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São sempre homens

A forma de educar os meninos nos Estados Unidos guarda uma relação incômoda com o perfil dos jovens que promovem massacres a tiros em escolas

*Terry Kupers é professor do Instituto Wright e autor do livro Solitary — The Inside Story of Supermax Isolation and How We Can Abolish It (University of California Press, 2017)

Existem vínculos espantosos entre o perfil geral dos atiradores de escolas nos Estados Unidos e o protocolo não declarado que usamos para educar os meninos. O perfil é quase sempre o de um homem jovem que tem problemas em se encaixar na sociedade e que se sente como o objeto de desdém dos colegas. Ele não compartilha seus pensamentos sombrios com ninguém, acredita que não precisa de ajuda com seus problemas e que deve ser capaz de lidar com eles por conta própria. Ele é um solitário e planeja sozinho se vingar violentamente de todos aqueles que o injustiçaram. Ele é fascinado por armas e pelo poder que a posse delas exerce nos demais. E ele é motivado pela raiva. Nikolas Cruz, o jovem de 19 anos que matou a tiros dezessete estudantes e professores na escola Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, na Flórida, no dia 15 de fevereiro, encaixa-se nesse perfil perfeitamente.

Enquanto isso, de acordo com o protocolo generalizado, os meninos são educados para ser duros (“Não chore”, diz o técnico, “o que eu tenho neste time, um punhado de menininhas?”). Nós somos educados para esconder as cartas que temos na mão, para sofrer em silêncio e para ser autossuficientes. Meninos aprendem que precisam estar sempre vigilantes e que devem evitar situações em que possam ser enganados. Isso tem um efeito de arrefecimento na capacidade de trocar assuntos íntimos com outros homens. Quando se envolve em uma briga, o garoto tem de machucar o outro. E, quando apanha, promete vingança, como ocorre nos filmes populares de adolescentes em que a vítima do bullying sai para lamber suas feridas sozinho e desenvolve uma capacidade maior para o combate (pode desenvolver sua força bruta e habilidade para a luta, ou, alternativamente, sua eficiência nos negócios ou em uma profissão), para retornar e se vingar.

No livro Revisioning Men’s Lives (“Revisando a vida dos homens”, ainda sem edição em português) falo de uma experiência que tive jogando basquete aos 11 anos. Era sábado à tarde e a quadra estava fechada. A única forma de chegar até lá era pulando uma cerca de 2,5 metros. Eu subi nela, com medo de que minhas calças rasgassem a qualquer momento, e fui jogar. Três meninos também tentaram pular, mas não conseguiram. Eles desistiram e foram para casa. Cada um deles seguiu seu rumo sozinho. Os que estavam na quadra nem sequer precisaram zombar dos que se foram. Todos ali tinham consciência da humilhação.

Os homens são educados para ganhar aceitação nos escalões mais elevados, para conquistar a admiração daqueles que amam o poder e para obter o amor da mulher que quer estar com um vencedor — pelo menos é o que exige o Sonho Americano. Mas existe um lado indesejável neste Sonho Americano. Se todos têm a oportunidade de se tornar rico e famoso, então aqueles que falham na sua busca só têm a si mesmos para culpar.

Nikolas Cruz, 19, durante audiência no tribunal do condado de Broward, na Flórida (Susan Stocker/Getty Images)

A queda do homem americano permeia nosso imaginário cultural. O assunto foi tema, por exemplo, do filme Entre Duas Lágrimas, baseado no livro Sister Carrie, de Theodore Dreiser. O segundo amante de Carrie, Hurstwood, é um bem-sucedido gerente de um clube da moda, onde eles se encontram. Ele então começa a roubar o clube, esconde sua infidelidade e mente para Carrie. No final do romance, ele e Carrie se mudam para Nova York. Após se separarem, ela se torna uma estrela da Broadway e ele se afunda no desemprego e na pobreza.

A vergonha do perdedor é largamente definida pelo seu gênero. O status da masculinidade não é dado. É preciso conquistá-lo. Todas as culturas possuem ritos de passagem para a masculinidade. Mas o segredo sujo da psicologia masculina nos Estados Unidos de hoje é que um homem pode perder sua masculinidade, deixar de ser homem. As mulheres não têm esse problema — elas têm outras questões para se preocupar. Não estou sugerindo que os problemas e as dores do homem são maiores ou precisam de mais atenção que os das mulheres — mas há diferenças. Uma delas é que, se o homem não consegue atender a certos padrões, ele é castigado e tratado como se não fosse um homem. Uma série de insultos reforça essa ideia: fracote, franguinho, mariquinha, bicha, menininha. Mulheres são xingadas e atacadas. Por exemplo, há a justificativa clássica dos estupradores: “Não aconteceu. Se eu fiz, foi consensual. De qualquer jeito, ela era uma vagabunda”. Rebaixa-se a vítima, a sobrevivente. Mas atenção: não existe a acusação de que ela não é mulher.

“O segredo sujo da psicologia nos Estados Unidos de hoje é que um homem pode perder a sua masculinidade”

A autopunição faz com que o homem que se julga um perdedor se sinta menos propenso a criticar o contrato social por meio do qual o mais poderoso domina o mais fraco. Em outras palavras, a parte dos acordos contemporâneos de gênero que levam muitos homens a sentir vergonha tem um lado conservador, politicamente falando. Os perdedores se fecham em si mesmos, sentindo vergonha. Os vencedores desfilam a sua glória, felizes em exibir sua riqueza e o poder que acumularam. A miséria dos que ficam ofuscados em uma constelação social claramente hierárquica é um terreno fértil para todo tipo de ataques extremistas idiossincráticos na ordem reinante, o que inclui os ataques em escolas.

O perfil vigente pinta o atirador de escola como um perdedor. Existem muitas razões para os tiroteios em escolas, incluindo uma desigualdade crescente entre ricos e pobres, o que gera uma probabilidade diminuta de que um indivíduo possa viver o Sonho Americano e, segundo seus méritos, tornar-se rico e poderoso. Reverberando em algum lugar da mente de um atirador de escola está a ideia distorcida de que, ao atacar um punhado de crianças, ele pode recuperar sua masculinidade e poder. O escritor vietnamita Viet Thanh Nguyen poderia estar se referindo a um atirador de escola quando escreveu seu primeiro romance, O Simpatizante (Companhia das Letras): “Os sumos sacerdotes de Hollywood entenderam a observação do Satanás de Milton de que era melhor governar do inferno do que servir no céu, melhor ser um vilão, um perdedor ou um anti-herói do que um virtuoso, desde que se comande as luzes brilhantes do centro do palco”.

Claro, nem todos os meninos se tornam atiradores de escolas. A proporção dos que fazem isso é minúscula, mesmo com o aumento de ataques desse tipo nos últimos anos. E há muitas formas de masculinidade. Nem todos os homens competem agressivamente, tentando agarrar seu caminho para o topo. Muitos, espero que a maioria, tornam-se bons parceiros e pais e se esforçam por tornar este mundo um lugar melhor. No documentário The Mask You Live In (Netflix), meninos e homens de várias raças dão entrevistas e repensam a maneira como estamos criando nossos garotos. Eles mostram grande sabedoria sobre qual poderia ser uma forma melhor de fazer isso. Mas os aberrantes atiradores de escolas levam ao extremo algumas das qualidades mais tóxicas que nossa sociedade atribui à educação dos meninos. As repetidas tragédias em escolas ao menos nos dão uma grande oportunidade para reavaliar como tratamos nossos meninos.