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Estou mais preparada para o fim da minha mãe, diz Betty Milan

Psicanalista lança 'A Mãe Eterna - Morrer É um Direito', livro inspirado na história de sua própria mãe, Rosa, de 98 anos

Por da Redação - 8 maio 2016, 14h08

Três anos depois de lançar o livro autobiográfico Carta ao Filho, em que destrincha sua relação com o próprio filho, a psicanalista e escritora Betty Milan se volta, agora, para sua mãe. A Mãe Eterna – Morrer É um Direito (Record, 144 páginas, 32,90 reais), lançado nesta última semana, é um romance, mas inspirado na vida de Betty e de sua mãe, Rosa, que continua ativa aos 98 anos. “Comecei a escrever ao me deparar com o fato de que ela estava se distanciando de mim, estava se distanciando de si mesma, enxergando e ouvindo cada vez menos”, diz a escritora ao site de VEJA.

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Para Betty, como filha, ver a mãe envelhecer e perder parte da força física foi, no mínimo, um susto. Rosa ficou viúva ainda jovem, aos 45 anos, e cuidou das três filhas e da empresa do marido sozinha, com muita energia. Já velhinha, como tantos idosos, passou a se rebelar contra o excesso de cuidado das filhas. “Escrevi também para suportar a dor dessa perda de uma mãe onipotente, sempre presente, extremamente generosa, para suportar a minha impotência diante da negação contínua dos nossos cuidados”, afirma a psicanalista. Parte dessa missão foi cumprida, segundo ela. “Ao escrever, eu vi com clareza o que eu estava vivendo, eu me distanciei da situação. Estou mais preparada para o fim da minha mãe.”

No livro, a narradora, assim como Betty, se depara com a insubmissão da mãe, que se recusa a, por exemplo, aceitar que coloquem um tapete em seu banheiro para evitar que ela escorregue. A decadência física leva a mãe a mencionar, algumas vezes, que não quer mais continuar a viver – ainda que não deseje, de fato, colocar um ponto final em tudo. Aí entra o tema do suicídio assistido, que a escritora defende. “É claro que se nós pudermos ser ajudados no final da vida vai ser melhor, porque nós vamos ter menos medo da morte. Nós somos ajudados a nascer, mas não somos ajudados a morrer.”

Confira a entrevista com Betty Milan:

Quanto do livro é a história real da sua mãe? O livro é um romance inspirado na vida real. Minha mãe tem 98 anos, como a personagem retratada no livro. Comecei a escrever ao me deparar com o fato de que ela estava se distanciando de mim, estava se distanciando de si mesma, enxergando e ouvindo cada vez menos. Estava também obedecendo cada vez menos (risos), tornando-se irreverente em relação aos cuidados que eu sugeria. Eu nunca tinha convivido com uma pessoa na velhice extrema, já tinha visto a minha bisavó paterna, mas ela vivia em um quarto no fundo da casa, de onde raramente saía. Ela tinha um espaço na casa da família, mas não era incluída. A minha mãe nunca deixou de ser incluída, nos esforçamos para isso. Mas, ao mesmo tempo, eu passei a observar essa condição da velhice extrema talvez porque eu seja médica e psicanalista e quisesse entender o que acontece. E também para suportar a dor dessa perda de uma mãe onipotente, sempre presente, extremamente generosa e cuidadosa e para suportar a minha impotência diante da negação contínua dos cuidados. Tem muito da minha vida real, mas é uma estrutura romanesca, tanto é que o final da história é diferente do que está acontecendo comigo.

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Você já se dirigiu a seu filho em Carta ao Filho e agora você escreveu um romance sobre o envelhecimento de uma mãe. Por que a escolha pela ficção desta vez? A estrutura se impõe em função do que você quer contar. O Carta ao Filho é um texto autobiográfico mesmo, era importante que fosse. Eu queria transparência. No caso de A Mãe Eterna, a forma romanesca foi a que se impôs porque ela me permitiu criar uma metáfora da condição humana, da relação entre o filho e o ancestral que está indo embora. O romance é mais universal para isso.

