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Documentário conta a história do trio brasileiro que revolucionou o surfe de ondas gigantes

Os baianos Danilo Couto, Márcio Freire e Yuri Soledade foram os primeiros a encarar os paredões de água de Jaws, no Havaí, sem o auxílio de jet-ski

Pense em descer um penhasco enquanto carrega uma enorme prancha de mais de 10 pés de comprimento (cerca de três metros), atravessar inúmeras pedras escorregadias no momento certo para não ser arrastado por ondas que ali quebram. Depois de entrar no mar, tente remar até cruzar a arrebentação e, então, se jogar em uma onda com 20 metros de altura e força suficiente para destruir todos os ossos do corpo. O que parece um pesadelo para 99% das pessoas era o grande sonho dos baianos Danilo Couto, Marcio Freire e Yuri Soledade. Pela coragem e ousadia, o trio foi apelidado de Mad Dogs (cachorros loucos, em tradução do inglês). “É uma gíria local do Havaí, que representa as pessoas que fazem algo inesperado. Não é exatamente loucura, seria mais um tipo de pioneirismo”, defende-se Danilo. Mad Dogs também é o nome do documentário que conta a história desses três brasileiros. O filme estreia no sábado 17, às 23 horas, no Canal OFF. A partir da próxima semana, uma série de 10 episódios também será exibida no canal, toda sexta-feira, às 22 horas, esmiuçando os detalhes da conquista.

Danilo, Marcio e Yuri passaram mais de uma década em busca desse sonho, com a missão de provar ao mundo que era possível, sim, surfar sem o auxílio de um jet-ski as ondas gigantes que ocorrem num local conhecido como Jaws, na ilha de Maui, no Havaí, consideradas as maiores e mais violentas do mundo. E isso em uma época em que o tow-in (modalidade em que o surfista é rebocado por motos náuticas para pegar a onda) estava no auge. “Nós estávamos loucos para surfar lá, mas não tínhamos condições financeiras de comprar um jet-ski. Foi assim que surgiu a ideia de ir na remada”, conta Yuri, o primeiro dos três a encarar as ondas de Jaws (cujo apelido surgiu em alusão ao nome em inglês do filme Tubarão, da década de 70).

A ousadia era tamanha que do surgimento da ideia (o ano era 1996) de encarar as ondas gigantes no braço até, de fato, a primeira sessão de surfe passaram-se sete anos. Dali em diante, Danilo, Marcio e Yuri surfaram em Jaws sem fazer alarde. “Passamos cinco ou seis anos surfando sozinhos. Não queríamos que o local virasse ponto turístico”, diz Yuri. O segredo, porém, não resistiria por muito tempo. Em 2011, a aventura ficou famosa quando Danilo encarou uma onda para direita de 18 metros de altura, considerada, até então, a maior já surfada na remada em toda história. Ele venceu a principal categoria do XXL Big Wave Awards, premiação considerada o Oscar das ondas gigantes.

Os três baianos de 40 anos escreveram um novo capítulo na história da modalidade e deram um grande impulso para os “puristas” adeptos da remada. São esses quinze anos fundamentais que estão retratados no documentário. O filme já começa mostrando a diferença de personalidade dos protagonistas. “Eles são melhores amigos, mas são três pessoas bem diferentes. O Márcio é elevado espiritualmente, está sempre tranquilo, calmo e feliz. O Danilo é aquele cara pilhado, querendo sempre mais e mais, com adrenalina a mil. O Yuri é extremamente focado, ele sabe exatamente o que fazer e onde quer chegar”, entrega o diretor Roberto Studart, que estudou no mesmo colégio que Danilo e Márcio e acompanha a trajetória dos Mad Dogs desde o início. O ponto em comum para fazer a amizade durar tanto tempo? “O amor pelo surfe. Dentro da água, nossas personalidades se encontram e ficam muito parecidas. Quando estamos no mar, ficamos tranquilos e muito focados”, relata Yuri.

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Entre momentos engraçados – principalmente com Márcio, que choca pela naturalidade com que fala sobre os feitos do trio – e desesperadores, como quando os surfistas levam as famosas “vacas” (os tombos de paredões altíssimos), Studart encontra tempo para assumir uma postura crítica em relação à World Surf League (WSL), a entidade que organiza o campeonato de ondas grandes e também o WCT, o campeonato mundial disputado por Gabriel Medina, Adriano de Souza entre outros. Nenhum dos três Mad Dogs foi convidado para participar do evento em Jaws, que só existe porque eles provaram que a onda poderia ser surfada na remada. “Os meninos não tiveram o devido reconhecimento. Achei que isso deveria ser mostrado”, explica o diretor.

Mesmo sabendo que foram injustiçados, Danilo garante que o foco não é reivindicar algo. “O meu trabalho hoje em dia não tem muita relação com a WSL e campeonatos. A minha maior recompensa é quando consigo pegar ondas mágicas, é como se fosse uma resposta do oceano. Isso é muito mais importante que qualquer convite para campeonato”, reforça. Para Yuri, o objetivo do documentário é contar a história de um sonho, que precisou de muito tempo, esforço e preparação para se concretizar. “Quando estou naquela situação extrema, me sinto vivo. É o momento no qual me sinto mais feliz”, é como o surfista pioneiro resume a experiência. Se realmente são cachorros loucos? Danilo responde: “Não, é tudo uma conexão com a natureza. E nós somos baianos, né? O dendê com certeza é um diferencial! Sem esquecer da passagem do trio elétrico. Se você está preparado para encarar aquele mar de gente, você também consegue enfrentar esse mar de ondas.”

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