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E Trump segue na berlinda

Ele se livrou do relatório Mueller, mas, com a eleição em vista, agora são os democratas que o investigam

A liberação para o público (com partes censuradas) do muito falado relatório Mueller, resultado de uma investigação de dois anos para esclarecer se a comprovada interferência da Rússia na campanha e eleição de 2016 teve a concordância de Donald Trump e se o presidente atuou para obstruir a apuração, só confirmou as conclusões esperadas. Não, não há evidência concreta de que Trump conspirou com os russos. Sim, há indícios de obstrução, mas não são suficientes para o investigador especial Robert Mueller recomendar abertura de processo. O presidente cantou vitória, com razão, mas está tendo agora de lidar com um efeito colateral desgastante: as mais de 1 000 páginas de depoimentos e análises desencadearam uma enxurrada de novas investigações, principalmente na Câmara dos Representantes, dominada pelos democratas. Na batalha que apenas começou em Washington, e que deve ser longa, os deputados pressionam, a Casa Branca resiste e todos estão de olho mesmo é na eleição presidencial de novembro do ano que vem.

No primeiro dia de trombadas diretas entre as duas partes, na terça-feira 23, um ex-funcionário da Casa Branca, Carl Kline, por orientação de seus superiores, não atendeu à intimação de uma comissão da Câmara para prestar depoimento sobre a concessão de credencial de livre acesso a pessoas com antecedentes questionáveis, caso do primeiro-genro Jared Kuschner. Kline, hoje lotado no Departamento de Defesa, cuidava das liberações e teria agido por ordem de Trump. A comissão ameaça processar o funcionário por “afronta ao Congresso”. “Não quero ver ninguém depondo perante um partido”, declarou Trump, que acusa a maioria democrata de perseguição e prejulgamento.

Ele confirmou com todas as letras que pretende bloquear uma a uma as intimações de ex-assessores. Daí se depreende que a Câmara também não conseguirá ouvir o ex-conselheiro da Casa Branca Don McGahn, já convocado para prestar maiores esclarecimentos sobre relatos seus que aparecem no relatório Mueller. Nessa investigação, McGahn contou que, em 2017, Trump lhe pediu que demitisse o próprio Mueller. Ele se negou e, por pouco, não pediu demissão. Mais adiante, quando o episódio foi revelado pela imprensa, o presidente voltou a ele com instrução para negar tudo publicamente. De novo, McGahn se recusou. Deputados democratas acreditam que o caso pode configurar obstrução, ato ilegal passível de impeachment.

Na mesma terça-feira, o último dia para a entrega de seis anos de declaração de imposto de renda do presidente exigida por outra comissão da Câmara, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, informou por carta que não encaminharia nada enquanto não tivesse um parecer do Departamento de Justiça — e prometeu uma “decisão final” em 6 de maio. Pôr a mão nas declarações de Trump é sonho antigo dos democratas. Ele nunca as divulgou, alegando que estão sendo auditadas pela Receita, um argumento tipicamente trumpista — auditoria não impede divulgação de documentos e não há sequer confirmação de que a revisão exista. “Parece que o presidente acha que a Constituição não se aplica à sua Casa Branca”, criticou o deputado Elijah Cummings, presidente de uma das comissões. “Concordo com a estratégia de bloquear tudo. Já cedemos toda a papelada oficial e o nome de todas as testemunhas”, rebateu o advogado pessoal do presidente, Rudolph Giuliani. De fato, os papéis e os depoimentos solicitados por Mueller foram atendidos, com exceção do de Trump em pessoa — ele respondeu às questões por escrito, amparado na lei.

Correm no Congresso atualmente ao menos sete investigações sobre atos suspeitos de Trump, quatro delas derivadas do relatório Mueller. É pouco provável que levem ao impedimento, é verdade. Mas paira uma sombra perigosa. Faltando um ano e meio para a eleição, os democratas avaliam que o processo longo e complicado poderia, no fim das contas, fortalecer Trump. “Impeachment é um caminho que dividiria o país. Se as investigações levarem a ele, não teremos escolha. Mas ainda não chegamos lá”, contemporizou, na terça-feira dos embates, a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, que vive às turras com o presidente.

Enquanto Trump parte para o enfrentamento como forma de se manter à tona e agradar ao eleitorado republicano, os democratas buscam em suas hostes o candidato certo para derrotar o enrolado adversário. “Trump tem sido o presidente mais consistentemente impopular da história das pesquisas. A esta altura, qualquer candidato democrata plausível teria chance de vencê-lo”, disse a VEJA Paul Quirk, professor da Universidade de British Columbia, no Canadá, especialista em política americana. Um dos mais fortes, Joe Biden, vice de Barack Obama, finalmente anunciou que vai, sim, disputar a indicação do Partido Democrata. Biden, quatro anos mais velho que o atual ocupante do Salão Oval, é o anti-Trump: ético, respeitado, político experiente e politicamente correto (apesar das denúncias recentes de certo exagero nas manifestações físicas de afeto com o público feminino). O problema é que a sua é a vigésima pré-candidatura à vaga democrata. São tantas as igrejinhas que parece não haver caminho para um democrata ganhar envergadura.

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2019, edição nº 2632

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