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‘Velho Chico’ esbanja beleza e ousadia em 1º capitulo

Nova novela da Globo tem potencial para mudar fase ruim de folhetins da emissora

É difícil escolher qual a cena mais bonita do primeiro episódio de Velho Chico, nova novela da rede Globo, que chegou ao horário nobre da emissora nesta segunda-feira. Seja no sertão árido, em uma plantação de algodão ou em uma festa hippie tresloucada, o folhetim conseguiu explorar desde o encantamento de paisagens cotidianas até as gotas de suor derramadas nos rostos dos atores – que, aliás, não foram poucas.

A mão de Luiz Fernando Carvalho, de obras como Os Maias e Hoje É Dia de Maria, se fez visível ao longo de todo episódio, que misturou um clima de faroeste bangue-bangue com o romance ardente da cantora Iolanda (Carol Castro) e o estudante Afrânio (Rodrigo Santoro), filho do coronel Jacinto, personagem de Tarcísio Meira. A famigerada câmera do diretor abusou de ângulos criativos, que valorizaram os cenários, figurinos e também a belíssima fotografia da produção.

A novela começa com cenas do protagonista, o rio São Francisco. Às margens do velho Chico, lavadeiras executam sua tarefa em imagens que intercalam ritos religiosos e momentos de diversão. Em seguida, surge um violeiro que, acompanhado de atores e de um teatro de bonecos, cantarola a história da índia Iati, que perdeu o grande amor de sua vida e, de tanto chorar, deu origem à cascata que se tornaria o rio. Quase um spoiler do que a trama da novela promete ser.

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Pouco depois, surge Tarcísio em uma atuação deliciosa, que gera repulsa e compaixão ao mesmo tempo. Homem poderoso na região, o coronel fala com orgulho do filho que está se formando e almeja para ele uma carreira política. Jacinto carrega consigo a dor e a culpa da perda do primogênito, que morreu afogado e causou uma tristeza profunda na mãe Encarnação (Selma Egrei, também ótima) – ao que tudo indica, uma versão mais rabugenta da personagem Perpétua, de Tieta.

Enquanto o casal lida com os dramas do cotidiano, o filho mais novo Afrânio se diverte em uma longa festa ao lado de Iolanda. Os dois cantam, dançam e se desnudam de modo ávido, em um clima à la Baz Luhrmann, que destoa da calmaria e simplicidade das cenas no sertão.

No núcleo oposto aparece Rodrigo Lombardi na pele do capitão Rosa, desafeto do coronel, que incita os trabalhadores da plantação de algodão contra o comprador da mercadoria. “É do silêncio do povo que nasce os opressores”, diz em determinado momento, pensativo, o capitão.

A história de Belmiro, vivido por Chico Diaz, com ares do clássico Vidas Secas, foi rapidamente pincelada. No capítulo, o sertanejo vê vários de seus vizinhos irem embora em busca de água e emprego. Resiliente, ele decide permanecer em sua casa e tenta animar a esposa grávida de que a vida ainda pode melhorar. Em breve, eles serão acolhidos na fazenda do capitão Rosa, que vai empregá-los e recebê-los como se fossem de sua família.

A novela criada por Benedito Ruy Barbosa, mas escrita por sua filha Edmara Barbosa, 55, e o neto Bruno Luperi, 27, vai atravessar gerações e mudar o elenco ao longo da história, que promete misturar tramas shakespearianas com a exuberância da cultura brasileira. Se cumprir a promessa, o folhetim voltará a colocar no eixo as produções da faixa das nove da emissora, que, desde Império (2014/2015), amargam críticas ruins e índices baixos de audiência. Se depender do primeiro episódio, o potencial de popularidade de Velho Chico é alto, bem alto.

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