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"Nada se compara a isso"

Tamara Jurberg, de 29 anos, está na luta do Médicos sem Fronteiras contra a epidemia de ebola no Congo

Minha vida como promotora de saúde, batendo de porta em porta para entender a realidade e explicar às pessoas sobre doenças e prevenção, começou em grandes favelas do Rio de Janeiro, como Cidade de Deus e Rocinha. Mas nada, nada mesmo, se compara à miséria com a qual me confrontei nas zonas rurais da República Democrática do Congo, no coração da África, onde atuo hoje. Minha primeira missão no país, já pelo Médicos sem Fronteiras, começou em março de 2018 e durou seis meses. Um dos objetivos era ajudar no combate à violência sexual em uma província que registra inacreditáveis 250 casos por mês. Além de todo o drama da violência, as mulheres enfrentam outro em seguida — o estupro é visto como desonra e muitos maridos pedem o divórcio. Também lidei com desnutrição infantil e com a emocionante reversão de certos quadros. Agora, de volta a esse país tão cheio de vulnerabilidades, minha meta é reforçar a luta contra a rápida propagação do vírus ebola.

Nunca houve um surto dessa magnitude no Congo. Decretada em agosto, a epidemia — a décima de uma série que vem ceifando vidas — até agora matou 665 pessoas e adoeceu outras 1 088, inclusive agentes de saúde. Os focos estavam localizados próximo às fronteiras de Ruanda, Sudão do Sul e Uganda, onde desembarquei em janeiro, para três intensos meses de trabalho. Pensei: bastaria informar bem a população sobre a gravidade da doença que os cuidados necessários para evitar o contágio, pelo contato humano com gente doente e pela falta de higiene básica, seriam tomados — e a epidemia, debelada. Chegando aqui encontrei vários outros obstáculos.

Ao contrário do que imaginei, mesmo pessoas concentradas em áreas de risco elevadíssimo não têm o combate ao ebola como prioridade, ainda que vejam tanta gente atingida ao redor. O vírus, que causa febre, vômito, diarreia e pode levar à morte fulminante, é percebido como apenas mais um problema entre inúmeros no Congo: falta saneamento — as latrinas ficam do lado de fora das casas de pau a pique —, falta água encanada e falta acesso à educação e à saúde, que são serviços cobrados. Por isso, é comum o povo só procurar clínicas e hospitais com a doença já em fase avançada, bem mais difícil de tratar. Muitos pensam estar com malária, enfermidade endêmica no Congo, e vão se automedicando enquanto os estragos do ebola se fazem sentir.

O que angustia é que o modo mais eficaz de evitar a propagação do vírus reside em uma medida simples: a higienização das mãos. Iniciativas paliativas vêm sendo adotadas para estimular essa ação, como a instalação, em zonas de grande fluxo, de torneiras coletivas com sabão ou cloro ao lado. Essas pias estão na frente de igrejas, por exemplo. Dito assim, parece simples, questão de insistência, mas há uma grande resistência ao trabalho que faço. Prova disso é que dois centros de tratamento do Médicos sem Fronteiras foram atacados. Tivemos de desativá-los e transferir pacientes para outras unidades.

Entendi que algumas pessoas são refratárias a esse tipo de auxílio que prestamos por motivos tanto políticos como culturais. Preferem tratar-se em casa, em família, e não em isolamento — o que é um risco para todos. Também pesa o fato de elas não quererem interferência externa nos rituais do enterro. Quando alguém falece em decorrência do ebola, indica-se lavar o corpo para a retirada de fluidos que ainda podem ser contagiosos, além de sua total cobertura dentro do caixão. Para garantir tais medidas, o governo convoca policiais e militares — o que tem feito com que pessoas se escondam, inclusive de nós, o que torna o combate ao vírus ainda mais complicado. Seguimos em frente, organizando reuniões permanentes com os líderes comunitários, que espalham conhecimento. O ebola, que leva o mesmo nome de um rio local, ainda é um enigma no Congo.

Depoimento dado a Jana Sampaio

Publicado em VEJA de 17 de abril de 2019, edição nº 2630

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