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Picasso, o touro indomável

A maior retrospectiva de Pablo Picasso no país em mais de uma década permite vislumbrar como os eventos pessoais e a personalidade flamejante do espanhol influenciaram, para o bem e para o mal, as transformações de sua arte

O homem com barba vetusta tasca um beijaço em uma mulher de olhar desvairadamente triste. Em O Beijo, produzido quando o pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973) já era quase nonagenário, a boca do homem e a da mulher devoram-se em traços convulsivos. A tela, reproduzida ao lado, surge lá pelo final do generoso apanhado de 153 itens distribuídos em ordem mezzo temática, mezzo cronológica na exposição Picasso: Mão Erudita, Olhar Selvagem, em cartaz a partir deste domingo, 22, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. No juízo que sempre prevaleceu entre os críticos, a tela é exemplar típico de uma fase tardia e menor, quando nem a crueza sexual disfarçava o labirinto de autocomplacência em que o pintor mais famoso do século XX se enfurnara com prazer. Mas, para além do julgamento estético, O Beijo prova que Picasso chegou ao fim da carreira ainda mergulhado na contradição que seria o combustível de uma obra fundamental para quem deseja compreender a arte e o espírito de seu tempo. Pois Picasso foi como um ser de duas faces condenadas a um eterno beijo: impossível separar o hedonista cafajeste que usava as pessoas (notadamente, as mulheres) para alimentar sua segunda face, a do artista egocêntrico mas melancólico, solitário e fixado na ideia da própria morte.

A maior retrospectiva de Picasso no país em mais de uma década – que deverá passar também pelo Rio de Janeiro ainda neste ano – oferece uma janela indiscreta para flagrar as tensões entre os dois lados desse Dr. Jekyll e Mr. Hyde do modernismo. O acervo vem do Museu Picasso, instituição parisiense que abriga 5 000 obras e dezenas de milhares de peças de memorabilia da coleção pessoal do pintor. Tudo isso foi doado por sua família ao Estado francês como forma de abater impostos de transmissão de herança. Sediado em um prédio elegante no bairro do Marais, o museu de Paris foi reaberto em 2014, após uma reforma que se arrastou por cinco anos e terminou em barraco: sua antiga diretora, Anne Baldassari, foi demitida em razão de denúncias de má gestão e abuso de poder. Com o fim da crise, o mundo voltou a ter acesso a um museu que oferece a possibilidade de conhecer Picasso, mestre cuja obra é indissociável da personalidade flamejante, por uma perspectiva mais íntima. Lá estão, afinal, as obras que o artista quis conservar consigo.

A mostra brasileira atesta as surpresas que se podem extrair desse baú dos “Picassos de Picasso”. As pinturas que ele produziu na juventude confirmam a noção muito propalada de que, aos 12 anos, o virtuose já desenhava como o renascentista Rafael Sanzio. A obra mais antiga da exposição, um retrato de um anônimo, foi executada quando ele era pouco mais velho que isso e bebia da escola naturalista espanhola. Entre os Picassos precoces há flertes com o impressionismo e com a paleta emocional de um Van Gogh. A sombra do mestre holandês aparece, aliás, na pequena mas impressionante tela A Morte de Casagemas, de 1901. Nela, Picasso retrata um amigo que cometeu suicídio. Em vida, o pintor nunca quis exibir em público a figura com rosto verde funesto e a marca de um tiro na têmpora. Depois de perder o amigo, Picasso mergulharia em sua melancólica fase azul – que hoje vale uma grana preta e à qual pertence outra obra marcante da exposição, Retrato de um Homem.

É também em um retrato – mas dele próprio – que se detecta o ponto exato em que Picasso desencadeia o abalo sísmico que mudaria os rumos da arte. Ao representar a si mesmo com o peito desnudo, os olhos pretos mas vazios, cores e contornos primitivistas, o artista desfere aquilo que o historiador inglês Simon Schama descreveu como “um gesto de econômica poesia”: driblando séculos de pintura acadêmica e cerimoniosa, fez o moderno brotar diretamente do arcaico – “como se entre uma coisa e outra não tivesse existido nada muito digno de nota”, diz Schama.

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