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‘Reis’ brasileiros na Ásia garantem que jogar na China vale a pena

Ídolos do Guangzhou Evergrande, Elkeson e Muriqui fazem alerta sobre choque cultural, sobretudo em cidades pequenas. Mas afirmam que jogar e viver na China tem muitas vantagens - a maior, claro, é a condição financeira

A fuga em massa de jogadores e treinadores com passagens pela seleção brasileira rumo ao emergente futebol chinês levantou discussões acaloradas neste início de 2016. O termo “proposta irrecusável” foi repetido por quase todos aqueles que decidiram se aventurar em solo asiático e priorizar a estabilidade financeira em relação a uma carreira mais gloriosa. A moeda fraca, a desorganização do futebol nacional e o baixíssimo prestígio da CBF e da seleção brasileira parecem ter facilitado ainda mais a escolha, até mesmo para atletas que seguiam nos planos de Dunga. Mas, afinal, largar tudo no Brasil para ganhar uma fortuna e jogar na China é uma escolha realmente irrecusável? Os atacantes Elkeson e Muriqui, ídolos do Guanghzou Evergrande e brasileiros mais bem-sucedidos da história futebol chinês, revelam as vantagens e os percalços de atuar no país de 1,3 bilhão de habitantes.

Estrelas do futebol chinês

Estrelas do futebol chinês (/)

​O atacante carioca Muriqui, de 29 anos, foi o primeiro a chegar, em 2010, depois de rodar por diversos clubes do país, como Vasco e Atlético-MG. Na época, o Guanghzou estava rebaixado à segunda divisão devido a um escândalo de manipulação de resultados, mas foi comprado pela Evergrande Real Estate Group, segunda maior empresa imobiliária do país, que rebatizou o time. A injeção financeira fez com que o Guangzhou Evergrande rapidamente se tornasse o clube mais poderoso do continente asiático: venceu a segunda divisão em 2010 e a primeira divisão em todos os anos seguintes, além de ter conquistado duas vezes a Liga dos Campeões da Ásia e, por isso, disputado o Mundial de Clubes da Fifa em 2013 e 2015. Muriqui deixou o clube chinês em 2014 como ídolo absoluto e foi em busca de mais conforto familiar no Al-Sadd, do Catar, onde agora recebe assistências do veterano espanhol Xavi Hernández, ex-Barcelona, e desfruta do luxo das praias locais com a esposa e o filho. Outro herói do Guangzhou, Elkeson segue no time, ao lado de compatriotas como Ricardo Goulart, Paulinho e até o técnico Luiz Felipe Scolari. Autor dos gols mais importantes da história do clube, o jogador maranhense de 26 anos se diz plenamente adaptado à cultura local e garante que nem ele nem os outros compatriotas pensam em deixar a China.

“Os brasileiros não querem sair de jeito nenhum. Conversei muito com o Paulinho antes de ele vir, ele estava preocupado com alimentação, moradia. Eu disse a ele que aqui não é igual Inglaterra, mas poderia vir de olhos fechados. Tem mercado internacional, duas churrascarias brasileiras. Nós moramos todos juntos, no melhor condomínio da cidade, é bastante tranquilo”, conta Elkeson, que trocou o Botafogo pelo Guangzhou em 2012. Tanto ele quanto Muriqui, no entanto, ressaltam que nem todas as cidades chinesas oferecem estrutura e qualidade de vida ideais e que é sim, possível, dizer “não” aos chineses. “Tem cidades muito boas e outras mais antigas e difíceis de viver, com poucos estrangeiros. Os jogadores que não conseguem se adaptar são os que vão para estas cidades, porque têm poucas opções para a família. Antes de escolher, vale pesquisar bem a respeito do lugar onde vai ficar. O jogador pensa no dinheiro, mas depois pode acabar passando sufoco e, se a família não está bem, o jogador acaba não rendendo”, alerta Muriqui. “Se a vida fora do clube for ruim, eu não aconselho. É preciso dar estrutura para a família”, completa Elkeson.

