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Leicester City: um pequeno grande time

Equipe deve conquistar o título inglês depois de 132 anos, desafiando a lógica do esporte – e do mercado. É como se a Ponte Preta vencesse o Campenato Brasileiro

Acalme-se, torcedor pontepretano. A referência não é uma depreciação do tradicional clube alvinegro de Campinas, mas uma exaltação à façanha do Leicester City, o iminente campeão inglês de 2016. Contrariando todas as expectativas, a equipe da região central da Inglaterra pode conquistar, com duas rodadas de antecedência, seu primeiro título na elite inglesa em 132 anos de história, neste domingo. Com elenco e orçamento modestíssimos se comparados aos gigantes da Premier League, as Raposas, como a equipe é apelidada, iniciaram a temporada com um único objetivo: escapar do rebaixamento. No entanto, uma sequência de vitórias (quase todas apertadas e com excesso de chutões) tornou o sonho possível, mesmo em um campeonato de pontos corridos e tido como o mais competitivo da Europa. Transportando para a realidade brasileira, é como se a Ponte Preta – ou ainda Figueirense, ou Vitória ou América Mineiro – passasse por cima dos clubes mais ricos do país e conquistasse o Brasileirão pela primeira vez.

Fosse um filme (já há negociações para que essa história seja recontada no cinema), a campanha do Leicester seria criticada por ter um roteiro exageradamente surreal e excesso de protagonistas. Jamie Vardy, o artilheiro do campeonato, até pouco tempo atrás atuava na quinta divisão e fazia bicos como operário; hoje, aos 29 anos, é destaque da seleção inglesa. O técnico italiano Claudio Ranieri, de 64 anos, treinou algumas das principais equipes da Europa, como Juventus, Inter de Milão e Chelsea, mas só deve chegar ao seu primeiro título de liga nacional com o Leicester. Destacam-se ainda o argelino Riyad Mahrez, desconhecido no ano passado, nesta semana eleito o melhor jogador do campeonato; o incansável volante francês N’Golo Kanté e o frio goleiro dinamarquês Kasper Schmeichel, filho do lendário Peter Schmeichel, ídolo do Manchester United. Até Pelé disse estar maravilhado com a sensação do futebol inglês. “Football is a box of surprises“, afirmou a jornais locais, traduzindo para o inglês o surrado chavão da bola. O primeiro título nacional do Leicester desafia a lógica, não só por fatores esportivos (o time tem evidentes limitações técnicas), mas econômicos.

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A comparação com a Ponte Preta faz sentido em termos esportivos e financeiros e ajuda a compreender o feito do Leicester. Ambos são clubes médios, porém tradicionais. A Ponte, segundo clube de futebol mais antigo do Brasil (atrás apenas do Sport Club Rio Grande), foi fundada em 1900, 16 anos depois da equipe de Leicester, cidade com pouco mais de 300.000 habitantes. Ambas também já revelaram grandes jogadores que brilharam em Copas do Mundo, como o goleiro Gordon Banks e o atacante Gary Lineker, pelo English Team, e o zagueiro Oscar e o atacante Luis Fabiano, pela seleção brasileira, entre outros. A maior coincidência, no entanto, não é positiva: Ponte Preta e Leicester jamais conquistaram um título nacional da primeira divisão. A equipe inglesa chegou mais perto: foi vice-campeã em 1929, foi sete vezes campeã da segunda divisão e venceu três vezes a Copa da Liga Inglesa (1964, 1997 e 2000). A equipe campineira, cinco vezes vice-campeã paulista e vice-campeã da Sul-Americana de 2013, tem como melhor campanha no Brasileirão um terceiro lugar em 1981. Economicamente, elas também se equivalem – guardadas as devidas (e muito distantes) proporções -, pois não conseguem competir com os gigantes de seus países.

Uma ressalva: ao contrário de qualquer clube médio brasileiro, o Leicester recebeu um impulso financeiro essencial. Em agosto de 2010, o clube foi comprado por 39 milhões de libras (cerca de 200 milhões de reais pela cotação atual) por um grupo asiático, o Asian Football Investments, que tem como sócia majoritária a King Power – maior empresa de freeshops do mundo, que batizou o estádio do clube e é sua principal patrocinadora. O dono da empresa e do clube é o tailandês Vichai Srivaddhanaprabha, 612ª pessoa mais rica do mundo, de acordo com a revista Forbes, com um patrimônio estimado em quase 3 bilhões de dólares (10 bilhões de reais). De cofres bem mais cheios, o clube retornou à primeira divisão em 2014 depois de dez anos de ausência. Naquele momento, o magnata Vichai contou que pretendia gastar 180 milhões de libras para colocar o clube entre os cinco melhores da Inglaterra em três anos. Já fez mais que isso e em menos tempo.

Está claro que sem o incentivo asiático o milagre do Leicester não seria possível. Mas também é fato que, mesmo com todos os valores investidos, o Leicester ainda está muito longe de se equiparar economicamente às potências inglesas, como os tradicionais Manchester United, Liverpool e Arsenal e os novos-ricos Chelsea e Manchester City. Segundo levantamento da Delloite, o Leicester foi 12º time que mais faturou na liga inglesa na temporada 2014/2015: 104 milhões de libras, mais de 200 milhões a menos que a receita do campeão da lista Manchester United.

