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Jovem talento do cinema, Xavier Dolan decepciona em Cannes

O diretor franco-canadense, de 27 anos, exibiu o exagerado ‘Juste la Fin du Monde’, que contrastou com outro competidor exibido na sequência, o romeno Cristian Mungiu, que apresentou o naturalista ‘Bacalaureat’

Xavier Dolan, que ganhou o prêmio do júri em Cannes, em 2014, com Mommy e dirigiu o videoclipe de Hello, de Adele, decepcionou com seu sexto longa, Juste la Fin du Monde (ou “É Apenas o Fim do Mundo”, em tradução livre), que compete pela Palma de Ouro na 69º edição do festival. Mais jovem diretor da competição, com 27 anos, Dolan adaptou a peça do igualmente precoce Jean-Luc Lagarce, que aos 21 fundou sua companhia de teatro e morreu como consequência da Aids aos 38. O cineasta não é de sutilezas. Seus personagens gritam, a música é muito presente e toca alto, há cenas hiper dramáticas. Mas aqui o resultado é menos contundente, até para quem aprecia seu estilo barroco.

Na trama, Louis (Gaspard Ulliel) é um escritor que resolve voltar à sua cidade natal depois de 12 anos de ausência, para informar sua família de que está morrendo. Quando chega lá, o caos se instala. A mãe (Nathalie Baye, que trabalhou com François Truffaut e Jean-Luc Godard, entre outros) esconde sua angústia mantendo-se ocupada na cozinha, sempre com sua peruca preta e sombra combinando com o esmalte. O irmão mais velho, Antoine (Vincent Cassel), é agressivo, mas o único que fala o que pensa. Sua mulher, Catherine (Marion Cotillard), mal consegue formular uma frase. E a irmã mais nova, Suzanne (Léa Seydoux), fala sem parar, sem dizer o que deseja. Talvez, no fundo, todos saibam a razão da visita de Louis, e a dor da descoberta e a mágoa do seu afastamento fazem com que se atropelem.

Dolan tenta quebrar um pouco o ar teatral apostando em super closes que deixam o longa ainda mais claustrofóbico. Mas, em sua primeira produção rodada na França, nem o texto nem os personagens são interessantes o suficiente, e não há o que o elenco de estrelas pode fazer para salvá-los. O tropeço, porém, não deve desacelerar em nada a carreira do novo “enfant terrible” do cinema mundial. Seu próximo trabalho é sua estreia em inglês, com Kit Harington (o Jon Snow de Game of Thrones), Natalie Portman e Jessica Chastain.

A competição do 69º Festival de Cannes programou em sequência dois filmes que não poderiam ser mais diferentes entre si. Bacalaureat, do romeno Cristian Mungiu, é um conto moral discreto e realista. Juste la Fin du Monde, do franco-canadense Xavier Dolan, é barulhento e exagerado.

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Já Mungiu, 48, ganhou a Palma de Ouro em 2007 com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, além de um prêmio de roteiro em 2012 com Além das Montanhas. Em Bacalaureat, ou “formatura”, na tradução livre, o médico Romeo Aldea (Adrian Titieni) está empolgado porque a filha, Eliza (Maria Dragus), provavelmente vai conseguir uma bolsa para estudar psicologia na Inglaterra. Só faltam os exames finais. A adolescente sofre uma tentativa de estupro que a deixa abalada emocionalmente e com o pulso machucado, o que pode afetar seu desempenho na prova. Romeo, que se gaba de não aceitar subornos em sua atividade médica, acaba recorrendo a métodos escusos para garantir que Eliza vá bem.

De uma só tacada, Mungiu toca na falta de esperança na Romênia de hoje, nas pequenas corrupções que viraram a maneira de sobreviver durante a ditadura de Nicolai Ceausescu e se perpetuam na sociedade, na ansiedade causada pela chegada à meia-idade. O cineasta filma tudo com rigor, mas sempre apostando no naturalismo e no tom baixo – “o que importa”, ele declara, “é a verdade de cada momento”. Ao colocar seus personagens diante de escolhas morais, transfere as mesmas perguntas ao espectador. Ainda assim, Bacalaureat é a obra menor de um cineasta talentoso.

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