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Nossa Senhora da vaidade

O mundo precisa que os franceses sejam mais franceses do que nunca

Graças aos céus, os franceses estão discutindo de novo. Quando eles interrompem momentaneamente o eterno débat é porque alguma coisa muito ruim aconteceu. Invasão alemã, atentado terrorista ou algo totalmente inacreditável como o incêndio da Notre-Dame. Eviscerada pelo fogo no país que praticamente inventou o conceito de patrimônio histórico — minuciosamente cuidado, preservado, orçamentado e policiado —, a catedral ainda deixava um terrível cheiro de queimado no ar quando a discussão sobre a reconstrução entrou em combustão. A questão mais apaixonantemente complexa é: como? Qual é o sentido de tentar restaurar o sublime monumento gótico, já cheio de adendos e remendos em seus quase 900 anos de história, exatamente como era? E de que modo reproduzir o vigamento de madeira montado há oito séculos com caibros tirados inteiros de árvores únicas, carvalhos de um tamanho que há muito não existe mais na Europa muitas vezes desflorestada?

O homem que recuperou a catedral das mutilações revolucionárias, Eugène Viollet-le-Duc, foi um visionário que praticamente recriou no século XIX a “França” que os turistas contemplam hoje, desde as muralhas medievais de Carcassone até uma espetacular coleção de igrejas e castelos. O fato de que seu chefe fosse o escritor Prosper Mérimée, e o fato de que este tivesse tido uma amizade íntima com a mãe da condessa Eugénia de Montijo, a futura imperatriz consorte de Napoleão III, ajudou monumentalmente, sem trocadilho. Viollet-le-Duc inventou os pórticos destroçados de Notre-Dame, reorganizou o espaço interno e plantou a agulha rodeada de apóstolos — uma novidade que permitiu  até a vaidade semioculta de encomendar um São Tomás com seus traços. Quem ousaria isso hoje?

A grandiosidade da discussão arquitetônica tem como contrapartida a mesquinharia político-partidária. O povo, dizem jornais de esquerda, vai acabar pagando via renúncia fiscal os grandes donativos provenientes da “batalha dos bilionários”, os ricões que estão despejando centenas de milhões de euros na reconstrução. Mais, os jovens católicos que cantaram ajoelhados diante da infernal fornalha são os mesmos que se manifestam contra a equiparação entre o casamento hétero e o homo. E esta joia de alucinação moral provocada por uma famosa doença infantil, publicada no Libération: a catedral é realmente “um tesouro e um orgulho” há séculos, “mas os mais de 3 600 sem-­teto documentados na capital são uma vergonha que não data de ontem”. Ao prometer a reconstrução em cinco anos, Macron exibiu uma mistura de “desafio arrogante diante do destino trágico” e “vontade ególatra, portanto problemática, de deixar sua marca”.

Ah, o que seria da França sem a eterna briga entre esquerda e direita? Sem a proliferação de adjetivos e a transformação de palavras em punhais afiados como o que matou a cigana abusada Carmen, via o ciúme de Dom José, na obra mais famosa de Prosper Mérimée? “É mais fácil ser corajoso com palavras do que com atos”, anotou, sabiamente, o escritor. Notre-Dame precisa de ambos. E de orgulho nacional, de bravatas, de vontade ególatra, de milhões de euros. Parece que não vão faltar.

Publicado em VEJA de 24 de abril de 2019, edição nº 2631

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