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Eldar Saetre

Petróleo sem petrolão

O CEO da norueguesa Statoil, Eldar Saetre, conta como a maior estatal de petróleo do mundo conseguiu criar uma cultura antirrouballheira depois de se ver enredada em propinoduto

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Presente em 35 países, a norueguesa Statoil é um gigante do petróleo com muito a ensinar à Petrobras: enfrentou corrupção, trocou a direção, afinou procedimentos e hoje tem um faturamento de mais de 45 bilhões de dólares. Em junho, pouco antes de o presidente Michel Temer visitar a Noruega, o CEO da Statoil, o economista Eldar Saetre, 61 anos, desembarcou discretamente no Rio de Janeiro. Lá, encontrou-se com o presidente da Petrobras, Pedro Parente, que chegou ao cargo justamente para sanear a empresa alvo da Operação Lava-Jato. Em pauta, os manuais de conduta que a estatal norueguesa pôs em prática depois de seu próprio escândalo (pagamento de propinas a autoridades iranianas, em 2003). Há três anos no comando da companhia, Saetre falou a VEJA da dificuldade de implantar uma cultura ética e de sua visão sobre o futuro político do Brasil. Na ponta da língua, quase sem sotaque, diz conhecer apenas duas palavras separadas por um hífen, em português: “Lava-Jato”.

A Statoil refreou os planos de investimento no Brasil depois que o bilionário esquema de corrupção na Petrobras veio à tona? Ficamos impressionados na Noruega com a extensão da Operação Lava-Jato e com as sucessivas notícias sobre corrupção no Brasil. Quando comecei a tomar ciência do escopo, pensei: “Meu Deus, isso não é apenas um simples caso isolado, é sistêmico”. Do ponto de vista dos negócios, porém, sempre incluímos a variável corrupção em nosso mapa de riscos antes de investir onde quer que seja. Ela já entra no cálculo. E, como o setor em que atuo é de longo prazo, estamos olhando lá na frente, para o futuro. A avaliação é que, apesar dos obstáculos, os ventos sopram a favor do mercado brasileiro de petróleo.

Não é otimismo demais diante de um cenário com tantas incertezas? Dá segurança ver que as instituições do país seguem funcionando, em especial o Poder Judiciário, mesmo com tantas adversidades no horizonte. E, falando de forma muito prática, jamais poderíamos descartar um país com tamanha abundância de recursos naturais, tanto para a exploração de petróleo como para a de gás natural. Fora da Noruega, Estados Unidos e Brasil são os lugares onde mais planejamos investir.

Com a situação política brasileira tão indefinida e eleições presidenciais se avizinhando em 2018, o senhor tem medo de que o Estado volte a ter uma postura mais intervencionista no setor? A possibilidade de mudanças na regulamentação da indústria do petróleo, que hoje considero boa, preocupa, claro, mas não acredito que algum político vá nessa direção. Acho bastante razoável imaginar que o país continuará na trilha correta da economia, independentemente de quem vencer o pleito do próximo ano. Estou convencido de que o ambiente de negócios caminha bem e tem tudo para seguir avançando.

Em sua visão, o que precisa melhorar no mundo dos negócios brasileiro? Quando o assunto são os impostos, ainda há muita imprevisibilidade no Brasil. Pergunta-se: será que eles vão aumentar? Isso é decisivo para saber se é lucrativo ou não fazer um investimento. O problema, portanto, vai além da alta tributação. Na Noruega, por exemplo, pagamos 78% de impostos sobre a atividade petrolífera, e não me lembro da última vez em que houve uma alteração nesse número. Trabalhamos com essa realidade.

Como foi sua conversa com o atual presidente da Petrobras, Pedro Parente? Ele me contou o que estão fazendo lá, e fiquei impressionado com a maneira como a Petrobras parece empenhada em promover mudanças profundas de processos e cultura. Fui procurado justamente porque podemos ajudar transmitindo nossa experiência na construção de um sistema baseado na transparência e em um controle mais rígido do dinheiro. Na Statoil, também penamos com isso. Aprendi que a chave está em conhecer e monitorar de forma minuciosa o fluxo de caixa da empresa e colocar o tema da corrupção na mesa, abertamente, para estabelecer os parâmetros éticos de maneira muito clara.

“Estive na Petrobras e fiquei impressionado como estão empenhados em mudar a cultura. Mas sabemos que não adianta apenas colocar medidas bonitas em um pedaço de papel”

Dito assim, soa simples. Não é nada simples. A mudança de cultura de uma empresa leva anos para se consolidar e a cartilha não fica congelada no tempo: o que hoje é admissível, amanhã pode não ser mais. A discussão sobre ética deve ser permanente, contemplando dilemas de todos os calibres, do mais básico ao mais complexo, desde questões como “o funcionário pode aceitar uma caneta de presente?” até “quais precisam ser os limites ao lidar com o governo e outras empresas envolvidas em nossa cadeia de produção?”.

