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Faces da história do presente

Sem a pretensão de ser um mergulho enciclopédico no último decênio, o livro VEJA: Dez Anos em Dez Temas traça um panorama do Brasil e do mundo a partir de uma seleção de reportagens publicadas pela revista

Por Laurentino Gomes* - 6 maio 2016, 21h54

Veja: Dez Anos em Dez Temas (Editora Abril; 210 págs.; 39,90 reais, preço sugerido) é o testemunho de uma época marcada por desafios e transformações colossais na história do Brasil e do mundo. A obra traz uma seleção de algumas das reportagens e entrevistas de maior impacto publicadas pela revista no último decênio. São ao todo 34 textos sobre assuntos tão diversos como as denúncias de corrupção nos governos do PT, os fundamentos da crise econômica brasileira, o fantasma do terrorismo internacional, as novidades na ciência, na tecnologia, no comportamento e na cultura, além de perfis e opiniões de personagens como Joaquim Barbosa, Ferreira Gullar, Nelson Mandela e Gabriel García Márquez. Mais do que uma leitura agradável, é um documento histórico precioso, indispensável para que as futuras gerações possam compreender as mazelas e os desafios do presente.

Poucas atividades humanas tiveram sua morte anunciada com tanta insistência quanto o jornalismo nesses últimos anos. Dizia-se que a internet e as novas tecnologias digitais tornariam irrelevante o trabalho de repórteres e editores. No ambiente das redes sociais, qualquer pessoa com acesso a um computador, um tablet ou um smartphone passaria a produzir e a distribuir informação e opinião, sem a necessidade do filtro tradicional das redações. Nesse admirável mundo novo movido a entretenimento e mensagens instantâneas, o velho e bom leitor também estaria com seus dias contados. Em vez de lerem textos longos e profundos, as pessoas de hoje, especialmente as mais jovens, optariam pela informação ligeira, de consumo rápido e sem sofrimento, que não exige tempo nem muita concentração. Dez Anos em Dez Temas desmonta esse e outros mitos a respeito da atividade jornalística.

Grandes reportagens e análises em profundidade continuam a merecer a atenção dos leitores, desde que o tema lhes seja relevante e a linguagem, adequada ao seu entendimento. Uma das missões importantes do jornalismo é tornar assuntos de interesse público, mas aparentemente áridos ou enfadonhos, em leituras atraentes e sedutoras. Por essa razão, este livro é também um tributo à forma peculiar de jornalismo adotada por VEJA ainda no fim dos anos 60. Inspirada na bem-sucedida escola de jornalismo americano, essa fórmula tem seus fundamentos na reportagem investigativa e destemida combinada com um estilo de texto leve, instigante, fácil de entender mesmo por parte daqueles leitores menos familiarizados com o assunto.

UMA DÉCADA EM 34 TEXTOS - Originalmente concebido para assinantes da revista, o livro já pode ser comprado em bancas e livrarias
UMA DÉCADA EM 34 TEXTOS – Originalmente concebido para assinantes da revista, o livro já pode ser comprado em bancas e livrarias VEJA

O tratamento dedicado a alguns temas analisados nos textos que compõem esta obra é um exemplo desse esforço incansável e generoso de várias gerações de repórteres e editores de VEJA em favor da compreensão do leitor. É o caso da reportagem “Encaixou-se perfeitamente”, sobre a descoberta experimental da partícula Higgs, a primeira da seção Ciência do livro. Situada na vanguarda dos avanços científicos, a física das partículas subatômicas é o típico assunto que mesmo um especialista com grande talento didático teria dificuldade em explicar a pessoas leigas. Imagine-se um jornalista, geralmente ele próprio leigo na área, às voltas com um desafio dessa natureza. Valendo-se de metáforas e comparações acessíveis ao dia a ­dia das pessoas, a reportagem de VEJA consegue vencê-lo sem grandes dificuldades, fiel ao seu compromisso de prover informação e opinião de qualidade, e em linguagem inteligível.

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No conjunto da obra, no entanto, o que sobressai é a mais marcante de todas as características do jornalismo de VEJA que, ao longo de quase cinco décadas, lhe asseguraram a admiração e o respeito de seus milhões de leitores. Trata-se da coragem em investigar, fiscalizar, cobrar e denunciar as ações dos governantes sempre que elas contrariem os interesses da sociedade e as boas práticas da moralidade pública.

Quem hoje se escandaliza com as chocantes revelações da chamada Operação Lava-Jato, conduzida pela Justiça Federal de Curitiba, vai se surpreender com a reportagem que abre este livro. Publicado na edição de 18 de maio de 2005 com o título “O homem­-chave do PTB”, o texto mostra de forma cristalina o metódico loteamento de cargos e verbas públicas já em andamento naquela época – portanto, ainda no decorrer do primeiro governo Lula. É como se fosse a anatomia, em escala microscópica, daquilo que o país veria alastrar-se por virtualmente todos os meandros da administração, fartamente documentado no julgamento do mensalão e nas denúncias do petrolão e de outros escândalos.

Alguns leitores mais sistemáticos e exigentes poderão estranhar o cardápio de assuntos que compõem a obra. Como resumir uma década inteira do Brasil e do mundo em apenas 34 textos? Qualquer pessoa haverá de concordar que as denúncias de corrupção e de fatiamento de cargos e verbas públicas em troca de apoio político são uma marca indelével na história do Brasil do PT. Impossível ignorá-las no futuro. Indiscutível também foi o papel desempenhado por um gênio da tecnologia como Steve Jobs. O terrorismo talvez seja a marca mais profunda e assustadora dos tempos atuais. Tudo isso é bem tratado no livro. Ficaram de fora, porém, temas como as mudanças climáticas, a renúncia de Bento XVI e a eleição do papa Francisco, a crise dos refugiados e, no caso brasileiro, a inacreditável humilhação dos 7 a 1 diante da Alemanha na Copa do Mundo de 2014 – todos, é claro, amplamente cobertos nas edições regulares da revista. É, obviamente, uma dificuldade com a qual os editores se defrontaram desde o início, espremidos no limite de páginas da coletânea e na concentração de seu foco, mas isso nem de longe tira o brilho da publicação. Afinal, editar é fazer escolhas. E essa é outra das boas lições do jornalismo de VEJA. Dez Anos em Dez Temas não se propõe a um mergulho enciclopédico sobre a década. Em vez disso, é uma fotografia cujos detalhes ajudam a decifrar a complexidade da paisagem que lhe serve de moldura.

* Jornalista e historiador, autor de 1808, 1822 e 1889. Trabalhou quinze anos em VEJA, entre os anos 1980 e 2000, exercendo, entre outras, a função de editor executivo

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