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Parkinson: tratamento inédito devolve movimento a pacientes

Cerca de 25% das pessoas com a doença tem dificuldades para andar. O tratamento reativa áreas do cérebro responsáveis pela realização dos movimentos

Por Redação - 23 abr 2019, 17h00

Pacientes com Parkinson crônico tiveram os movimentos restaurados após serem submetidos a um novo tratamento de estimulação elétrica. A técnica pioneira, que consiste em um implante colocado na espinha dorsal, foi desenvolvida para impulsionar os sinais enviados entre o cérebro e os membros, permitindo que o paciente volte a caminhar normalmente. De acordo com os pesquisadores, o tratamento promove maior qualidade de vida, uma vez que ajuda a evitar quedas, além de proporcionar maior confiança aos portadores da doença.

“Os nossos pacientes têm a doença há pelo menos quinze anos e não se sentiam seguros para caminhar havia muitos anos. É incrível vê-los agora indo além dos limites de casa, sendo capazes de fazer passeios no shopping ou viagens de férias”, comentou Mandar Jog, da Western University, no Canadá, à BBC.

Os achados são importantes, pois conforme a doença avança, cerca de um quarto dos pacientes desenvolve dificuldades para andar, o que os confina a cadeira de rodas ou a ficar em casa na maior parte do tempo. Essa limitação acontece porque as áreas do cérebro responsáveis por controlar os movimentos não funcionam adequadamente nos indivíduos diagnosticados com Parkinson. Entretanto, tomografias realizadas após o implante mostraram que essas regiões cerebrais haviam se reativado alguns meses após a implantação dos eletrodos.

Os movimentos

Segundo especialistas, o processo de caminhar acontece através de uma série de instruções enviadas do cérebro para as pernas, comandando-as para se moverem. Em seguida, o cérebro recebe sinais de volta quando o movimento é concluído – o que o leva a enviar novas instruções para a execução da próxima etapa. No entanto, de acordo com Jog, o Parkinson interfere nesse processo, restringindo os sinais que voltam ao cérebro, interrompendo o ciclo de transmissão e levando os pacientes a ‘congelarem’ no lugar. 

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É aí que o implante entra. O pesquisador acredita que a explosão de eletricidade provocada pelo implante reaviva o mecanismo de feedback das pernas para o cérebro. “Esta é uma terapia de reabilitação completamente diferente. Achávamos que os problemas de locomoção ocorriam porque os sinais do cérebro para as pernas não chegavam até elas. Mas parece que o problema está nos sinais que retornam das pernas para o cérebro”, explicou Jog.

Além de fortalecer os sinais e permitir que os pacientes caminhem normalmente, a equipe foi surpreendida ao perceber que os efeitos do tratamento tinham duração maior do que o esperado: os pacientes conseguiam caminhar mesmo depois de o implante com eletrodos ser desligado.

Os pacientes

Entre os pacientes que receberam o tratamento está Gail Jardine, de 66 anos. Ela contou que sua qualidade de vida melhorou desde que o implante foi colocado há dois meses. Segundo ela, era comum que ficasse ‘congelada’ no lugar ou caísse duas ou três vezes por dia. Por causa disso, Gail perdeu a confiança e desistiu de fazer as caminhadas que costumava fazer ao lado do marido. Agora, com o tratamento, a mulher consegue andar livremente após mais de dois anos de restrição. “Eu posso andar muito melhor. Eu não caí desde que comecei o tratamento. Isso me deu mais confiança e estou ansiosa para dar mais passeios com Stan [marido] e talvez até mesmo ir por conta própria”, contou à BBC.

Outro paciente beneficiado pelo implante é Guy Alden, de 70 anos. Antes da doença, ele era diácono de uma igreja católica que lhe permitia realizar trabalhos comunitários, como visitar presídios da cidade. No entanto, ele precisou se aposentar em 2012 por causa da doença. “Eu congelava no meio de um movimento com frequência, no meio da multidão. Todos ficavam me olhando. Era constrangedor. Agora eu posso andar no meio da multidão de novo. Minha esposa e eu até tiramos férias no Mauí, no Havaí, e eu não precisei usar minha cadeira de rodas em nenhum momento. Tinha várias ruas estreitas e desníveis e consegui fazer tudo muito bem”, comentou.

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Os pesquisadores esperam que os próximos testes confirmem os benefícios dos resultados atuais para que mais pacientes possam desfrutar uma vida menos restritiva. “Se os resultados futuros forem similares, isso terá o potencial de melhorar dramaticamente a qualidade de vida, dando às pessoas com Parkinson a liberdade de aproveitar as atividades cotidianas”, destacou Beckie Port, da Parkinson’s UK, à BBC.

Parkinson

O Parkinson é uma doença neurodegenerativa cujas causas ainda são desconhecidas. Pesquisadores acreditam que ela seja desencadeada por uma série de fatores (genéticos e ambientais), podendo variar de um indivíduo para o outro.

Na maioria dos pacientes, os sintomas começam a aparecer a partir dos 50 anos. No entanto, como o Parkinson está associado diretamente ao tempo de vida, quanto mais uma pessoa vive, maior é a possibilidade de apresentar a doença, que costuma prevalecer entre idosos com mais de 70 anos. Como um dos fatores da doença é genético, o Parkinson pode ser hereditário. Embora seja incomum, quando acontece, a enfermidade dá os primeiros sinais por volta dos 20 anos.

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