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O Haiti é aqui na Mooca

Equipe haitiana Pérolas Negras se despediu da Copa São Paulo de Futebol Júnior como sensação do torneio. E com uma lição de humanidade na Rua Javari

O saboroso cannoli da Rua Javari, como é conhecido o tradicional estádio do Juventus da Mooca, já estava esgotado quando a equipe do Pérolas Negras pisou no gramado onde Pelé marcou, segundo ele próprio, o gol mais bonito de sua carreira. Desde sua chegada, um dia antes da virada para 2016, a equipe haitiana se tornou a grande sensação da 47ª edição da Copa São Paulo de Futebol Júnior e fez do italianíssimo bairro da capital paulista um pedacinho de Porto Príncipe no Brasil. Em sua segunda partida na competição, o Pérolas Negras – ou Perles Noires, no nome original – recebeu apoio irrestrito das quase centenárias arquibancadas da Rua Javari, com o reforço de um grupo de haitianos que, assim como os atletas, busca construir uma carreira em solo brasileiro para ajudar suas famílias que sofrem na América Central. Em campo, o time amparado por uma ONG carioca mostrou bom futebol, mas saiu desapontado: duas derrotas por 2 a 1 e eliminação antecipada do torneio. O resultado, porém, pouco importou.

Em um crioulo haitiano fluente – mas com evidente sotaque mineiro de Juiz de Fora – o treinador brasileiro Rafael Novaes passou as instruções aos atletas no vestiário, uma hora antes da partida. Todos ouviram calados, inclusive Bebeto Muraille, meio-campista batizado em homenagem ao atacante brasileiro campeão da Copa de 1994, mas que não entende praticamente nada em português. Os jogadores pareciam tensos, provavelmente estranhando o número de jornalistas presentes no local. Esta, porém, não foi a primeira participação da equipe haitiana em um torneio internacional. O único time estrangeiro desta edição da Copinha foi fundado meses depois do terremoto que tirou a vida de cerca de 100.000 pessoas em janeiro de 2010. Todos os atletas da equipe estavam no país no dia do abalo sísmico e vários deles perderam parentes na tragédia. A Academia de Futebol Pérolas Negras, a sede do time em Porto Príncipe, é bancada pela Viva Rio, ONG que trabalha em parceria com a ONU no Haiti desde 2004 e que elegeu o esporte como forma de promover o desenvolvimento no país mais pobre da América Latina.

O drama de Fénelón, o camisa 10 haitiano

Rubem César Fernandes, o diretor-executivo da Viva Rio, conta que as boas perspectivas no Haiti ruíram junto com as casas há seis anos. “De 2004 a 2009 houve um progresso impressionante, bonito de se ver. Era consenso inclusive na ONU que o Haiti estava no caminho certo. Tanto que o Bill Clinton foi indicado a ser o representante da ONU no Haiti e fez uma reunião com 600 empresários para discutir como investir no país. Essa era a perspectiva até que veio o terremoto e jogou tudo para o alto”, contou o antropólogo, que desde 2006 passa dez dias por mês em Porto Príncipe. “A coisa foi muito impressionante porque trouxe o que há de pior e melhor no ser humano. Dizimou o país, inclusive gente da ONU e do exército brasileiro. O bairro em que estávamos foi 90% destruído, muitos amigos queridos morreram. Mas tenho muitas histórias alegres também. Às vezes o humor deles é bem parecido com o nosso. Malandragem também existe lá, é chamada de marronage, mas é um pouco diferente, tem a ver com o histórico de escravidão no país.”

