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Eddie Redmayne e as agruras de ser uma mulher: ‘Ser observado e julgado me deixou nervoso’

“Acho que nunca vou me acostumar com o meu Oscar. Sempre que vejo a estatueta, parece brilhante demais para ser real”

Se Eddie Redmayne levar o Oscar de melhor ator neste domingo, por A Garota Dinamarquesa, repetirá o feito de Tom Hanks, que fez uma dobradinha em 1994 e 1995 por Filadélfia e Forrest Gump – O Contador de Histórias. O inglês de 34 anos ganhou no ano passado por sua interpretação detalhista do astrofísico Stephen Hawking, um dos maiores gênios do mundo, portador de esclerose lateral amiotrófica, no filme A Teoria de Tudo. Fato que uma nova vitória é difícil, já que Leonardo DiCaprio parece o grande favorito na categoria. Mas não deixa de ser um feito para o jovem Redmayne.

Como em seu filme anterior, aqui ele também enfrentou desafios físicos. O ator vive o pintor dinamarquês Einar Wegener (1882-1931), que assumiu a identidade de Lili Elbe e mais tarde se tornou uma das primeiras pessoas do mundo a passar por uma cirurgia de mudança de sexo, sempre com o apoio de sua mulher, a também pintora Gerda Wegener (Alicia Vikander, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante).

Não é a primeira vez que Redmayne faz uma mulher. Em seu primeiro trabalho como ator profissional, ele foi Viola numa montagem da peça Noite de Reis, de William Shakespeare. Nascido em Londres, filho de um banqueiro e de uma empresária, frequentou a prestigiosa escola particular Eton, no mesmo ano do Príncipe William. Depois, formou-se em história da arte pelo Trinity College da Universidade de Cambridge. Além do Oscar, ganhou um Olivier e um Tony por sua participação na peça Red. No cinema, foi dirigido por Robert De Niro em O Bom Pastor (2006), foi filho de Julianne Moore em Pecados Inocentes (2007) e cantou em Os Miseráveis, dirigido pelo mesmo Tom Hooper de A Garota Dinamarquesa. O ator conversou com o site de VEJA em um hotel em Londres, onde mora.

Gosta de se ver como mulher? Foi interessante o primeiro dia em que apareci no set como Lili. Lembro do olhar dos membros da equipe. Eu me senti escrutinado, e que o truque só funcionava em determinados ângulos e sob certa iluminação. Ser observado e julgado daquela forma realmente me deixou nervoso. E muitas mulheres trans descrevem esse mesmo sentimento quando se revelam, o peso desse julgamento. Para elas, ainda há o medo da violência. Eu estava completamente seguro. Mas havia esse desconforto do olhar masculino. E as mulheres que conheço me disseram: “Pois é, bem-vindo ao nosso mundo!”. Foi uma revelação interessante.

O sorriso é uma parte tão integral da sua personagem. Foi seu ponto de entrada? Certamente encontrar seu sorriso me pareceu importante. Mas para mim o ponto de entrada é quando ela vai ao guarda-roupa da ópera, fica nua e descobre seu corpo e a si mesma, inclusive seu sorriso. Fico admirado com sua capacidade de sorrir. Depois de tudo o que ela passou, pois sua transformação teve um custo alto, o sorriso significava a alegria de encontrar a si mesma.

Houve algum momento em que percebeu que estava pronto? Não. Eu nunca sinto que estou pronto, que estou no lugar certo. A aspiração é pela perfeição sabendo que jamais vou chegar lá.

Mas como tem a autoconfiança necessária? Muitas coisas me ajudaram no caminho. Conversei com uma mulher trans em Los Angeles, cuja parceira ficou com ela ao longo de toda a transição. Ela me falou uma coisa muito importante: que daria absolutamente tudo para viver sua vida de maneira autêntica. Ser você mesmo parece a coisa mais simples do mundo, deveria ser um direito humano. Mas, quando para ser você mesmo é preciso passar pelo que Lili atravessou, seu parceiro ou parceira precisa fazer a transição também. Essa pessoa em Los Angeles sempre se perguntava qual era o nível de empatia da sua parceira. A Garota Dinamarquesa é uma exploração do amor. E do amor sendo algo além do gênero, dos corpos ou da sexualidade, mas entre almas.

