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Christopher Stokes

Sem poder ajudar

Para diretor-geral da ONG Médicos Sem Fronteiras, o avanço do populismo nacionalista e as guerras envolvendo múltiplos atores dificultam a ajuda humanitária. Era mais fácil na Guerra Fria

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A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi criada em 1971 por doutores e jornalistas franceses com o ideal de que qualquer pessoa, em qualquer canto do planeta, tenha direito à assistência médica, não importando seu sexo, raça, religião ou simpatia política. Atualmente, a MSF está em setenta países e conta com uma rede de 36 000 profissionais, incluindo 170 médicos brasileiros. Fundada com o pressuposto de atravessar as fronteiras para atuar de maneira imparcial, a entidade hoje enfrenta uma crise com o avanço do nacionalismo e da xenofobia e com a construção de muros e cercas nos limites territoriais. Diretor-geral de um dos cinco centros operacionais de MSF, em Bruxelas (a ONG não tem um comando centralizado), o franco-inglês Christopher Stokes, que integra a organização desde 1993 e é formado em Relações Internacionais, falou a VEJA sobre esses desafios. Entre os países onde ele já trabalhou estão Ruanda, Azerbaijão, Angola, Timor Leste e Líbano.

As mudanças políticas que aconteceram no mundo após o fim da Guerra Fria tiveram um impacto no trabalho da MSF? Houve uma fragmentação das fontes de poder. Não lidamos mais só com os Estados Unidos ou com os soviéticos. Hoje há muito mais Estados envolvidos em cada ação da MSF. Na Guerra da Síria, iniciada em 2011, quase todos os governos do Oriente Médio estão de alguma forma imbricados. Além disso, eles não seguem apenas duas linhas, como ocorria na época da Guerra Fria. Antes, ou os países estavam com os americanos ou com os soviéticos. Agora, há inúmeros caminhos possíveis. Turcos, sauditas, iranianos, americanos e russos têm suas orientações individuais. Isso tornou mais complexas as negociações para obter acesso para os nossos médicos.

Qual região do mundo, hoje, preocupa mais a MSF? Em termos de intensidade da violência, a situação em Mossul, no Iraque, é o conflito mais grave em que a MSF atua. Antes da batalha para retomar a cidade do Estado Islâmico (EI), havia 700 000 civis por lá. Muitos já fugiram, mas ainda restam 300 000. Quando estive em Mossul em abril, fiquei impressionado com a virulência da batalha e com o impacto nas pessoas. Vi uma criança que foi atingida por um atirador quando tentava escapar da confusão. A população está aprisionada. De um lado está o EI, que em alguns casos parece não querer que as famílias saiam, e por isso atira nelas. Do outro está a artilharia e o bombardeio pesado da coalizão integrada pelo Exército iraquiano. Essa realidade faz com que seja muito difícil para uma organização como a nossa, que prima pela imparcialidade, atuar. Nós nunca escolhemos um lado nos conflitos porque isso pode atrapalhar o acesso dos nossos médicos à população. Para evitar uma reação desse tipo, gastamos muito tempo explicando para o público e para as autoridades que somos independentes. Mas manter essa postura em Mossul é um desafio enorme. Muitas organizações que prestam ajuda estão alinhadas com um ou outro lado, o que torna essa zona muito perigosa para todos.

A MSF já negociou com grupos terroristas como o Estado Islâmico para penetrar em territórios onde civis precisam de socorro? De maneira geral, sempre houve grupos de oposição nas regiões em que temos presença e conversamos com eles. Fizemos isso na guerra civil em Angola (1975-2002), em Serra Leoa (1991-2002) e no Afeganistão. Agora, contudo, nos deparamos com a impossibilidade de ter um diálogo médico e humanitário com grupos como o Estado Islâmico, o Boko Haram na Nigéria e Al Shabab na Somália. Em 2014, o EI sequestrou voluntários da MSF na Síria. Desde então, tivemos que retirar nosso pessoal do norte do país. Para compensar, damos apoio aos médicos sírios e outros profissionais de saúde que estão na linha de frente desses conflitos.

A MSF não consegue sequer trabalhar nos territórios sírios sob controle do governo? O Estado sírio nunca nos deu autorização para isso. Negociamos por anos, sem sucesso. Acredito que o fato de termos sido a primeira organização independente a confirmar que houve uso de um agente neurotóxico (arma química) contra a população civil, em 2013, tem sido um empecilho.

“É algo bem chocante. A Europa defende os direitos humanos no mundo, mas não parece pronta, às vezes, para defendê-los em suas próprias fronteiras”

Que tipo de assistência é possível dar às vítimas de um ataque químico, como o que ocorreu este ano na província síria de Idlib? É muito difícil tratar os pacientes sem colocar em risco o próprio pessoal. As armas químicas fazem com que seja quase impossível salvar as pessoas porque pode-se colocar em perigo os médicos e enfermeiros que entram em contato com as substâncias que estão no corpo das vítimas. Nesses casos, nos vemos totalmente impotentes.

