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Como as guerras acabam (se é que acabam)

A cientista política Monica Toft, da Universidade Oxford, na Inglaterra, explica por que a tragédia síria, que completa hoje cinco anos, ainda parece longe do fim

A guerra civil da Síria completa exatos cinco anos nesta terça-feira. 15 de março. O marco zero do conflito que matou mais de 250 mil pessoas e produziu mais de 10 milhões de refugiados é a jornada de protestos por abertura política na esteira da prisão e tortura de adolescentes que haviam pichado o muro de uma escola em Deraa, no sul do país, com slogans contra o regime do ditador Bashar Assad. Cinco anos é aproximadamente a duração média das guerras civis, informa a cientista política americana Monica Toft, da Escola de Governo Blavatnik, da Universidade Oxford, na Inglaterra. E, no entanto, a tragédia síria parece longe do fim, ainda que se possam saudar o cessar-fogo ora em vigor e as tentativas de negociação mediadas pela ONU. Monica debruçou-se sobre conflitos ao redor do mundo a partir da II Guerra Mundial e sistematizou dados sobre duração, efeitos sobre a economia, quantidade de vítimas e recorrência dos confrontos, entre outras informações. Em entrevista ao site de VEJA, ela explica por que não tem esperança de que a guerra síria se resolva tão cedo – e por que a negociação na Colômbia pode ter melhor sorte.

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Como as guerras acabam? De três maneiras. Pode acabar com vitória militar de um dos lados, seja do governo, seja dos rebeldes – que, podem tomar todo o país, como no caso de Uganda (1980-86), ou promover sua partilha, como no caso do Sudão (1983-2005). Pode acabar por comum acordo entre as partes, com a composição de um governo de coalizão ou a constituição de um partido político integrado pelos rebeldes em condições de disputar o poder. E pode acabar em trégua ou impasse, ou seja: a disputa não chega exatamente ao fim, mas cada lado não tem capacidade militar para acabar com o outro.

O que é mais comum? Até o fim da Guerra Fria, a maior parte dos conflitos acabava em vitória militar: 85%, quase metade vencida pelos rebeldes, metade pelo governo. O resto acabava em trégua ou acordo. Depois, aumentou muito a pressão da comunidade internacional para o fim negociado das guerras civis, então tivemos um maior equilíbrio entre as três maneiras pelas quais as guerras acabam. Além da pressão, em muitos estados os oponentes não puderam mais contar com a ajuda de soviéticos ou americanos, como no caso de El Salvador (1979-1992), e assim procuraram negociar o fim do conflito.

Acordos negociados de paz costumam funcionar? Depende. Esses acordos tendem a ser frágeis. O lado bom é que interrompem a matança. O lado ruim é que a rivalidade pode persistir e tornar as guerras recorrentes. Podemos olhar novamente para o Sudão. Tivemos um acordo negociado em 1972 (para pôr fim à guerra iniciada em 1955), depois tivemos novo conflito em 1983 e depois um novo acordo (em 2005). A diferença agora é que houve a cisão do país em dois estados. Os conflitos voltaram a eclodir entre o norte e o sul, mas na região da fronteira. Enfim, acordos negociados tendem a ser mais precários.

Quanto tempo duram as guerras civis? Na média, duram cinco anos. Mas quando se trata de conflitos de natureza religiosa ou étnica, a duração tende a aumentar para sete anos em média (o conflito na Síria completa cinco anos este mês). A variação, de qualquer forma, é grande. A primeira guerra na Chechênia (1994), por exemplo, depois da Guerra Fria, demorou apenas dois anos. A segunda (1999) durou quase dez anos, se é que se pode dizer que tenha de fato terminado.

É mais difícil ou fácil parar as guerras hoje em dia? Pode parecer mais fácil, uma vez que, sem a polarização da Guerra Fria, basta conseguir que as partes diretamente envolvidas entrem em acordo. Por outro lado, os conflitos agora envolvem múltiplos interesses externos, o que torna a negociação mais complexa. É o caso da Síria. Você tem o Irã, a Rússia e o governo sírio de um lado, a Turquia, a Arábia Saudita e os estados do Golfo do outro, e ainda Estados Unidos, França e Alemanha no meio, pedindo o fim da violência e ao mesmo tempo saída de Bashar Assad – e uma variedade de outros interesses.

E o atual cessar-fogo na Síria? Não estou otimista. O problema é que dois dos principais atores não participam dela: o Estado Islâmico e a Frente Al-Nusra (braço da al-Qaeda na Síria). Estima-se que haja cerca de 200 facções rebeldes envolvidas no conflito, nem todas representadas na mesa de negociação e nenhuma forte o bastante para persuadir as demais. Até que todas as partes tomem parte, não será uma trégua de verdade. O que talvez seja possível são múltiplas tréguas com grupos diferentes em regiões diferentes do país.

A guerra na Síria se parece com algum outro conflito? O que torna esse conflito muito diferente dos demais são os múltiplos interesses externos e o fato de se passar numa região de planeta que importa bastante a muitos países.

Intervenções externas tendem a produzir bons resultados? Em geral, intervenções tendem a prolongar a guerra, porque trazem mais recursos às partes e mais interesses e ideias à mesa de negociação. Mas há um grande debate acadêmico a esse respeito, uma vez que, por outro lado, as potências internacionais costumam olhar mesmo para os conflitos mais complexos. É claro, de qualquer forma, que a intervenção externa pode piorar muita as coisas. Na Síria, por exemplo, há evidências de que o envolvimento da Rússia agravou a situação dos civis. As intervenções deveriam, no mínimo, buscar aliviar o sofrimento da população com a prestação de ajuda humanitária, diminuir a violência e ganhar tempo para que as partes entrem em negociação.

E o caso da Colômbia? Talvez ali haja, sim, as condições para a paz. Não sou expert no conflito colombiano, mas nesse caso há um governo realmente comprometido com o fim da violência, e estão tentando trazer todas as partes à mesa. Além disso, cansadas das muitas décadas do conflito, as pessoas tornam-se mais propensas a aceitar da negociação.

A sra. concorda com a tese do psicólogo canadense Steven Pinker de que a sociedade humana está menos violenta? Sim e não. Seus dados são muito bons para mostrar que, na média, o ser humano está menos propenso a ser morto em guerra. Mas taxa de mortes em conflito per capita é um conceito estreito de violência, porque deixa de fora os avanços da medicina e o fato de que é muito mais fácil remover as pessoas do campo de batalha. Antigamente, as pessoas morriam também de disenteria e infecções durante os conflitos. Ser um soldado hoje em dia é muito mais seguro do que já foi. Para um civil também: com os avanços tecnológicos, as chances de morrer por causa de um ferimento é menor.

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