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Futuro de Israel exige parceria com vizinhos

É preciso superar a noção de que a sobrevivência de um povo depende da derrota do outro e insistir numa solução em que os direitos de ambos sejam respeitados

*David Diesendruck, 57 anos, é empresário e presidente do Instituto Brasil-Israel

Comemoramos, neste 15 de maio, os setenta anos da independência de Israel, declarada menos de um ano depois de a Organização das Nações Unidas haver recomendado a partilha da Terra de Israel (como era conhecida pelos judeus) ou Palestina (como era chamada pelos árabes) em dois Estados, que deveriam servir de lar nacional para os dois povos.

Em maio de 1948, a primeira parte daquilo que tinha sido preconizado se cumpriu: o Estado de Israel tornou-se uma realidade. É impossível não sentir orgulho ao observar como, durante menos de um século, ele conseguiu se transformar em uma nação plural, composta de imigrantes judeus oriundos de diversas partes do mundo como Etiópia, Irã, Iêmen, Marrocos, Europa e as Américas, além de uma população local diversificada formada por judeus nativos, árabes, drusos, circassianos, e de uma infinidade de grupos étnicos e religiosos espalhados pelo país. Hoje, os israelenses são mais de 8 milhões de pessoas coabitando em um espaço de terra equivalente ao tamanho do menor estado brasileiro – Sergipe. Israel, ainda jovem, é também uma economia forte, consolidada, com destaque no contexto da inovação tecnológica mundial.

David Ben-Gurion lê a declaração de independência de Israel em Tel Aviv, durante cerimônia oficial (Zoltan Kluger/GPO/Getty Images)

O sonho da paz com os seus vizinhos, expresso na declaração de independência, ainda não se realizou por completo. Mas acordos de paz com Egito e Jordânia, improváveis até algumas décadas atrás, se mantêm em vigor. E desdobramentos na nova conjuntura do Oriente Médio abrem perspectivas para entendimentos com outros países árabes, trazendo esperança. Porém, nada é mais urgente do que trabalhar para um acordo com aqueles que estão mais próximos e ainda não têm o seu Estado: os palestinos.

Em meio à celebração, é importante fazer um balanço sobre o passado, mas não se deve parar por aí. Deve-se olhar para o futuro, de modo que possamos ajudar a construir, hoje, os alicerces do porvir.

Como será possível estabelecer um acordo entre povos com histórias e narrativas tão distintas, que já fizeram, e dos quais se exigem fazer ainda mais, sacrifícios ideológicos e práticos?

Será preciso criatividade, paciência e escuta. Mas nada disso adiantará sem que se dê o primeiro passo: o reconhecimento, por ambos, dos direitos dos dois povos à autodeterminação em sua terra ancestral.

“Nada é mais urgente do que trabalhar para um acordo com aqueles que estão mais próximos e ainda não têm o seu Estado: os palestinos”

É com base nesse princípio que defendemos a solução de dois Estados para o conflito entre israelenses e palestinos, com o estabelecimento de fronteiras e infraestruturas políticas, econômicas e sociais, que possibilitem a convivência dos países em paz e segurança. Essa proposta não é simples de ser alcançada. Lideranças palestinas mostraram-se, nos últimos anos, pouco dispostas a sentar-se à mesa de negociações, a começar por aquelas que ainda não reconhecem o direito de Israel à sua existência. O governo israelense, por outro lado, continua construindo assentamentos. São posturas que não contribuem para resolver a situação.

Mas sair desse impasse é uma prerrogativa para que, por um lado, Israel possa manter-se fiel aos dois princípios que lhe são constitutivos, em acordo com a sua declaração de independência: um Estado judaico e democrático. E, por outro lado, para que os palestinos possam estabelecer um país autônomo e autossuficiente, preocupado primariamente com a prosperidade econômica e bem-estar social de seus cidadãos.

Nas últimas décadas, narrativas maniqueístas adotadas tanto por setores do campo conservador quanto por representantes do campo progressista criaram caricaturas ideológicas a respeito de Israel e do conflito entre israelenses e palestinos, apresentando-o como o embate da civilização contra a barbárie ou o resultado do ‘imperialismo’, com opressores e oprimidos. Tais narrativas reforçam estereótipos.

Onde vigoram lógicas binárias, nas quais há divisões rígidas – ou se é pró-Israel ou se é pró-Palestina -, cresce o antissemitismo travestido de antissionismo, assim como o sentimento antiárabe. Preconceitos que, quando consolidados, se tornam difíceis de desconstruir. Nesse sentido, é preciso superar a noção de que a sobrevivência de um povo depende da derrota do outro, insistindo numa solução em que os direitos de ambos sejam respeitados, tal como preconizado pela ONU.

Israel é uma jovem nação, cheia de futuro. Esperamos que ele seja construído ao lado de seus vizinhos e em parceria com eles.