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Com inovações como um anel para pagar contas, Bradesco quer ganhar “sex appeal”

Vice-presidente do banco fala sobre produtos desenvolvidos em parceria com startups, futuro dos bancos e negócios nascentes como o NuBank

“É difícil para o setor financeiro ter o sex appeal do setor digital, que nasceu para dar encantamento. Estamos buscando esse encantamento”

O Bradesco encerra nesta semana a primera etapa de um inédito programa de inovação aberta em parceria com startups, o InovaBRA, para criar produtos e serviços. Dele, vai sair, por exemplo, um dispositivo em formato de anel com o qual é possível pagar contas (confira no fim da reportagem). As novidades saídas do programa já estão em testes: se forem bem-sucedidas, poderão chegar às mãos dos clientes das empresas do grupo. Como é evidente, o objetivo do InovaBRA é acelerar a inovação. Mas isso ocorre em uma circunstância específica, como explica Maurício Minas, vice-presidente da instituição. Para ele, o Bradesco, as demais instituições financeiras e as empresas criadas na chamada “velha economia” enfrentam o desafio de, direta ou indiretamente, competir com atrações nascidas no mundo digital pela atenção dos usuários. “É difícil para o setor financeiro ter o sex appeal das empresas digitais, que nasceram para levar encantamento às pessoas”, diz Minas. “O que estamos buscando agora é esses encantamento.” O programa de inovação aberta será permanente. No mês que vem, serão abertas as inscrições para a segunda edição em busca de empresas nascentes que queiram se lançar a um processo de dez meses (somadas as etapas de seleção e desenvolvimento de negócios) em cinco áreas: agência do futuro, meios de pagamento, canais digitais, seguros e produtos. Na primeira edição, 553 empresas responderam ao chamado. O Bradesco coloca à disposição dos empreendedores mentoria, à cargo de seus executivos, e potencial acesso ao mercado de 80 milhões de clientes. Na entrevista a seguir, Minas fala sobre os frutos do projeto de inovação, o futuro dos bancos e o avanço de soluções digitais como o NuBank.

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Um dos polos do InovaBra é chamado “agência no futuro”. Haverá agência bancária no futuro? Sim. Os modelos de sucesso são aqueles em que você consegue experiências híbridas. O componente digital vai ser parte importante da vidas das pessoas, mas para parcela significativa da população a figura de um advisor financeiro, em uma interação face a face, será importante. A agência deixará de ser uma prestadora de serviços e passará a ser ponto de venda e de educação financeira. Essas agências podem se transformar em hubs, centros ao redor dos quais se reunirão membros da comunidade para discutir problemas, necessidades, soluções. Por exemplo, podemos promover um encontro para pessoas que atuem no setor de franquia. Por que não promover discussões sobre produtos financeiros voltadas a esse público? O ambiente físico, é claro, deverá ser mais lúdico, mais informativo. Algumas startups do InovaBra estão nos fornecendo elementos físicos para passarmos essa mensagem. Isso inclui sistemas inteligêntes com grandes displays que identificam o cliente e configuram mensagem específicas para ele.

Qual o desafio das instituições financeiras hoje? O que vale no mundo digital é a experiência do cliente. As pessoas só vão usar produtos que as agrade, que permitam que elas poupem tempo e que sejam menos intrusivos, na medida do possível. Em serviços financeiros, estamos sendo comparados o tempo todo com empresas que nasceram digitais, com Facebook, Google, Apple, AirBnB, Netflix, Uber. Precisamos ser relevantes no mundo digital. É difícil para o setor financeiro ter o sex appeal do setor digital, que nasceu para dar encantamento. Estamos buscando esse encantamento.

Em termos globais, que inovações chamam atenção hoje no setor financeiro? As maiores apostas ocorrem no mundo digital. O desafio é garantir uma experiência que seja semelhante à oferecida pelas mídias digitais. O mundo digital parte da premissa de que não existe mais produto ou serviço financeiro, mas que pessoas têm necessidades e sonhos. O que vamos fazer é transformar nossos produtos em uma forma de atendimento a esses sonhos, oferecendo uma experiência menos traumática do que é, por exemplo, lidar com um fundo de investimento, uma conta corrente ou poupança. Há dezenas de iniciativas nesse sentido, desde experiências pontuais até bancos inteiros sendo criados assim. O caso do NuBank é hoje uma boa experiência para meio de pagamento: você tem desde a contratação até a utilização do cartão. Mas isso não é portofólio de serviços financeiros. Há outros que começam a se desenvolver, como o Original, que aposta exclusivamente nisso. Nós estamos avaliando tudo isso. Acho que coisas como crowdfunding, a famosa “vaquinha”, tem grande potencial porque os millennials, pessoas entre vinte e poucos e quarenta anos, compartilham seus sonhos com amigos, seja para juntar dinheiro para fazer uma viagem ou realizar uma festa. Nós precisamos implementar no mundo financeiro esse conceito, que nasceu na rede. Mas não basta dizer: “Deposite na conta”. Tem que ser diferente. Por exemplo, um ambiente em que você veja as fotos de quem participa do crowdfunding e, ao clicar em um botão, confira quanto falta para juntar o dinheiro necessário para a tão sonhada viagem para Nova York. Se uma startup vier ao InovaBRA com ideias como essa, vou plugá-la no Bradesco. Queremos ser o hub que puxa boas ideias.

