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As sequelas da votação do impeachment na bancada do PMDB

Apesar de a maioria da bancada peemedebista ter votado pelo prosseguimento do processo contra Dilma Rousseff, líder do partido na Câmara votou contra o impedimento. Apesar do isolamento dele, partido não quer 'ruídos' por ora

A votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, no último domingo, deixou sequelas no PMDB, a maior bancada na Câmara dos Deputados. O partido tem como uma de suas principais marcas a divisão interna, reunindo de aguerridos governistas a ferrenhos opositores do Palácio do Planalto, além daqueles que flutuam conforme interesses específicos. E nem mesmo o projeto de poder cada vez mais próximo de ser concretizado é capaz de evitar os desentendimentos entre os correligionários.

Deputados narraram ao site de VEJA o “inconformismo” diante do posicionamento do líder Leonardo Picciani (PMDB-RJ) durante a sessão do impeachment. Aliado da presidente Dilma Rousseff, Picciani desrespeitou a orientação do PMDB fluminense e votou contra o processo por crime de responsabilidade. O voto contrário de Picciani já era esperado, apesar da pressão de peemedebistas em tentarem convencê-lo a embarcar na ação que pode ter como beneficiário direito o principal cacique do PMDB, o vice-presidente Michel Temer. O pronunciamento feito por ele durante a sessão, porém, foi motivo de desgaste.

Na função de líder, Picciani tinha a missão de orientar os deputados a seguir posicionamento da bancada, que, em reunião, decidiu encaminhar favoravelmente ao processo de impeachment. Da tribuna, Picciani seguiu o acordo e anunciou a posição da maioria dos peemedebistas, mas fez discurso que se confundia aos dos governistas, que relacionam a destituição da petista a um golpe à democracia.

“O que estamos fazendo hoje aqui não é uma brincadeira, não é uma disputa, um jogo de futebol. Muito pelo contrário, é uma das mais graves sanções previstas pela Constituição Federal, previstas no nosso ordenamento jurídico. Não nos cabe aqui nenhuma outra posição senão a de defesa dos princípios republicanos e da democracia brasileira”, afirmou Picciani, no domingo. Com a voz embargada, ele ainda disse que jamais imaginou que a sua geração “viveria este momento novamente”.

“Na maior batalha, colocamos o general na frente da tropa e ele fala o seguinte: ‘Olha, estou por aqui, mas o pessoal pensa diferente’. Como um advogado iria convencer alguém assim? É incompreensível”, afirmou um peemedebista. “O tiro saiu pela culatra. Com um esforço de agradar os dois lados, ele não conseguiu agradar nenhum”, resumiu um outro deputado do PMDB.

Congressistas ainda reclamam de uma suposta investida do chefe de gabinete de Picciani para barrar o impeachment. Segundo eles, o assessor do líder teria ligado para deputados e os colocado em contato com o ministro Ricardo Berzoini (Secretaria-Geral da Presidência), que pedia uma “alforria” na votação.

Liderança – Justamente por não se entender com a ala rebelde da bancada, Picciani acabou destituído da liderança do PMDB no fim do ano passado. Com o apoio do Planalto, porém, ele reconquistou o posto e conseguiu a reeleição neste ano. Com o objetivo de evitar “ruídos”, deputados desse grupo negam, por ora, fazer qualquer movimento para destituir Picciani, mas afirmam que a situação dele não será “cômoda” nos próximos dias e apontam para um isolamento.

A pressão também passa pela cobrança de que Picciani demonstre maior fidelidade ao partido caso Michel Temer assuma a Presidência. “Agora ele passa a ter a tarefa de se empenhar num governo Temer. Vai ser o momento de ele usar a sua capacidade que serviu para sustentar o governo Dilma para ajudar o de Temer”, afirmou o deputado Carlos Marun (PMDB-MS).

“Se ele trabalhar mais conosco, vamos trabalhar com ele. Vai depender mais dele do que nós. Queremos sentir firmeza”, afirmou o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), que aposta que Picciani irá mudar a condução da liderança em um governo comandado pelo PMDB.

Questionado, Leonardo Picciani negou a existência de sequelas. “A votação era a do impeachment, e não de uma eleição direta entre o vice-presidente e a presidente. Não dá para tratar o que não está sendo tratado, até em benefício do Temer, que em momento nenhum se mobilizou para assumir o governo. Se isso vier a ocorrer, será em decorrência de prerrogativas constitucionais, e não de uma ação dele. Quem age diferente disso não está ajudando”, afirmou.

Ele ponderou ainda que Michel Temer deu demonstrações de apoio a sua permanência na liderança e que encerra o mandato somente em 2017. “Não é bom para o governo Temer começar com o PMDB rachado. Da minha parte, eu tenho bom senso. Vamos ver se os outros têm”, disse.

A bancada do PMDB votou majoritariamente favorável ao impeachment: dos 67 deputados, 59 chancelaram o processo, enquanto apenas sete deram voto contrário. Houve uma abstenção.

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