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Documentário da HBO mostra acesso inédito de sauditas à autoescola

'Autoescola para mulheres sauditas', que estreia na terça-feira, 12, na HBO, retrata contradições na liberdade feminina na Arábia Saudita

Por Amanda Péchy - 11 nov 2019, 16h52

Em junho de 2018, pela primeira vez na história, foi permitido que mulheres dirigissem legalmente pelas ruas da Arábia Saudita. Um ano depois, as vidas dessas novas motoristas ilustram mudanças sociopolíticas, mas escancaram diversas contradições que ainda permeiam o reino ultraconservador.

No Brasil, tirar a carta de motorista pode parecer uma prática mundana. Mas o documentário Autoescola para mulheres sauditas, dirigido por Erica Gornall, que estreia na terça-feira, 12, às 10h05 no canal HBO, conta uma história completamente diferente.

Quando o rei Salman bin Abdulaziz Al Saud suspendeu formalmente a legislação que proibia as mulheres de dirigir ficou claro para o resto do mundo tratar-se apenas de um ato progressista isolado. O documentário observa que, apenas cinco semanas antes do fim da proibição, pelo menos dez ativistas que publicamente pediram pela mudança foram presas e marcadas como traidoras na imprensa estatal.

Nem três meses após a decisão real, o jornalista dissidente Jamal Khashoggi foi brutalmente assassinado no consulado saudita em Istambul. De acordo com as Nações Unidas, o crime condenado internacionalmente foi de responsabilidade do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MBS). Além disso, a Arábia Saudita também lidera a distância uma guerra civil no Iêmen, que gerou uma das mais graves crises humanitárias do século.

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Mesmo assim, Autoescola para mulheres sauditas mostra que conduzir um carro após décadas de repressão pode representar uma mudança de paradigma.

A autoescola retratada no documentário, localizada na capital Riad, é a maior do país e só recebe alunas mulheres. Não forma apenas condutoras, mas oferece através da habilitação novas oportunidades de emprego, mais independência e o prazer de dirigir pelas impressionantes paisagens desérticas.

Sarah Saleh, uma das personagens entrevistadas por Gornall, passou mais de uma década trabalhando em uma concessionária de veículos, privada da oportunidade de usufruir de um produto que ela mesma vendia. Quando seu pai faleceu há alguns anos, a saudita, que mora com a mãe e a irmã, ficou completamente dependente de táxis para locomover-se. Mas sua carta de motorista finalmente possibilitou uma vida de mais liberdade.

No documentário, a antropóloga Madawi al-Rasheed, autora de História da Arábia Saudita, diz que as segregações de gênero estão entrando em colapso, mas ainda há um longo caminho pela frente.

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“Nós, mulheres, aprendemos a dirigir no deserto, onde não podiam nos ver”, afirma a condutora Shahad al-Humaizi. Depois de suspensa a proibição, a menina que pegou no volante pela primeira vez aos 13 anos, sentada no colo do pai e protegida pelas gigantes dunas, tornou-se motorista de Uber. Quem usa o aplicativo sempre se surpreende ao ver uma mulher, e muitos ainda cancelam corridas por conta disso, ela conta.

Al-Humaizi aproveita os trajetos para entrevistar seus passageiros sobre a mudança na legislação. Apesar da monarquia absolutista saudita não dar espaço para questionar os atos do rei, um deles afirmou que “tinha medo” de ter uma mulher ao volante e outro temia as consequências da igualdade entre os sexos, porque “mulheres são mais emocionais por natureza”.

No mesmo tom, quando uma das instrutoras da autoescola, Amal, é entrevistada em sua casa ao lado da família, seu marido compara a mulher saudita muçulmana a uma palmeira. A árvore é muito valorizada no país, mas é melhor mantê-la em ambiente fechado para ser protegida, não exposta ao ar livre e às condições que a farão “murchar e morrer”.

Sistema de tutela

Um dos motivos pelos quais a Arábia Saudita é considerada ultraconservadora é o controle metódico exercido sobre as mulheres. Embora a conquista de dirigir seja importante, o sistema de tutela no país estabelece que todas precisam de um homem “guardião”, ou tutor — um pai, irmão, marido, tio. “É como se as mulheres ainda fossem menores de idade durante a vida adulta”, explica a antropóloga al-Rasheed.

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Entre as restrições, é obrigatório o consentimento masculino para que uma mulher saia da prisão, saia de um abrigo de abuso doméstico ou se case. Além disso, as mulheres, diferentemente dos homens, não podem transmitir a cidadania para seus filhos e não podem dar consentimento para que seus filhos se casem.

O sistema está longe de ser abolido, mas parece estar sendo desmontado lentamente. Durante as filmagens do documentário, ainda não era permitido que as sauditas dirigisse sem o consentimento de seus tutores, o que limitava o poder adquirido com a carta de motorista. Mas em agosto deste ano, o rei suspendeu a necessidade de autorização para viagens, para solicitar passaportes, registrar casamento, divórcio ou nascimento de crianças.

A Arábia Saudita já não é o reino ocluso e anacrônico de alguns anos atrás e, a passos lentos, faz um avanço ali e outro aqui.
A previsão é de que o número de mulheres motorizadas chegue a 3 milhões em 2020. Só que, enquanto o Estado se coloca como protagonista e motor das transformações políticas e sociais, a liberdade de expressão é limitada.

As ativistas presas em 2018 por exigir a permissão para dirigir, consideradas traidoras, também pediam pelo fim do sistema de tutela. Apesar das mudanças feitas, 13 mulheres ainda estão na prisão aguardando julgamento. Mas Autoescola para mulheres sauditas mostra que, à medida que mais e mais mulheres pegam a estrada, vai ficar mais difícil para o rei controlar as mudanças a conta-gotas.

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