Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Em busca de sintonia

Como mostram belos exemplos estrangeiros, as orquestras brasileiras precisam com urgência conectar-se às suas comunidades

A participação reticente da maioria das orquestras brasileiras nas recentes manifestações em defesa das instituições culturais — ameaçadas pelo corte de recursos na esfera federal e no Estado de São Paulo — parece apontar para um problema bem mais grave. Sua pouca disposição em discutir as questões que afetam a cultura é um dado preocupante em tempos que nos obrigam a refletir sobre inclusão, diversidade e empatia como metas para todas as instituições públicas da área. O arraigado hábito de não se conectar com a comunidade pode ser um risco e um sinal claro de falta de visão e compromisso social. O mundo rico talvez nos dê pistas de como é possível fazer diferente.

Na Hallé St. Peter’s, em Manchester, Inglaterra, amantes da dança de salão reúnem-se para uma tarde de entretenimento. A música que os embala é tocada por integrantes da Hallé Orchestra, uma das mais importantes da Inglaterra, fundada em 1858, e a atividade é um dos programas que a orquestra se orgulha de oferecer à comunidade. O compromisso de educar e atuar em benefício de diferentes públicos, sobretudo os mais carentes, é tão essencial para sua existência que a orquestra restaurou duas igrejas para transformá-las em seus braços educacionais. A St. Peter’s é um deles. Mas isso não é tudo. O tema que inspira a série Hallé para a Juventude em 2019 é “Conflito e resolução”: os concertos abordarão, além das duas guerras mundiais, o bicentenário do massacre de Peterloo, ocorrido em Manchester, em 1819.

Parece estranho que uma orquestra desse porte tenha abraçado sua comunidade com tanta garra, inventividade e energia. Mas os ingleses foram pioneiros em construir programas que fizessem do público o principal ator da vida musical. Há quase trinta anos, a London Symphony se deu conta de que ninguém queria mais uma orquestra aborrecida e desconectada do que se passava à sua volta. Na igreja de St. Luke, polo educativo da orquestra, há excelentes exemplos de experiências para o público não familiarizado com a música clássica.

Quando, em 2002, o inglês Simon Rattle foi convidado a dirigir a Filarmônica de Berlim, sabia-se que a escolha de seu nome pelos músicos do conjunto levava em conta seu compromisso profundo com um modelo renovado de orquestra em que a educação tem papel central. Ele já afirmara que “ser artista, no século XXI, implica ser também um educador”. Seu compromisso com a música o transformara num defensor da educação e da acessibilidade como cernes da vida orquestral. Em pouco tempo, o conjunto alemão foi transformado em um centro inovador nessa matéria. Entre suas memoráveis iniciativas está o espetáculo Rhythm Is It, no qual a filarmônica acompanhou duas centenas de adolescentes berlinenses, nenhum deles bailarino, vindos de todas as áreas da cidade, em uma coreografia de A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, criada pelo britânico Roystom Maldoon.

A exemplo do que já acontecia em Londres, em Berlim há uma enorme ênfase nas atividades corais. Várias orquestras têm criado programas para que seu público cante, reintroduzindo o princípio de que a música é para ser “feita”, e não só para ser ouvida e contemplada. A pressão por participar é incontrolável, e os gestores atentos e conectados com suas comunidades sabem que é preciso integrar os conjuntos com seu público de forma efetiva.

Do outro lado do Atlântico, o compromisso das orquestras com a educação e com a coletividade também mudou. Ainda em 2001, em visita à Orquestra Sinfônica de Chicago, ouvi de uma de suas diretoras que a transformação começara sob pressão: boa parte de seus patrocinadores já se incomodava em ver a orquestra dar as costas à cidade, cada vez mais violenta e com enormes problemas sociais. Em 2010, ao assumir a direção do conjunto, Riccardo Muti foi guindado à posição de diretor do Negaunee Music Institute, cuja missão é promover programas educativos e comunitários da orquestra. Ninguém, portanto, se surpreendeu quando o próprio Muti instituiu um programa para adolescentes e jovens encarcerados. É ele quem toca piano e dirige workshops e atividades criadas especialmente para ser desenvolvidas nas prisões.

“A ausência de engajamento de nossas orquestras faz delas exemplares de políticas culturais caducas”

Em Los Angeles, a orquestra filarmônica local atua com consistência na educação e fundou uma orquestra jovem para a cidade, cuja formação é ancorada no “El Sistema”, bem-sucedido projeto que integrou jovens carentes à música na Venezuela e é a origem de seu regente titular, Gustavo Dudamel. Foi Vijay Gupta, então violinista do conjunto, o criador da Street Symphony, iniciativa que reúne cerca de setenta músicos e cantores com o objetivo de fazer programas de educação e inclusão, além de espetáculos para os mais de 25 000 moradores de rua existentes na Skid Row, a cracolândia de Los Angeles.

Nenhuma dessas atividades, porém, ocorre em detrimento da música! Ao contrário, as orquestras raramente foram tão ativas em matéria musical. Encomendar obras, desenvolver novos formatos de concertos, associar-se com criadores das áreas de dança, teatro e cinema, tudo isso faz parte da rotina dos conjuntos. Ter Peter Sellars como encenador da Paixão Segundo São Mateus, de Bach, executada pela Filarmônica de Berlim, ou organizar um festival em torno do Fluxus, movimento artístico dos anos 1960-70, como faz a Filarmônica de Los Angeles, são alguns dos exemplos instigantes das orquestras em atividade.

Vale mencionar que, nesses países, é declinante a educação musical formal, antes componente obrigatório do currículo. As orquestras, portanto, entenderam como sua responsabilidade urdir programas que trouxessem novos públicos, especialmente os mais jovens. Com certeza, os conjuntos não dão conta de suprir as carências da educação nas escolas, mas seus projetos têm inspirado movimentos consistentes em prol da educação musical e revertido o panorama desolador de anos atrás. Além disso, o envolvimento com a comunidade tem permitido o acesso de camadas amplas da população a seus programas.

Às orquestras do Brasil caberiam iniciativas ainda mais enfáticas do que as praticadas nos países ricos em direção à coletividade e como inspiradoras da educação formal. Os recursos em alguns casos são exíguos, mas não justificam a falta de compromisso com as camadas desfavorecidas, nem o enclausuramento dos conjuntos em bunkers alienados de seu entorno, enquanto reina a precariedade de acesso à cultura nas periferias. Nossas carências educacionais e a gravidade de nossos problemas sociais deveriam instigá-las na busca de soluções que inspirem novas práticas. A falta de imaginação e a ausência de engajamento de grande parte de nossas orquestras fazem delas exemplares de políticas culturais caducas, voltadas a parcelas já muito privilegiadas da população, sem preocupação em atrair as camadas mais jovens às quais tem sido negado, sistematicamente, o conhecimento de outras formas de fazer e ouvir música e de como delas usufruir.

* Claudia Toni, assessora especial do reitor da USP, é especialista em políticas públicas para a cultura

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2019, edição nº 2632

Envie sua mensagem para a seção de cartas de VEJA
Qual a sua opinião sobre o tema desta reportagem? Se deseja ter seu comentário publicado na edição semanal de VEJA, escreva para veja@abril.com.br

Member of The Internet Defense League