Os primeiros reis brasileiros da China também citam as longas viagens entre as cidades, o frio e o choque cultural como as principais dificuldades. Apesar de ter tido restaurantes ocidentais à disposição, Muriqui não abria mão da culinária brasileira em casa. “Sempre que eu voltava do Brasil eu levava muito feijão, pra durar o ano todo”, diverte-se. As restrições do governo chinês em relação aos meios de comunicação – de potencial “subversivo”, alegam os políticos – também causam desconforto, mas os atletas arrumaram uma forma de “driblar” a rigidez da república socialista. “Quando eu estava lá estava censurado YouTube e Facebook e aí nos tínhamos que desbloqueá-los com um programa de VPN. Também não tem canal brasileiro de TV, a gente só conseguia acompanhar as coisas pela internet mesmo”, contou Muriqui.

Agora desfrutando do luxo do Catar, Muriqui admite que os anos fora do Brasil garantiram o futuro de seus familiares, mas ressalta que é preciso saber tomar conta das finanças. “Eu tenho uma equipe que me ajuda a investir meu dinheiro e diversificar meus negócios. Tenho imóveis e algumas aplicações que me dão um bom rendimento mensal. Também estamos abrindo uma empresa pela internet que é uma aposta. Procuro estudar, ler bastante, para não ficar alienado.” Muriqui garante que viver na Ásia pode ser muito bom, mas não crava qual é a melhor opção entre China e Catar. “Depende. Os dois dão uma condição financeira boa. Se for para jogar um campeonato mais disputado, eu diria que é melhor ir para a China. Mas se você quer desfrutar da vida, com a família, o Catar é melhor. É um país pequeno, tem boas praias e bons restaurantes”.

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Seleção – A ida de atletas renomados rumo à China reacendeu as velhas discussões sobre “amor à camisa” e, sobretudo, sobre o valor de jogar pela seleção brasileira e disputar uma Copa do Mundo. Diego Tardelli e Ricardo Goulart são os exemplos recentes de jogadores que deixaram de ser convocados depois da fuga para a China. Ainda assim, Renato Augusto, que terminou o ano como titular de Dunga e melhor jogador do Brasileirão, preferiu a garantia da fortuna chinesa à dúvida da glória na carreira, alegando ser um jogador com histórico de lesões. Muriqui, que deixou o país com 24 anos, citou o caso de Diego Tardelli para defender sua escolha e a dos outros compatriotas que abriram mão da chance de vestir a amarelinha.

“Eu penso o seguinte: na seleção só tem lugar para 23 convocados e nossa carreira é curta. O Tardelli, com quem eu joguei no Atlético-MG, tinha esperança de jogar as duas últimas Copas e não foi, mesmo tendo feito grandes campeonatos. Seleção é escolha do treinador e não tem espaço para todos. Chega um momento da vida que o jogador tem que ter prioridades. Eu priorizei minha família e meu futuro. E acho que eles também.” Elkeson, no entanto, acredita que a ida de tantos atletas pode fazer Dunga e a comissão da CBF prestarem mais atenção ao futebol chinês. “Antes ninguém acompanhava o futebol daqui, mas agora isso mudou, as pessoas já olham com outros olhos e acho que se o jogador estiver bem em seu clube pode ser convocado, sim”, aposta o jogador.

Elkeson, inclusive, nega que o futebol chinês seja menos exigente que o brasileiro e diz que se sente um jogador melhor depois dos quatro anos em que trabalhou com treinadores como os italianos Marcello Lippi e Fabio Cannavarro e Felipão.” A exigência física é até maior, pelo fato de o futebol na China ser mais de correria, no Brasil o jogo é mais cadenciado. Acredito que evolui como jogador sim, sou mais experiente, aprendi a me posicionar melhor e entrar na área para fazer os gols. Hoje minha característica é bem diferente de quando eu jogava no Brasil.”

