Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Segunda fase de ‘Velho Chico’ mantém poesia com trama clichê

Novela consegue sustentar beleza estética entre fases, mas exagera nos elementos do romance melodramático e incomoda com anacronismo

Quando estreou em março, a novela Velho Chico logo chamou a atenção pelo capricho do diretor Luiz Fernando Carvalho, um entusiasta da beleza estética, que pesa a mão na hora de escolher belos figurinos, ângulos criativos e uma fotografia impecável. Também conquistou a trama lúdica, romântica, que viria para quebrar o ritmo de roteiros pesados dos últimos folhetins do horário nobre da emissora. Porém, a fórmula interessante mostrou sinais de desgaste nesta segunda-feira, com o início da segunda fase da trama.

O foco do episódio foi o retorno de Maria Tereza, vivida por Camila Pitanga, à fazenda da família. Ela e o marido, Carlos Eduardo, um engomadinho Marcelo Serrado, surgem para o aniversário de 100 anos de Encarnação (Selma Egrei), agora uma mulher mais triste que amarga. A centenária recebe bem Tereza, com quem trocou tantas farpas no passado.

Apesar dos quase 30 anos que separam a primeira da segunda fase, Tereza ainda sustenta características da adolescente chorona e inconsequente que finalizou a trama na semana passada. Lágrimas furtivas surgiram com pouca necessidade e até uma briga entre pai e filha aconteceu enquanto a moça, bêbada, se esbaldava na festa com os funcionários da casa. “Eu tava com saudade de mim”, diz, antes de fugir de cavalo sem rumo.

Leia também:

‘Velho Chico’ esbanja beleza e ousadia em 1º capitulo

‘Velho Chico’ começa nova fase nesta segunda. Saiba o que vai mudar

Enquanto isso, Antonio Fagundes, que substitui Rodrigo Santoro na pele de Afrânio, perde a aura de poder e surge quase como uma figura folclórica, de ternos coloridos e cabelos pintados – acompanha-o no figurino exótico a esposa, Iolanda, agora uma pomposa Christiane Torloni. Contudo, o pior foi a diferença entre as personalidades do Afrânio do passado e do presente. Pouco ficou da relação entre Fagundes e Santoro. O personagem ainda se perde na dualidade do homem libertário, se o assunto é seu romance; e extremamente moralista, quando o foco é a filha.

Em tempos modernos, a novela sofre com o anacronismo não só do ambiente retrô fora de época, mas também das ideias que não conseguiram evoluir. Elementos religiosos e fundo político ainda são usados como parte dos diversos enfeites da trama, mas nenhum com grande profundidade. O roteiro insiste em girar em torno dos muitos interessados em Tereza: o marido, o jagunço Cícero (Marcos Palmeira) e Santo (Domingos Montagner), que fez uma participação-relâmpago no fim do primeiro episódio.

No geral, a beleza da novela, seu principal atributo, continua inegável. Difícil é saber por quanto tempo a fotografia e o figurino vão sustentar uma trama com tantos clichês típicos do melodrama.

Member of The Internet Defense League