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Tite, o herói que não faz gols

Treinador gaúcho se atualizou após ano sabático, impôs um estilo de jogo envolvente e se consolidou como o maior técnico da história do Corinthians

Poucas vezes um treinador foi tão determinante para um título quanto Tite para o hexacampeonato corintiano no Brasileirão. O gaúcho de 54 anos já era apontado por muitos como o maior técnico da história do clube por suas conquistas entre 2010 e 2012, incluindo a inédita Libertadores e o Mundial de Clubes. Mas Adenor Leonardo Bacchi voltou ainda melhor em 2015: enterrou a pecha de retranqueiro, reconstruiu um time abalado por fracassos e crise financeira e ganhou de vez o coração da fiel torcida.

Sua volta foi vista com desconfiança. Tite foi dispensado no fim de 2013 depois de um semestre de pouco interesse dos atletas e raras bolas na rede. Desempregado, não se abateu: viajou para a Europa para se aprimorar, fez “estágio” no Real Madrid do italiano Carlo Ancelotti, acompanhou atentamente a Copa do Mundo no Brasil e atualizou seus conceitos.

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Tite não nega que seu sonho era dirigir a seleção brasileira após o fiasco no Mundial. Sentia-se capacitado após tantas conquistas na carreira – e, de fato, estava. A incompreensível preferência da CBF por Dunga deixou em Tite o gosto amargo da derrota. Mas, mais uma vez, o treinador nascido em Caxias do Sul fez da decepção o cenário ideal para se desenvolver.

Enquanto Tite lambia as feridas no segundo semestre de 2014, o Corinthians vivia outra temporada insossa sob o comando de Mano Menezes. O time passou a jogar de maneira ainda mais cautelosa – para o novo técnico, Jadson e Renato Augusto não poderiam jogar juntos, tese que seria pulverizada por Tite meses depois. Apesar de não encantar, o Corinthians de Mano Menezes cresceu muito na reta final (foi o campeão do segundo turno do Brasileirão) e se classificou para a Libertadores. Ainda assim, com Tite livre no mercado, o novo presidente do clube, Roberto de Andrade, não hesitou: era a hora de Tite voltar e estrear na nova casa em Itaquera.

O início já foi animador. Desde a pré-temporada nos Estados Unidos, Tite impôs uma nova concepção de jogo, baseada no esquema 4-1-4-1, e na troca de passes. O início na Libertadores era um prenúncio: com vitórias contundentes sobre o colombiano Once Caldas, o rival São Paulo, o argentino San Lorenzo e o uruguaio Danubio, o time despontou como favorito ao bicampeonato. No Paulistão, o time também sobrava e terminou como melhor da primeira fase. No entanto, em abril, Tite e o Corinthians cometeram seus raros pecados no ano.

Primeiro, na semifinal do Paulistão, o técnico errou ao optar por poupar jogadores importantes, como Elias e Ranato Augusto, na semifinal do Estadual contra o Palmeiras. O técnico queria preservar os atletas para a última rodada da Libertadores, contra o São Paulo, mesmo o time já estando classificado. O resultado foi desastroso: o time foi eliminado pelo Palmeiras nos pênaltis, perdeu para o São Paulo na Libertadores e em seguida deu adeus à competição continental após duas noites infelizes contra o desconhecido Guaraní, do Paraguai, nas oitavas de final. O caos estava instalado em Itaquera, mas Tite se redimiu com muito trabalho.

Apesar dos atrasos de salário e do interesse de outros clubes em seus principais atletas, Tite os convenceu a permanecer no clube. Além disso, deu confiança aos atletas que assumiram as vagas deixadas por antigos ídolos. Uendel, na lateral-esquerda, Malcom, no ataque, e sobretudo o camisa 9, Vagner Love, sofreram no início, mas se adaptaram ao esquema tático e corresponderam as expectativas do treinador.

Com serenidade, Tite escapou de todas as confusões. No meio da competição, quando o Corinthians teve vitórias contestadas por decisões da arbitragem – o técnico do Atlético-MG, Levir Culpi, chegou a dizer que o campeonato estava “manchado” – o gaúcho evitou comentar sobre o assunto. E provou que o título veio por “merecimento”, uma palavra muito utilizada no peculiar vocabulário “titês”.

O Corinthians assumiu a liderança na 18ª rodada, em jogo contra o Sport, e não a perdeu mais. Mesmo com o Atlético no encalço, o time seguiu jogando à sua maneira, com marcação adiantada e trocas de passes rápidos. Com o brilho de seus meias e a eficiência de seus atacantes-marcadores, a equipe obteve vitórias incontestáveis – como contra o Santos, em Itaquera, e diante dos Atléticos mineiro e paranaense, fora de casa.

O hexacampeonato confirmou que o ano sabático fez muito bem a Tite e que o Corinthians deu muita sorte de a CBF não ter contratado o melhor treinador brasileiro da atualidade. Assim como em 2011, técnico e time superaram grandes decepções – da outra vez, a vexatória eliminação para o Tolima na pré-Libertadores e a aposentadoria de Ronaldo iniciaram a reviravolta do time – e coroaram o ano com o título do Brasileirão. Desta vez, com sobras e futebol bem jogado.

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