China e o sonho de se tornar uma potência da bola

Campeã do quadro de medalhas quando sediou a Olimpíada em 2008, a China também quer se tornar uma potência no esporte mais popular do planeta. Por isso, o desenvolvimento do futebol virou política de Estado. Xi Jinping, presidente chinês desde 2013, é um apaixonado por futebol e tem sonhos ambiciosos: levar o país novamente a uma Copa do Mundo (o que não ocorre desde 2002), sediar um Mundial e, quem sabe um dia, até vencê-lo. A maioria dos clubes do país é mantida por milionários e suas empresas, o que possibilita estas grandes contratações. Os estádios estão cada vez mais cheios – no ano passado, a superliga chinesa ultrapassou a marca de 20.000 espectadores de média por partida – e a mídia local passou a se interessar mais pelo esporte. O futebol passou a ser incentivado em todas as escolas chinesas e a expectativa dos governantes é que a popularidade da modalidade se aproxime do campeão tênis de mesa em breve.

Muriqui ressalta que o investimento no futebol tende a crescer ainda mais. “O interesse pelo futebol na China não é uma coisa passageira. Eu fui em 2010, depois foram Conca, Anelka, Drogba, agora foram Felipão, Luxemburgo, Mano Menezes. Já faz uns seis anos que eles estão nessa batida. Eles assustaram os brasileiros este ano porque colocaram mais dinheiro, mas isso não começou agora e acho que eles vão continuar investindo por um bom tempo.” O ex-jogador do Atlético-MG cita também a desvalorização do real como um grande trunfo para as equipes asiáticas. “Sei que a economia do Brasil passa por uma grande crise, mas para nós está sendo bom, porque o dólar está alto. Claro que eu não torço pela mal do meu país, mas no momento a situação está favorável aqui.”

Devido ao objetivo de se tornar uma potência, o futebol na China possui algumas peculiaridades: cada time só pode contar com cinco atletas estrangeiros (só quatro podem estar em campo) e os goleiros têm, obrigatoriamente, que ser chineses – para manter as equipes mais niveladas e desenvolver o nível dos arqueiros locais. O país, porém, não trabalha com a política de naturalizações para reforçar as seleções chinesas – método muito comum em diversos países, inclusive no Brasil, em outras modalidades. “Todas vez que os jogadores da China voltam, eles me trazem camisas da China de presente. Eles sempre brincam que o time precisava de um camisa 9. Mas é só brincadeira, nunca ninguém me convidou de verdade”, conta Elkeson.

Tetracampeão e artilheiro de duas edições do Campeonato Chinês, Elkeson explica que a hegemonia do Guanghzou não se deve apenas ao fato de ter destaques estrangeiros, mas sobretudo à qualidade do elenco chinês – mais de dez atletas da seleção local atuam na equipe dirigida por Luiz Felipe Scolari. A força do time ficou comprovada nas duas participações no Mundial de Clubes: em 2013, com Muriqui e Elkeson no ataque, vitória por 2 a 0 sobre o egípcio Al-Ahly, e derrotas por 3 a 0 para o alemão Bayern de Munique e por 3 a 2 para o Atlético-MG. Em 2015, o Guangzhou venceu o América do México por 2 a 1 e perdeu para o todo-poderoso Barcelona por 3 a 0 e para o japonês Sanfrecce Hiroshima por 2 a 1. Da derrota para o Barça, Elkeson guarda boas lembranças apesar da eliminação e da ausência de Lionel Messi e Neymar, poupados. “Eu preferia que eles tivessem jogado porque o jogo seria mais atraente, mas deu pra gente aproveitar o momento e ver que ainda precisamos melhorar muito.” De recordação, Elkeson levou a camisa 11 de Neymar, com quem ainda sonha em fazer dupla jogando pela seleção brasileira.

O atacante brasileiro Elkeson do Guangzhou Evergrande passa pela marcação do espanhol Piqué durante partida contra o Barcelona no Mundial de Clubes em 2015

O atacante brasileiro Elkeson do Guangzhou Evergrande passa pela marcação do espanhol Piqué durante partida contra o Barcelona no Mundial de Clubes em 2015 (/)

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