Quando a bola rolou, talvez tenha faltado um pouco de malandragem brasileira ao Pérolas Negras, mas sobraram disposição e empenho. O camisa 7 Camille Dany foi o mais ousado e participativo, e levantou o público com uma sequência de dribles pela ponta direita. Ao contrário da estreia, derrota por 2 a 1 para o anfitrião Juventus, desta vez a torcida na Javari não ficou dividida. O bom público presente na escaldante terça-feira em São Paulo se divertiu na partida diante do América-MG, em um ambiente que nada fez lembrar as geladas arenas padrão Fifa. “Zagueirão com um cabelo desses? Raspa isso aí, meu!”, provocou um torcedor juventino, inconformado com o corte modernoso de um defensor do time mineiro. Até mesmo o conhecido humorista Batoré apareceu para dar uma força. “Vi na TV a história linda desses meninos e resolvi vir para cá torcer”, contou o comediante. Entre a maioria formada por moradores da região se misturou também um grande grupo de haitianos que veio trabalhar em São Paulo e tem sonhos semelhantes aos dos atletas. Muitos deles, porém, vêm sendo vítima de preconceito e maltratados em seus abrigos no centro de São Paulo. Desconfiados, não queriam muito papo com os brasileiros. Depois do jogo, os compatriotas que deixaram as obras para ver os jogadores não dispensaram as indefectíveis selfies com os novos heróis.

Ricardo Matsukawa/VEJA

O Pérolas Negras não jogou mal, pelo contrário. Mostrou organização tática, evitou chutões na defesa e levou vantagem em alguns momentos graças à força física. Mas pecou bastante na transição entre o meio-campo e o ataque e foi castigado em duas bobeadas da defesa que terminaram em gols de Matheusinho, destaque da equipe mineira. Antes, o time haitiano havia empatado o duelo em cobrança de pênalti, para euforia da torcida no fim do primeiro tempo. Dany marcou ao pegar rebote da cobrança de Fénélon Marckenson – protagonista do duelo, por motivos dramáticos: soube da morte do pai um dia antes da partida. O Pérolas Negras buscou desesperadamente a igualdade nos minutos finais, mas terminou com o gosto amargo da desclassificação com uma rodada de antecipação. “Agora estou triste, mas perder e ganhar faz parte da vida. Muito obrigado aos torcedores que estavam aqui para nos apoiar”, disse o meia Anel Jean Louis, um dos poucos atletas do time a arranhar o português – aprendeu sozinho, graças ao convívio com a comissão técnica -, e que tem como ídolo o volante Luiz Gustavo, da seleção brasileira.

O técnico Rafael Novaes estava desapontado com a derrota e com os vacilos nos gols, mas se disse orgulhoso dos jovens. “Os gols que levamos foram detalhes, inexperiência da nossa parte. Mas não vai ter bronca nenhuma, só agradecimento a estes meninos.” Apesar de estar há uma semana em São Paulo, o grupo apenas treinou, jogou e descansou e ainda não teve chance de conhecer os pontos turísticos da cidade. Agora, já com o time sem chances de classificação, o técnico promete ser menos linha-dura. “Agora vamos dar uma liberada nos meninos, mas não podemos esquecer do último jogo.” Na quinta-feira, encara o São Caetano, novamente na Javari, apenas para cumprir tabela. O massagista Rafael Moreira, que assim como o treinador vive em Porto Príncipe (ambos têm uma folga de vinte dias a cada três meses para retornar ao Brasil), se disse emocionado com a superação dos atletas. “Perdemos para equipes tradicionais e jogando bem, as pessoas que vieram saíram satisfeitas e o melhor troféu para nós é ver como as pessoas torceram. Todo mundo aplaudiu, viu que os meninos têm garra e querem mesmo ser profissionais.”

O Pérolas Negras não veio até o Brasil a passeio. A intenção dos jovens atletas era chamar a atenção de olheiros e receber uma oportunidade no país. “Outros clubes já procuraram os meninos, sabem que eles são bons de bola. Agora vamos conversar e tentar encaminhar os garotos”, despistou o treinador Rafael. A Viva Rio, no entanto, pretende finalizar um feito inédito: abrir uma filial da equipe na cidade maravilhosa e disputar a Série C do Campeonato Carioca já este ano. “Queremos dar continuidade ao projeto e o time deve começar pela terceira divisão. Mas, para isso, teremos que mesclar o time com atletas brasileiros, porque o regulamento não permite um time todo de estrangeiros. Essa mescla será boa”, apostou o chefe Rubem Moreira.

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