Uma possível explicação para o sucesso do Leicester diz respeito às exorbitantes cotas de TV da Premier League, apontadas como as mais justas do mundo. A fórmula é simples: 50% do total é dividido igualmente entre todos os 20 times; 25% se refere à classificação das equipes na temporada anterior (o campeão recebe 20 vezes mais do que o último colocado) e os outros 25% levam em conta as transmissões de TV e a audiência. No início da temporada, o Chelsea (último campeão) recebeu 99 milhões de libras e o Leicester (14º colocado) 71.6 milhões. No Brasileirão de 2016, as diferenças neste quesito serão abissais: Corinthians e Flamengo devem receber 170 milhões de reais em cotas de TV, enquanto Ponte Preta, América-MG, Chapecoense, Figueirense e Santa Cruz, os menos beneficiados, ficarão com cerca de 20 milhões de reais.

No entanto, só as cotas de TV não são suficientes para equiparar clubes grandes, médios e pequenos. Um dado assustador diz respeito aos patrocínios de camisa. Estudo feito pelo site Sporting Intelligence mostrou que o Manchester United recebe 47 milhões de libras por temporada da montadora americana Chevrolet (o maior contrato de patrocínio do mundo). O Leicester, por sua vez, recebe apenas 1 milhão de libras da King Power, provavelmente menos do que a Ponte Preta recebe da marca de refrigerantes Viva Schin – o clube não revela os valores do acordo, mas informou que era o maior de sua história (e o anterior lhe rendia 4 milhões de reais anuais).

A comparação do Leicester com um clube médio do Brasil também se justifica em relação ao perfil dos jogadores. Com média de idade de pouco mais de 28 anos, o elenco é formado basicamente por “refugos” – como são jocosamente chamados os jogadores experientes que não tiveram sucesso em outros clubes -, como o zagueiro alemão Robert Huth, antes ridicularizado no Chelsea e hoje um dos pilares do Leicester. Segundo levantamento do Transfermarkt, site alemão especializado em análise de mercado no futebol, o Leicester iniciou a temporada de 15/16 com o 17º valor de mercado da liga inglesa, 60,9 milhões de libras – a quantia é a soma do valor de mercado de todos os atletas do clube, levando em conta critérios como títulos, gols, salário, atuações por seus clubes e seleções, idades, e a opinião de especialistas.

Passados sete meses, e com a incrível valorização de seus atletas – Mahrez valia 938.000 libras no início do torneio e hoje está avaliado em 15 milhões de libras – o Leicester cresceu em mais de 50 milhões de libras, mas ainda está bem longe do topo. É o 12º da lista atualizada do Transfermarkrt, com valor de mercado de 95.25 milhões de libras, apenas 25,3% do total do líder Manchester City (376,31 mi de libras). Para efeito de comparação, no levantamento do site alemão, a Ponte Preta aparece com o 13º maior valor de mercado da Série A do Brasil, com 25,30 milhões de libras e 32,2% do valor do líder São Paulo (78,50 mi de libras).

Os números ajudam a entender, mas não explicam completamente a excepcional campanha do Leicester. Apesar de não ter um estilo de jogo vistoso, o time manteve uma incrível regularidade ao longo de toda a temporada e foi abraçado pela população do Condado de Leicestershire, muito mais acostumada aos feitos do ótimo time de rúgbi local. O estádio King Power, com capacidade para pouco mais de 32.000 pessoas está sempre cheio. As camisas azuis do time estão esgotadas em todo o Reino Unido. E, num gesto de enorme respeito aos fãs, o Leicester anunciou recentemente que congelará o preço dos ingressos para a próxima temporada – quando o time debutará na Liga dos Campeões da Europa. Quem sofreu com o time nos últimos anos não terá de gastar nenhum centavo a mais para curtir seu momento mais glorioso.

A façanha do Leicester em 2016 não deve ser comparada nem mesmo a surpreendentes conquistas do Brasileirão, como as de Guarani (1978), Coritiba (1985), Sport (1987), Bahia (1988) e Atlético-PR (2001), pois estas foram conquistadas em competições de mata-mata, muito mais propensas a zebras, e em épocas em que o dinheiro tinha bem menos influência nas disputas. Está provado que, por pontos corridos, é praticamente impossível vencer os mais poderosos. Desde que o Brasileirão adotou o formato, em 2003, apenas os clubes considerados grandes levantaram o troféu. Na Inglaterra, um azarão não vence o campeonato desde o Blackburn Rovers, em 1995. O inédito título do Leicester pode ser confirmado neste domingo, a partir das 9h30 (horário de Brasília), diante do Manchester United, em Old Trafford. Caso o Leicester não vença, a conquista pode acontecer na segunda-feira, quando o vice-líder Tottenham enfrenta o Chelsea, na casa do adversário. O Leicester tem 76 pontos, sete a mais que o Tottenham, a três rodadas do fim.

Fatos, feitos e curiosidades sobre o Leicester City

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