Que impacto as inovações do InovaBRA terão no negócio do banco? Há impactos importantes em vários sentidos. Vamos conseguir mais receitas em algumas situações, como no polo de produto, com itens que vão nos diferenciar no mercado. No caso da agência do futuro, vamos incrementar a qualidade dos serviços, o que será percebido pelo cliente. No caso dos wearables, ofereceremos qualidade de vida, o que nos permitirá, por exemplo, crescer em um mercado onde hoje estamos subrrepresentados: os millennials. Temos o desafio de aumentar a penetração nesse público e nos tornarmos protagonistas nas transações financeiras.

O que de mais valioso o banco oferece às startups no InovaBRA? Primeiro, criamos a condição para que as startups de fato possam fazer negócio com o banco, o que as credencia depois a negociar com Ambev, Vivo, Banco do Brasil e outras grandes empresas. Essas companhias vão dizer: “Se o Bradesco comprou a solução dessa startup, posso comprar também.” Segundo, a mentoria: essas startups tiveram condições de conversar com executivos do banco e empreendedores de grandes empresas, coisa que dificilmente conseguiriam em um caminho incremental de uma companhia nascente. Tudo isso permite que essas startups fortaleçam seu negócio.

Como nasceu o programa? Nós nos reinventamos várias vezes na história, mas a inovação sempre aconteceu internamente. Nos últimos três anos, robustecemos esse processo com a metodologia do design thinking, criamos o conceito de polos de inovação, que representam as grande áreas de interesse do banco. Por mais brilhante que a organização seja, não é possível enxergar o que está acontecendo no mundo todo. Então, adotamos o conceito de inovação aberta, ou seja, decidimos fazer parte de um ecossistema que transcende o Bradesco. Olhamos para atores da inovação e empreendedorismo no Brasil, para como o sistema financeiro mundial está usando a inovação aberta, que é o conceito das fintechs, e também para a cultura do banco, é claro. Aí, nasceu o InovaBra. A ideia não é dar dinheiro às startups para que elas materializem o que acham que devam fazer. Já existem encubadoras e investidores em número suficiente para isso. O que não existe é uma forma mais fácil de as startups chegarem ao mercado: há um vale da morte entre a materialização do produto e venda para o grande cliente. A primeira pergunta que um potencial cliente faz para uma startup é: “Quem é você? Qual sua estrutura de capital? Em que clientes você implantou sua solução?” E a resposta a todas essas perguntas é zero. Nós achamos que a proposta de valor do Bradesco se diferencia por oferecer mercado, dizer à startup: “Eu quero desenvolver com você de forma que, ao final do processo, você terá um grande cliente”. Assim, a partir da experiência com o Bradesco, a startup se qualifica para entrar no mercado. Nos interessa que o nosso parceiro seja forte, para que não tenhamos que sustentá-lo ao longo do tempo.

Depois de um período de exclusividade, as soluções desenvolvidas no InovaBRA ficam disponíveis para o mercado. No limite, isso pode ajudar os concorrentes. Não é uma preocupação? Não é um problema para nós. É importante frisar que pedimos exclusividade por um período apenas para soluções no segmento financeiro. As demais ideias podem ser vendidas para comércio, telecom e outros setores. Quando a startup consegue um grande mercado, estará aberta para o mundo. É muito provável que, ao fim da carência, ela vá se posicionar bem junto a nossos concorrentes. Temos certeza absoluta que é só uma questão de tempo para que qualquer ideia boa seja replicada. O que queremos é melhor time to market, desenvolver modelos de negócios inteiros mais rápido do que aconteceria se fizéssemos dentro do banco. Eu sei que em determinado momento essa solução vai estar no meu concorrente. O que tem acontecido com o processo de inovação especialmente no mundo digital: o intervalo entre uma ruptura e outra é cada vez menor. É muito provável que em alguns casos venha alguém com uma ideia melhor do que a minha antes mesmo do término do período de exclusividade. A questão não é mais a exclusividade, mas o tempo de você conseguir executar uma coisa desruptiva. É isso que buscamos.

Produtos e serviços desenvolvidos no InovaBRA por startups:

1. Vitrine virtual, da NUE

Sistema que permite a exibição de conteúdos interativos e personalizados em telas instaladas em agências, por exemplo. Na prática, o conteúdo é definido de acordo com a interação do usuário

2. Fila virtual, da ShopMobi

Permite que clientes agendem atendimento por meio de “fila virtual”

3. Vestíveis, da Atar

São os wearables. Permite a realização de pagamentos usando dispositivos eletrônicos especiais no formato de aneis ou presilhas afixadas em pulseiras de relógios

4. Gamificação, da Qranio

Utilização de elementos e da mecânida de jogos eletrônicos em outras áreas, como treinamento de funcionários e serviços de informação para clientes

5. Mídia digital, da Sreencorp

Criação de aplicativo que permite que outros apps usem recursos do banco para celulares

6. Open API, da Sensedia

Plataforma que permite que empresas parceiras criem novas soluções integradas ao banco, formato já usados por empresas como Facebook e Twitter

7. Negociação de dívidas, da Quero Quitar

Criação de plataforma específica de renegociação de dívidas

8. Negociação de frete, da Rede Frete Fácil

Criação de plataforma específica para negociação de fretes e otimização de rotas

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