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‘Só faço filmes hoje por causa do Cinema Novo’, diz Eryk Rocha

Filho de Glauber, diretor apresenta o documentário Cinema Novo na seção Cannes Classics

O Cinema Novo transformou a produção nacional. Nascido nos anos 1960, reuniu diretores como Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman e obras fundamentais, de Os Cafajestes (1962) a Vidas Secas (1963) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Filho de Glauber, Eryk Rocha apresenta em Cannes Cinema Novo, seu sétimo longa-metragem, que concorre ao prêmio Olho de Ouro, dedicado aos documentários, na seção Cannes Classics.

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O filme faz uma viagem pelas produções do movimento e apresenta novos depoimentos, colhidos especialmente para o longa, e material de arquivo. Cinema Novo é uma boa oportunidade de conhecer ou relembrar as ideias, mas a decisão de não identificar os filmes acaba tornando-o um pouco mais hermético. Eryk Rocha conversou com o site de VEJA sobre Cinema Novo.

Qual foi a origem desse projeto? A primeira semente do projeto surgiu de uma conversa com o Canal Brasil, com o qual já fiz vários projetos. Chegamos à conclusão de que não existia um filme sobre o Cinema Novo. Há muitos estudos escritos e livros, além de filmes sobre os autores isoladamente, mas não um documentário ou filme sob perspectiva do movimento. Partiu também de uma necessidade urgente de registrar a memória desses cineastas que, já naquele momento, dez anos atrás, estavam indo embora. Vários tinham morrido, e alguns deles tinham uma certa idade. Tanto é que no primeiro ano em que fiz as conversas, pouco a pouco eles começaram a partir. Há três anos retomei o projeto. E aí fiz um mergulho, revendo filmes, conhecendo outros que não conhecia, estudando, lendo, pesquisando acervos no Brasil e no exterior, arquivos pessoais dos cineastas e dos familiares. Este é um filme de montagem. Uma coisa que me orientou muito foi a frase do Humberto Mauro: “Cinema é cachoeira”. Vejo muito Cinema Novo como uma cachoeira. Ele não almeja definir o Cinema Novo, mas sim ser um filme com o cinema novo, poético, narrativo, em primeira pessoa. Ou seja, quem conduz são os cineastas.

Seus filmes são sempre muito feitos na montagem. Chegou a pensar que este seria diferente? Para mim, seria impossível fazer um cinema que não fosse pessoal. Os meus trabalhos nascem do meu instinto. Acho prepotente achar que vou fazer um filme sobre alguma coisa. É uma ideia totalizante que não me atrai. Fazer um filme sobre o Cinema Novo, um movimento tão complexo na sua força criadora, seria pretensioso. Naturalmente, a coisa fluiu para esse lado de eu entender que queria muito mais incorporar o Cinema Novo, fazer um longa com essa força dos autores, do que tentar de alguma forma interpretar, explicar, concluir alguma coisa que é complexa e continua em movimento. Queria capturar essas energias criativas do movimento hoje, no Brasil contemporâneo, ver como essas imagens, esses sons, dialogam de forma visceral com o Brasil contemporâneo, como esses filmes ecoam ainda hoje. Isso que me interessava mais.

Quais foram as maiores surpresas? Uma foi uma série realizada para a televisão alemã sobre o Cinema Novo, em quatro capítulos, exibida apenas uma vez. Foi uma joia, porque tinha os diretores em pleno 1968, falando de cinema, do Brasil, de política. O outro, feito pelo Instituto Nacional do Audiovisual, da França, reuniu os cinema-novistas na casa do Luiz Carlos Barreto, mais o francês Jean Rouch e o italiano Marco Bellocchio. Também foi um grande presente ter a possibilidade de mergulhar no movimento e na multiplicidade de obras. Muitas vezes se fala do Cinema Novo como se fosse uma coisa homogênea, mas uma das riquezas do movimento é a diversidade estilística e temática.

Por causa da sua família, foi mais fácil ter acesso a essas pessoas? Não sei se tive facilidade, mas um bom trânsito. Com alguns dos cineastas que conversei, já tinha uma relação, outros eram amigos do meu pai. Isso criou um ambiente de afeto, potencializado porque o produtor Diogo Dahl é filho do Nelson Pereira dos Santos e criado pelo Gustavo Dahl. Fazer um filme de memória sempre é um terreno delicado. E, do ponto de vista da produção, são muitos direitos. Como é um filme de baixo orçamento, foi importante que algumas famílias, como a do Leon Hirszman, do Joaquim Pedro de Andrade, e a minha própria cedessem os direitos dos longas e se tornassem produtores associados.

Como é mostrar o filme em Cannes neste momento? Todo filme é especial para mim. Qualquer exibição é importante, seja numa praça pública, num cineclube ou em Cannes. Mas para mim é interessante este filme estar nascendo neste lugar e neste momento histórico, por várias razões. Este é um festival que acolheu vários dos filmes do Cinema Novo. É uma honra exibir o filme aqui. O Cinema Novo aconteceu em um período de ebulição cultural, mas também muito sombrio, do golpe militar de 1964 e o AI-5. A América Latina vive esses ciclos de interrupção e recomeço. Não me interessa o cinema panfletário, de mensagem, que conclua nada. Quero ver como os espectadores vão perceber o diálogo desses filmes com os dias de hoje.

Que influências do Cinema Novo vê no que se produz hoje no Brasil? As influências são uma coisa curiosa, porque nem sempre são diretas. Para começo de conversa, o Cinema Novo criou uma nova linguagem para revelar um país nascente, a passagem do Brasil rural para o Brasil urbano. Me arriscaria dizer que o Cinema Novo é um grande documentário sobre o Brasil. Esse movimento de tirar o cinema do estúdio e ir para a rua para filmar a realidade, o povo, a violência, o misticismo, as ruas, o campo, o rosto do brasileiro, isso abre um caminho para a toda a cinematografia que vem depois. Só faço cinema hoje por causa do Cinema Novo, independentemente da minha filiação. Outro ponto importante é a simbiose entre o documentário e a ficção, uma vertente importante do cinema mundial hoje. Porque mesmo trabalhando com recursos da ficção, a realidade afetava e transformava aqueles filmes.

Pessoalmente, como se sentiu ao fazer este filme? Tenho 38 anos, este é meu sétimo longa. Foi um presente poder mergulhar nessa riqueza de filmes. Foi muito bom para me lembrar de onde vim, por que faço cinema. Nosso mundo é muito de ação e pouco de reflexão. Tive a possibilidade de parar para ver esses filmes, inclusive os do meu pai, foi bom para refletir e aprofundar qual é o sentido, quais são as minhas razões de fazer cinema. E também pensar nesse movimento, em toda sua complexidade. O afeto é o coração desse movimento. E é o afeto que me move, quero fazer filmes com meus amigos.

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