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Meninas do Afeganistão mostram sua arma: o skate

A organização Skateistan pretende levar liberdade e novas oportunidades para as crianças que crescem em um dos países com os piores índices de igualdade do mundo

Em um país onde muitas mulheres ainda são proibidas de ir à escola, sair desacompanhadas ou mostrar o rosto em público, meninas e adolescentes tentam romper as barreiras arraigadas na conservadora sociedade islâmica afegã de uma forma inusitada: andando de skate. Com tantas restrições, não é de espantar que as mulheres também não possam andar de bicicleta. Ainda que não exista uma lei proibindo, uma mulher pedalando em público é vista como algo “imoral”. Além disso, no Afeganistão, muitas mulheres são obrigadas a usar burcas – roupas que dificultam o uso das bicicletas. Assim, diante das dificuldades morais e práticas, emergiu o uso do skate.

Em 2007, o skatista australiano Oliver Percovich fundou a ONG Skateistan. O trabalho cresceu, foi reconhecido, e hoje a organização se propõe a criar oportunidades de capacitação educacional para jovens e crianças através de aulas de skate – 50% de seus mais de 1.000 alunos afegãos são meninas. A instituição oferece aulas de skate, com instrutores e professores especializados, e um currículo escolar básico, com atividades que misturam arte e conhecimentos gerais. Após o sucesso no Afeganistão, onde a ONG abriu duas sedes – em Cabul e depois em Mazar-e Sharif, no norte do país – o projeto foi levado também para o Camboja e para a África do Sul.

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“As meninas que fazem parte do programa estão procurando um escape da vida diária, a chance de praticar um esporte e de aprender habilidades valiosas por toda a vida”, explica Percovich. É isso que Hanifa, de 15 anos, procurava quando se inscreveu no projeto em Cabul. Pouco depois do início das aulas, a menina já começou a mostrar habilidades promissoras e passou de vendedora de chá nas ruas da cidade a professora de skate na Skateistan. Hanifa faz parte de estatísticas surpreendentes no Afeganistão: 40% de todos os skatistas no país são mulheres.

Para a organização, um dos muitos benefícios de ensinar meninas afegãs a andar de skate é também oferecer a elas um novo meio de locomoção. “Andar de bicicleta é algo escandaloso, pela forma como se senta na bicicleta”, explica a doutora Sally Kitch, professora de Estudos sobre Mulher e Gênero da Arizona State University. Mas não existem restrições quanto ao skate, algo novo e pouco utilizado no país. Além disso, é interessante que as meninas possam praticar atividades físicas livremente, sem sofrer preconceito. “Em geral, as mulheres no Afeganistão não são fisicamente ativas, elas vivem tão confinadas em suas casas que queixas sobre o comprometimento de sua saúde pelo sedentarismo são comuns”, conta a Dra. Kitch.

Passado repressor – Infelizmente, a realidade das mulheres no Afeganistão não é marcada somente pelo impedimento de praticar esportes ou andar de bicicleta. Durante os anos de governo Talibã no país e nos anos anteriores de guerra civil, as mulheres foram proibidas de trabalhar, de falar em público, de votar e participar da vida política, de sair de casa desacompanhadas, entre outros absurdos. Só podiam se consultar com médicas do sexo feminino, mas como todas tiveram de abandonar suas carreiras, médicas desapareceram e as mulheres afegãs passaram anos sem acesso a serviços de saúde.

Escolas para garotas foram fechadas e mulheres adultas impedidas de frequentar qualquer tipo de curso. “Eles perderam toda uma geração de meninas que não foram educadas”, lamenta a professora da Arizona State University. Após o fim do governo terrorista em 2001, muitas escolas foram reabertas e novas foram construídas por empreiteiras estrangeiras. Ainda assim, muitas garotas são mantidas em casa por suas famílias e o machismo e as restrições ainda persistem. De acordo com a Unesco, no ano de 2015, a taxa de analfabetismo entre mulheres de 15 a 24 anos no país chegou a 46,3%.

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As taxas de mortalidade materna também impressionam. De acordo com o Banco Mundial, entre 2011 e 2015 foram registradas 396 mortes de mulheres grávidas para cada 100.000 nascimentos no Afeganistão. No Brasil, foram 44 mortes para cada 100.000 nascimentos. Longe da capital, nas cidades periféricas e áreas rurais, é onde as afegãs enfrentam as piores realidades. “As mulheres são comumente punidas por recusarem casamentos forçados e os crimes de honra se tornaram dominantes em algumas partes do país. Por vezes, meninas são submetidas a testes de virgindade”, relata a afegã Senzil Nawid, pesquisadora do Instituto de Pesquisas sobre a Mulher da Universidade do Arizona.

Com seu projeto, a Skateistan pretende oferecer um ambiente seguro e ajudar a formar uma nova geração, diferente da deixada para trás pelo governo Talibã. Com doações do Comitê Olímpico Nacional Afegão e de outros órgãos governamentais estrangeiros, o projeto já construiu as duas maiores instalações cobertas para esportes no Afeganistão e é hoje a maior organização de skatistas mulheres do mundo. “As crianças no Afeganistão são duronas – elas têm de ser. Mas no fim das contas, crianças são só crianças. O skate oferece essa oportunidade a elas, porque é divertido e desafiador”, afirma Oliver Percovich.

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