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Sabia alguma coisa da questão transgênero? Para mim foi toda uma educação. Eu era incrivelmente ignorante quando comecei a pesquisa. Muitas coisas eu entendia errado. Por exemplo, relacionava gênero e sexualidade. E você pode ser um homem que faz a transição para o gênero feminino e continua atraído por mulheres, por exemplo. Ou não. Também achava que as pessoas trans precisavam obrigatoriamente ter passado por alguma transformação física. E não é o caso. Tem a ver puramente com o que você é na sua alma e na sua mente. Foram coisas que eu aprendi.

Acha que o filme pode contribuir para a aceitação das pessoas trans? Nunca presumiria algo assim. Espero que A Garota Dinamarquesa faça as pessoas sentirem o que eu senti: que era uma história de amor única e profunda. Mas também é um filme sobre autenticidade. O que me chocou quando li o roteiro é que faz quase cem anos que Lili e Gerda viveram, e as pessoas como Lili ainda sofrem discriminação e violência. Não houve grande progresso. Você pode ser demitido na maior parte dos estados americanos por ser trans. Os índices de violência contra pessoas trans, especialmente mulheres trans negras, é insano. E, ainda assim, faz só uns dois ou três anos que a discussão sobre assunto tornou-se mais pública. Se o filme puder, de qualquer maneira, continuar essa conversa, seria maravilhoso. Mas não presumo que isso vá acontecer.


Você interpretou Stephen Hawking, que está vivo, com perfeição. Como foi replicar Lili, uma pessoa que nunca encontrou? Primeiro, aceitei que não seria uma imitação. Vi fotos de Lili, não pareço em nada com ela. E como é uma interpretação da história, não é um registro histórico, me senti mais livre. Com Stephen foi diferente, sabia que ele assistiria ao filme. A verossimilhança era necessária.

Aprendeu alguma coisa de sua mulher (a executiva de relações públicas Hanna Bagshawe) quando estava fazendo Lili? Claro que a observação é muito importante, sempre. Não fiz muito, talvez um pouco sorrateiramente. Foi interessante porque na outra noite, antes de sairmos, ela estava passando rímel. E falei para Hannah que tinham me perguntado tantas vezes se eu tinha observado quando ela passava maquiagem, mas eu estava sentindo como se estivesse vendo pela primeira vez! (risos)

Você teve de interpretar uma mulher na mesma época em que estava se casando. Foi estranho? A cronologia foi apenas coincidência. Eu tinha aceitado fazer o filme três ou quatro anos atrás. Só que o financiamento demorou esse tempo para sair. Parecem coisas relacionadas, mas não sei… Deus, agora vou ter de ir ao psicólogo!

Era possível deixar Lili na porta do estúdio e voltar inteiro como Eddie para casa? Não sou um ator que fica no papel, geralmente. Acho que sou bom em deixar o personagem fora de casa. Mas de vez em quando minha mulher diz que há fantasmas de partes de personagens que ficam comigo, que eu não vejo. Acho interessante essa ideia de que as cinzas de todas essas pessoas que interpretei podem permanecer ao meu redor.

Então ela é casada com várias pessoas? Meio isso, sim!

Fico imaginando a cara dos seus pais, um banqueiro e uma empresária, quando você disse que queria ser ator. Eles sempre me apoiaram. Meu pai, que está acostumado a lidar com probabilidades, ficou preocupado porque não é fácil conseguir trabalho como ator. Mas, se eles tiveram medo, sempre esconderam por baixo do apoio que me deram.

Como se sentiu ao receber a Ordem do Império Britânico sendo tão jovem? Foi incrível. E tão estranho! Porque com o Oscar você é indicado e aí sabe que tem chances de ganhar. Aqui, não. De repente, você recebe uma carta dizendo que vai receber a ordem! Com o papel timbrado da realeza. Foi um susto.

Já se acostumou com seu Oscar? Não, acho que nunca vou me acostumar com o meu Oscar. Sempre que vejo a estatueta, parece brilhante demais para ser real.

Onde ela fica na sua casa? Na sala, perto de um sofá.

Sabia que existe um livro de colorir sobre você? Não!

E tem o Benedict Cumberbatch também. Sério? Então dá para colorir nós dois? Vou dar para minha mãe de presente. Se bem que ela provavelmente vai preferir apenas o do Benedict!

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