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Quatro contos com vista para o mar em uma Havana de 500 anos

Quatro contos com vista para o mar em uma Havana de 500 anos

Por AFP - Atualizado em 12 maio 2020, 22h37 - Publicado em 12 maio 2020, 21h26

Os havaneses dizem que o Malecón é seu sofá, que quem se senta ali, olhando para o mar, está triste e quem olha para a cidade está contente. A vida deles transcorre embalada pelo vai-e-vem das ondas e suas histórias constroem uma Havana que completa cinco séculos neste sábado (16).

– Um breve viajante no tempo –

Yosbel Sosa dirige uma “máquina do tempo”, um Chevrolet Impala conversível preto de 1959, que leva os turistas à década de 1950, quando Havana parou após a Revolução. “Ter um carro antigo ajuda. O turista quer conhecer a parte antiga, a história de 500 anos atrás”, diz.

Ele é motorista no Nostalgicar, um empreendimento privado que reforma carros clássicos e oferece passeios pela cidade. Em seu trajeto, é inevitável deparar-se com a decadência: alguns cantos da cidade cheiram a umidade, a roupas guardadas e a imobilidade.

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Mas também transitam por uma cidade viva que recupera, com relíquias como o Capitólio, adornado com ouro da Rússia, suas estruturas coloniais, seus palacetes, seus edifícios Art Decó, novos hotéis de cinco estrelas, a emblemática Praça da Revolução e seu Malecón (quebra-mar), chicoteado pelo mar.

Yosbel tem 33 anos e abandonou as aulas de Direito. Em um país onde a maioria da população trabalha para o Estado, com salário médio de 50 dólares mensais, ele optou pelo turismo, importante motor econômico de Cuba, que recebeu 4,75 milhões de visitantes no ano passado.

“Às vezes saio muito cedo e volto tarde, quando meus filhos estão dormindo. Fico triste de não poder vê-los, nem brincar com eles. Mas a família está contente com o meu trabalho”, explica.

Quando acaba a viagem ao século XX, usa o transporte público para voltar para o XXI, onde sua esposa e seus dois filhos o aguardam em casa para o beijo de boa noite.

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– O almirante de Cayo Hueso –

Roberto Molina pesca no ‘sofá’ de Havana, um longo móvel de concreto com vista para o Atlântico. Ele tem 69 anos e leva quase metade da vida “respirando este arzinho gostoso, delicioso e o sol, que é o mais importante”, conta.

Cuba teve sua frota pesqueira no passado. Hoje, pequenas lanchas abastecem o país com pescado, privilegiando a distribuição estadual. Raramente é posta à venda. Quem exige são restaurantes privados e diariamente centenas de havaneses chegam com vara e linha para tentar pegar algo para comer e vender.

“Peixe tem em Havana, mas é preciso pescá-lo primeiro”, afirma. Ele só não navega. “Meu lance é o Malecón. Não perdi nada no mar”, diz. Ele mora no bairro de Cayo Hueso, centro de Havana, a 400 metros do mar.

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De onde ele mora, vê-se o farol do Morro, que recebe os golpes da maré alta e dos ciclones. “O quebra-mar fica soberbo com um furacão, todo o centro de Havana alaga. É inevitável, coisa da natureza mesmo”, diz.

Ali, em 1994, em plena crise após a queda da União Soviética, 45.000 pessoas se lançaram em balsas com destino à Flórida. Foi o chamado “período especial”. Uma multidão se amontoou no Malecón, protestando. “Mas veio – desenha com a mão uma barba no queixo – e todos pra casa”, conta. Muitos cubanos substituem o nome de Fidel Castro com esse gesto.

Sua rotina inclui caminhadas, filas para trâmites e recepção de alimentos que o Estado fornece. Tudo com humor. “O havanês é alegre, se está triste é porque é um chato. Se você resolve hoje, está resolvido. Se não resolve amanhã, se ferrou. Mas de qualquer forma, vai resolver”.

– Uma fada que navega –

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Conta-se que uma fada desceu à Terra, caiu no jardim da casa de uma bruxa e esmagou sua flor favorita. Como vingança, sofreu um feitiço: transformada em prata, não podia voltar mais e ficaria condenada a caminhar pelas ruas de Havana Velha.

A fada Beatriz Estevez tem 29 anos, deixou a faculdade de direito e encontrou na arte a sua realização. É artesã, atriz, estátua viva e executa sua “performance” na rua Obispo, lotada de turistas e de restaurantes com bandas de som cubano.

“Meu pai deu chilique. Mas também me disse, ‘ai, filha, você ganha em um dia o que eu ganho em um mês, não posso dizer nada'”. Seu pai é engenheiro naval.

O feitiço não a impede de navegar. Quando acaba o dia e o céu tinge de laranja o mar que banha o Malecón, pega uma barcaça que atravessa a baía de Havana em 7 minutos até Regla, um pedaço de campo na cidade, diz.

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“Os reglanos são mais espirituais, tranquilos. Todo mundo se conhece, se senta na porta de casa, tem uma energia positiva”, conta Beatriz. No povoado fica a igreja da Virgem de Regla, que convive em harmonioso sincretismo com a ‘santería’ africana, o equivalente cubano ao candomblé.

A maioria de seus habitantes trabalha em Havana. “Estou certa de que é a energia de cruzar o mar todos os dias, mas algo acontece ali que as pessoas são muito mais calmas. Vêm aqui descansar, não trabalhar”.

– A médica que se desloca a pé –

Alina González não tem carro. Com as sanções dos Estados Unidos, complicou-se o abastecimento de combustível e o já deficiente transporte público na ilha.

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Assim, esta geriatra de 57 anos caminha dois quilômetros até o Centro de Pesquisas sobre a Longevidade (Cited), onde trabalha.

“Somos parte do povo, somos o cubano comum e isso nos identifica com nossos pacientes. Os problemas que eles têm são os que nós temos”, conta.

No Brasil ou nos Estados Unidos, alguém com a sua experiência talvez tenha sua própria clínica, uma caminhonete, agenda e uma geladeira lotada. Em Havana, ela cuida de centenários, que superam os dois mil em um país de 11,2 milhões de habitantes e expectativa de vida de 79,5 anos, como a do mundo desenvolvido.

Em Cuba, a universidade é gratuita e muitos médicos se engajam em brigadas que prestam serviço no exterior para que o país obtenha divisas, como no programa Mais Médicos, no Brasil. A Organização de Estados Americanos (OEA) questiona o programa porque os médicos ficam com apenas uma pequena parte do salário.

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O governo assegura que estes recursos subvencionam a educação e a saúde. “Gosto muito do que faço, amo a minha profissão, amo a minha família, amo a minha cidade, amo o meu país”, diz Alina.

“É verdade que há dificuldades, que é um desafio às vezes chegar em casa, ter uma conversa íntima com a minha geladeira, que eu abro e digo, o que vou cozinhar hoje?”, conta.

Casada e mãe de uma menina, teve diagnosticado câncer de mama há sete anos. Deram-lhe poucas esperanças, mas se tratou e vive com vontade de continuar contemplando o mar.

“Quero entrar para ver um museu, o porto, pegar a lanchinha, cruzar a baía e voltar (…) Seguir caminhando por seus belos parques, pelo Malecón, por todo o seu esplendor, por muito tempo”. Ali, do sofá com vista para o mar.

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