se firmou. Acha arriscado? Quando comecei no Google, em 2005, as pessoas não entendiam o que ele era. Fui para o Facebook em 2011 e todos só falavam de Orkut. Hoje, nem todo mundo conhece o Airbnb e, para mim, aí está a oportunidade. O Airbnb tem o propósito de mudar o comportamento e a experiência das pessoas ao viajar. Alinhar isso ao povo brasileiro, um dos mais hospitaleiros do mundo, tem absurdo potencial.

Assim como no caso do Uber, o Airbnb integra uma nova forma de economia, a do tipo compartilhada, que vem passando por debates de regulação e que sofrem com críticas e protestos da concorrência. Como tem sido encarar esse movimento do contra? Apesar de, em teoria, as empresas da economia compartilhada acabarem caindo do mesmo saco, existem especificidades de cada setor. Para nós, a postura sempre é proativa em trabalhar com as autoridades para discutir o impacto desse novo modelo de negócios na sociedade. Queremos garantir que o Brasil dê um sinal importante de não cercear a inovação e garantir o direito de escolha do consumidor. Se ele escolher ficar em uma casa alugada pelo nosso site, ou em um hotel, o direito é dele. Porém, é muito distinto uma pessoa que abre a sua casa e coloca um quarto para alugar, em comparação a uma imensa rede hoteleira. Uma regulação específica é bem vinda. Antes, é preciso, entretanto, pergunta o que é justo. Não queremos que simplesmente nos joguem nas mesmas regras às quais se submetem os hotéis.

O Airbnb teve dificuldade para encarar a burocracia brasileira? Pelo contrário, cumprimos um papel muito importante na Copa do Mundo em parceria com o governo. Recebemos mais de 120 000 pessoas, o que representa 20% de todos os turistas que vieram de fora do país. Para a Olimpíada do ano que vem, aumentamos em 80 000 leitos por noite a hospedagem no Rio de Janeiro.

Qual é o perfil do viajante brasileiro que usa o Airbnb? Tem-se como certo que quem viaja pelo Airbnb é a molecada. Mas, no Brasil, alinhado com a média global, a típica faixa etária é, na verdade, a dos 35 anos. Para os anfitriões, a média fica nos 41 anos. Isso também mostra que o apelo da proposta da economia compartilhada não é apenas para os mais novos. É uma transformação que afeta todas as camadas da sociedade. Os motivos para participar do Airbnb são diversos. Temos o caso de uma mãe solteira de Santa Tereza que usa a renda extra para pagar o financiamento da casa. Outra senhora em Copacabana gosta de hospedar porque mora sozinha e quer ter companhia em casa. Na Olímpiada do Rio, esperamos uma combinação dos dois.

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