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O golpe que derrubou al-Bashir, ditador sudanês por trinta anos, reflete os ares de mudança que estão levando insatisfeitos às ruas no norte da África

Por - 19 abr 2019, 07h00

Em frente ao quartel-general de Cartum, capital do Sudão, uma multidão não para de protestar contra os rumos que a política do país está tomando. Para quem esteve três décadas sob o comando de um mesmo ditador, os sudaneses passaram, na última semana, por uma experiência inigualável: em apenas dois dias, tiveram três líderes. Na quinta 11, o ditador Omar al­-Bashir foi deposto por meio de um golpe militar. Quem anunciou e tomou seu lugar, em um pronunciamento pela TV, foi o ministro da Defesa, Awad Ibn Auf. No dia seguinte, ele renunciou e deu lugar ao general Abdel Fattah.

Depois de quatro meses de manifestações que começaram assim que o governo triplicou o preço do pão — em um país que já se afundava em inflação —, os militares derrubaram al­-Bashir e anunciaram um período de transição de dois anos para o retorno de um governo civil. Só que os sudaneses, definitivamente, não estão satisfeitos: eles exigem esse novo governo imediatamente. “O que queremos é uma pacífica e incondicional entrega de poder do regime”, disse a VEJA Sara Abduljaleel, uma das porta-vozes da SPA (Associação dos Profissionais Sudaneses), principal grupo opositor presente no levante popular.

Além da mudança na configuração do poder, as manifestações pedem justiça para al-Bashir: ele é acusado de genocídio e crimes contra a humanidade na região de Darfur cometidos nos anos 2000, com estimados assustadores 300 000 mortos. Quase uma semana depois de deposto, o ditador foi transferido para a temida prisão de segurança máxima de Kober, conhecida por seus enforcamentos.

Na terça 16, a União Africana, bloco que reúne todos os países do continente, deu um ultimato de quinze dias para que fosse estabelecido um governo civil ou o Sudão seria expulso da organização. Mergulhado na crise política, o país ainda sente na pele os efeitos da inflação que resultou nos protestos: agora, ela está em 44% ao ano. O desemprego também atinge os dois dígitos.

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Nas ruas, ecoam palavras de ordem como “liberdade” e “revolução”. Elas lembram a Primavera Árabe, quando uma onda de protestos contra regimes autoritários varreu o Oriente Médio e o norte da África. O Sudão não está sozinho. Na Líbia, o general Khalifa Haftar continua com uma ofensiva contra o governo oficial. No Marrocos, há grandes protestos contra a condenação de ativistas. Na Argélia, o presidente Abdelaziz Bouteflika renunciou depois de vinte anos no governo, por pressão popular. O poder do povo surge, de novo, com força, ampliado pelas incontornáveis redes sociais.

Publicado em VEJA de 24 de abril de 2019, edição nº 2631

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