Em 2003, revelou-se que funcionários da Statoil estavam pagando propina a autoridades do Irã, onde a empresa tinha base. Como a companhia enfrentou a situação? O CEO foi demitido, assim como todos os diretores no alvo das denúncias. É a partir do topo que se rompe com a cultura antiga de uma organização e se começam a implantar novos hábitos. Foi aí também que estabelecemos um programa de compliance para aprimorar condutas e passamos a treinar nossos funcionários de acordo com essa cartilha. Mas sabemos bem que não adianta apenas colocar uma série de medidas bonitas em um pedaço de papel. Evitar corrupção requer vigilância vinte e quatro horas e, mesmo assim, não há garantias. Afinal, nenhuma empresa é perfeita.

Eike Batista, um dos maiores empresários brasileiros da área de petróleo até pouco tempo atrás, foi pego pela Lava-Jato e preso em 2016. Isso afetou a visão estrangeira sobre a indústria no país? Não o conheço pessoalmente, então prefiro dar uma declaração mais genérica, sobre os efeitos potenciais de um fato como este. Não há dúvida de que qualquer caso de corrupção de tamanha magnitude pode impactar, por si só, a reputação da atividade de exploração de petróleo em um país.

A Statoil, assim como a Petrobras, tem o governo como acionista majoritário. Qual é o grau de intervenção do Estado nos assuntos da companhia? O governo norueguês detém dois terços da Statoil, mas passa longe do dia a dia da empresa. Ele não participa das grandes decisões, muito menos define a estratégia dos negócios. Essas são atribuições do corpo diretor que, a propósito, não tem nenhum representante do Estado. No máximo, precisamos prestar contas sobre bônus pagos a alguns executivos. O governo é tratado como qualquer outro acionista, e funciona muito bem assim.

Há na Noruega quem defenda a privatização da Statoil? Esse já foi um debate no país, mas hoje ele não existe porque o governo é um bom dono. Não mete o nariz nos negócios, respeita os demais acionistas e não impõe obstáculos a uma gestão profissional.

Qual sua avaliação sobre as recentes mudanças no marco regulatório da indústria petrolífera brasileira? Antes de tudo, há pela primeira vez no horizonte um calendário de leilões de mais longo prazo, para os próximos três anos, definido pela Agência Nacional do Petróleo. Sabe-se agora claramente quando e como será ofertada cada área de exploração. Outro ponto positivo está no fim da obrigatoriedade da participação da Petrobras em todos os campos do pré-sal, uma iniciativa que desengessa o mercado. A flexibilização da política do conteúdo nacional, que obrigava as empresas de fora a comprar uma alta porcentagem de produtos feitos localmente, também é um avanço. Não é exagero dizer que com essas práticas o Brasil entrou no rol de países que adotam as melhores normas do setor.

“Ninguém defende a privatização da Statoil na Noruega porque o governo é um bom dono. Passa longe do dia a dia da empresa e não impõe obstáculos a uma gestão profissional”

O senhor define como um avanço a flexibilização da regra do conteúdo nacional, mas a Noruega não desenvolveu sua indústria implantando exatamente esta estratégia? Sim, só que lá os porcentuais reservados ao conteúdo nacional não eram tão elevados e havia desde o começo um prazo para a suavização do incentivo à indústria local. Acho que só é possível estabelecer esse tipo de reserva quando as empresas do país são capazes de se provar competitivas. Para funcionar, afinal, a indústria precisa de bons suprimentos e alta eficiência. Agora, como investidor estrangeiro, é claro que preferiria que não houvesse nenhum tipo de exigência dessa natureza.

Com tanta turbulência na Venezuela, como fica a operação da Statoil naquele país? Hoje, temos na Venezuela um negócio em escala reduzida com a PDVSA (a estatal do petróleo). Ao longo dos últimos anos tivemos de aprender a lidar ali com mudanças na legislação, mas o principal problema no país para a Statoil é garantir a segurança dos funcionários.

A empresa pretende continuar atuando na Venezuela? Atualmente, damos preferência a novos negócios em outros países.

Onde senhor vê um ambiente de negócios ideal para investir hoje em dia? Na Noruega, é claro. Mas o mercado já está saturado e temos de buscar oportunidades fora.

Como o senhor analisa o futuro da indústria do petróleo no mundo? O aquecimento global é uma preocupação cada vez maior. Por causa disso, tecnologias alternativas de energia vêm sendo desenvolvidas de forma séria e sistemática em locais de alta inovação, como o Vale do Silício, na Califórnia. Acho impressionante a rapidez com que os carros elétricos vêm evoluindo, por exemplo. Há uma estimativa de que, em 2050, nove em cada dez veículos não usarão combustível tradicional. O mundo está mudando. Não é mais possível atuar no mercado de petróleo sem a preocupação de viabilizar as fontes alternativas de energia e reduzir a emissão de CO2 na atmosfera.

Seria o começo do fim da era do petróleo? Não. A população do planeta segue aumentando e chegará a 9 bilhões de pessoas nas próximas décadas. A substituição de derivados do petróleo para mover veículos que fazem transporte de carga por terra, água e mar ainda demora. Isso corresponde a cerca de 50% de toda a demanda mundial por óleo. Ainda precisaremos dele por muitos anos.

Foto: Marcos Michael/VEJA