No romance, a narradora cita a existência de um irmão, que não liga tanto para a mãe. Por que esse personagem? O irmão entra porque era preciso fazer um contraponto entre a pessoa que se ocupa do velho e aquela que se afasta dele, que não quer saber de nada. O romance de Victor Hugo, Os Miseráveis, acaba assim, com Jean Valjean abandonado por todos, inclusive Cosette. A tendência é se afastar, porque presenciar a decadência do outro é muito difícil, principalmente por causa do nosso narcisismo. A gente só consegue superar essa dificuldade se conseguir escutar, porque então percebemos a graça que o velho tem. Por um lado, ele é ranzinza, mas, por outro, ele é engraçado.

Como vê o envelhecimento? O velhinho não é um problema administrativo, é um problema humano. Ele é comparado a uma criança, mas não é uma criança. O grande problema que se coloca é, por um lado, respeitar a individualidade dele e, por outro, evitar que ele sofra acidentes. A personagem do romance, que é uma filha-narradora, vai contando para uma mãe imaginária, a mãe que ela perdeu, o que ela está passando com a mãe real.

Com o avanço da medicina e da ciência, as pessoas estão vivendo cada vez mais, mesmo que elas nem sempre queiram isso. Envelhecer, nesse sentido, se tornou mais problemático? Com certeza, esse prolongamento indefinido da vida é uma forma de irresponsabilidade, porque você pode prolongar de tal modo que a qualidade se torna péssima. Além disso, pode ser cruel. Quantas pessoas estão vivendo muito mal porque a vida é prolongada? Seu médico não tem que tentar vencer a morte, tem que cuidar da vida enquanto é possível. Nós não somos animais, somos seres humanos e podemos opinar sobre a nossa morte.

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É por isso que o tema do suicídio assistido permeia a história do livro? Isso é abordado porque a narradora fala da necessidade de humanizar o fim da vida. É claro que se nós pudermos ser ajudados no final da vida vai ser melhor, porque nós vamos ter menos medo da morte. Nós somos ajudados a nascer, mas não somos ajudados a morrer, a tendência é abandonar quem vai morrer.

Você, então, é a favor do suicídio assistido. Sempre foi ou mudou de ideia mais recentemente? Sempre fui, sempre achei que devia ser possível determinar a hora da própria morte, que isso é uma maneira de morrer dignamente.

E sua mãe, o que pensa sobre esse tema? Minha mãe diz que a morte tem que ser natural. E essa escolha também tem que ser respeitada. Mas se as pessoas soubessem que elas podem ser ajudadas, talvez elas fizessem outra opção. Minha mãe é uma mulher centenária, jamais passou pela cabeça dela a ideia de que a pessoa pode ser assistida para morrer. Não é algo normal para essa geração.

O que sua mãe falou quando soube que você estava escrevendo um livro inspirado na história dela? Ela está muito feliz de saber que inspirou um livro chamado A Mãe Eterna. Ela achou muito bonito e gostou da capa, que é cor de rosa – o nome dela é Rosa. Ela é uma grande inspiradora, também faz parte do filme que o meu filho (o diretor Mathias Mangin) fez, o Dona Rosa, que ganhou o prêmio de melhor direção de curta metragem no Cine MuBE, em 2013.

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Você tem medo de envelhecer? Não tenho medo de envelhecer, tenho medo de ter dor. Acho que estou lidando bem com essa questão, tenho 71 anos e ainda não constatei nenhuma diminuição do meu ritmo, tenho boa saúde. Mudo de hábitos, faço muito esporte, continuo trabalhando como escritora e como analista, às vezes como palestrante.

Você já disse que escrever te ajuda a organizar suas ideias e sentimentos. Escrever A Mãe Eterna te ajudou em alguma coisa? Ajudou, eu vi com clareza o que eu estava vivendo, eu me distanciei da situação. Estou mais preparada para o fim da minha mãe.

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