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Delator diz que Argello tinha ‘missão’ de arrecadar 5 milhões de reais de cada empreiteira

Júlio Camargo citou três encontros com Gim Argello. Ex-senador teria sido direto e deixado claro em outra ocasião que 'quem não pagasse a propina seria convocado'

Em novo depoimento aos investigadores da Lava Jato, o lobista e delator Júlio Camargo indicou que o esquema de propinas para evitar a convocação de empreiteiros em duas CPIs da Petrobras em 2014 teria sido muito maior do que o revelado até agora pela investigação. Segundo ele, o ex-senador Gim Argello (PTB), preso na terça-feira, na operação Vitória de Pirro, cobrou 5 milhões de reais de cada empresa para livrá-las das CPIs.

O novo depoimento de Julio Camargo ocorreu na quinta-feira, em Curitiba, base da Lava Jato. Ele é o delator que em 2015 revelou ter sido pressionado pelo presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), por uma propina de 5 milhões de dólares. O relato do lobista teve peso decisivo na denúncia que a Procuradoria-Geral da República apresentou ao Supremo Tribunal Federal contra o parlamentar, por corrupção e lavagem de dinheiro.

Até aqui a Lava Jato identificou 5,3 milhões de reais que teriam sido pagos a Gim Argello. Uma parte repassada pela UTC (5 milhões de reais) destinada aos quatro partidos da Coligação União e Força, nas eleições de 2014 – o Ministério Público Federal destaca que não há informação de que as legendas soubessem da origem ilícita dos valores.

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Outra parte foi depositada pela OAS (350 mil reais) na conta da Paróquia São Pedro, de Taguatinga – cidade satélite de Brasília -, frequentada pelo ex-senador.

Em troca desses repasses os empresários Ricardo Pessoa, da UTC, e Léo Pinheiro, da OAS, não foram chamados para dar explicações às duas CPIs. Em nenhuma das duas comissões houve convocação dos empresários para depor. Em seu depoimento, o delator diz que ele, Argello e Léo Pinheiro buscaram outras empreiteiras para relatar a cobrança, mas não deu mais detalhes sobre como a situação foi tratadas por elas: Odebrecht, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e Engevix.

Nesse novo depoimento, realizado nesta quinta, Júlio Camargo citou três encontros com Gim Argello e outros empreiteiros após a instalação das duas CPIs. Segundo o delator, a preocupação com as comissões fez os empreiteiros investigados se articularem, organizados pelo ex-presidente da OAS Léo Pinheiro. Com isso, ele e Léo Pinheiro participaram da primeira reunião com o então senador, em Brasília.

“Gim Argello disse que a intenção não era ir contra os empresários, mas contra as pessoas das Petrobras envolvidas em processos irregulares da empresa; que Gim Argello disse que chamaria todo o setor e pediu a Léo Pinheiro e ao depoente para avisar a alguns dos empreiteiros”, afirmou o delator. Então, ele e Léo Pinheiro teriam ficado responsáveis por avisar as outras empresas sobre a demanda que, no primeiro encontro ainda não estava clara que se tratava de propina e o próprio Léo Pinheiro teria comentado.

“Léo Pinheiro, mais experiente que o depoente, perguntou se teria que haver pagamento de propina, disfarçada em contribuição política; que Gim Argello disse que deixassem esse assunto para a próxima reunião”, disse.

No segundo encontro, contudo, o ex-senador teria sido mais direto e dito que tinha a ‘missão’ de cobrar 5 milhões de reais dos empresários. “Gim Argello disse que não queria pressionar o empresariado, mas que aproveitaria a CPI para arrecadar contribuições, pois estava próximo das eleições; que Gim Argello disse que essa era uma missão que tinha recebido, um ‘pepino’, que Gim Argello disse que queria 5 milhões de reais por empresa”, relatou o lobista. O senador ainda teria deixado claro em outra ocasião que quem não pagasse a propina seria convocado.

Na época conselheiro da Toyo Setal junto com Augusto Mendonça Neto, outro delator da Lava Jato, Júlio Camargo disse aos investigadores que sua empresa era menor e não tinha condição de arcar com os 5 milhões de reais e, por isso, teria negociado uma redução para 2 milhões de reais, que foi informada a Argello em uma terceira reunião. Os repasses, então, teriam sido acertados via doações oficiais da Toyo Setal, junto com Paulo Roxo e Valério Neves, suspeitos de operarem os pagamentos a mando de Argello e que foram soltos nesta sexta-feira, 15.

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A defesa da OAS não comentou o caso. A Andrade Gutierrez já firmou um acordo de delação premiada, homologado pelo Supremo Tribunal Federal e que está sob sigilo. A Odebrecht anunciou que busca fazer o que chamou de ‘colaboração definitiva’, mas oficialmente o Ministério Público Federal informa que as negociações com a empreiteira não avançaram. A empresa não quis comentar o caso. A reportagem tentou contato telefônico com a assessoria da Queiroz Galvão, mas ninguém atendeu.

A defesa de Gim Argello informou que não comenta investigações em andamento.

Em nota, a assessoria da Engevix afirma que “todas as informações pertinentes ao caso foram prestadas às autoridades responsáveis pelas investigações”.

(Com Estadão Conteúdo)

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