Os países europeus se esforçam para impedir ou ao menos reduzir a entrada de refugiados em seus territórios. Como isso impacta o trabalho da MSF? Os governos europeus têm tomado diferentes medidas, que incluem a construção de cercas e a assinatura de um acordo diplomático com a Turquia, pelo qual a União Europeia oferece uma recompensa financeira para que Istambul se esforce para reter os candidatos a asilo dentro de seu país. Esse acerto condena as pessoas a ficar na Turquia, que já sofre com uma carga elevada de refugiados. Também sabemos que, às vezes, a Turquia força a volta deles para a Síria, um país que continua em guerra e onde as condições são atrozes.

Como tem sido o tratamento dispendido aos refugiados que entram na Europa? Temos um problema especificamente na fronteira entre a Sérvia, que não integra a União Europeia, e a Hungria.

O que acontece por lá? A Hungria construiu cercas ao longo de sua fronteira, mas elas não são suficientes para conter as levas de desesperados. Então, há uma prática de abuso sistemático por parte da polícia húngara. Não estou falando de atos de indivíduos isolados. Estou me referindo a uma prática regular. Os guardas obrigam, por exemplo, as pessoas a tirarem suas roupas na neve. Eles as agridem na cabeça e as deitam no solo. Depois, andam sobre suas costas com os sapatos, ferindo-as. Às vezes, os policiais filmam esses atos e fazem piadas com os refugiados. É algo muito humilhante, cujo objetivo principal parece ser o de dissuadi-los de entrar na Europa. Os líderes do continente, contudo, estão fechando os olhos para isso. É algo bem chocante. A Europa defende os direitos humanos no mundo, mas não parece pronta, às vezes, para defendê-los em suas próprias fronteiras.

“Houve uma fragmentação das fontes de poder. Não lidamos mais só com os EUA ou com os soviéticos. Isso tornou mais complexas as negociações para obter o acesso dos nossos médicos”

Como explicar esse cinismo europeu? Parece que, com a chegada de refugiados e imigrantes em larga escala, os valores que eram defendidos como universais se tornaram questionáveis para alguns políticos. Aliado a isso, tivemos a crise econômica, a ascensão do populismo e a falha dos políticos em demonstrar liderança. Como a MSF é neutra e independente, não falamos de partidos. De forma geral, porém, as lideranças políticas europeias não demonstraram coragem para sustentar as convenções para os refugiados e os direitos humanos dos migrantes, cuja aplicação fora da Europa sempre foi defendida. O caso da fronteira entre a Sérvia e a Hungria é representativo de um enfraquecimento geral dos direitos de refugiados e imigrantes. Essa tem sido a tendência dos últimos dois ou três anos. Não é algo que esperávamos dos governos europeus.

A população europeia está em sintonia com seus políticos? Ao mesmo tempo em que fomos surpreendidos negativamente com o cinismo dos líderes em determinados países, fomos impactados positivamente pelo apoio popular com a assistência aos refugiados. Esse é um sentimento humano básico: ajudar alguém que precisa. Na Sérvia, fiquei impressionado com organizações locais e de voluntários que não tinham uma agenda política, mas que viram que as pessoas precisavam de apoio e foram ajudar. Apesar disso, o que impera é a tendência de os Estados fecharem as fronteiras e culpar os estrangeiros por seus problemas.

A Europa ainda é uma referência em direitos humanos. Essa mudança de postura pode ter repercussões no mundo? O governo do Quênia queria acabar com um dos mais antigos e maiores campos de refugiados do mundo em Dadaab, para somalis (a decisão de um juiz impediu o fim do campo de refugiados, em abril). Na discussão, usou-se o fechamento das fronteiras na Europa como exemplo. Se for assim, poderíamos ter um efeito dominó, em que mais países procurariam cerrar suas portas ou externalizar o problema. Assim como a UE fez com a Turquia, eles podem tentar dar alguma ajuda financeira para outras nações manterem os refugiados confinados. Se isso ocorrer, nossa atuação humanitária ficará ainda mais prejudicada.

As fronteiras, portanto, estão fechadas também para a MSF? Estou na organização há mais de vinte anos e posso dizer que este é um momento particularmente difícil por vários fatores. O fechamento das fronteiras é um deles. Isso é preocupante porque há países onde não podemos alcançar as pessoas que necessitam desesperadamente de apoio médico. No passado, elas podiam ao menos vir até nós. Mas, se os limites entre as nações não podem ser cruzados em nenhum sentido, nós não podemos alcançá-las e elas não podem nos procurar. A consequência de saúde para esses seres humanos pode ser muito séria.

A solução é combater o nacionalismo? Para uma organização que se chama “sem fronteiras”, obviamente esse é um grande tema. Mas a MSF não faz isso. Consideramos que essa é uma decisão política dos Estados. O que fazemos é cobrar que os direitos e a humanidade das pessoas sejam respeitados.

Foto: Chico Cerchiaro