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Corta para ela

Lorena Bobbitt, a mulher que decepou o pênis do marido, ganha série no Prime Video, da Amazon — engrossando o filão de sucesso dos documentários criminais

Homens ao redor do mundo suaram frio em junho de 1993, quando os jornais americanos deram a aflitiva (e, até certo ponto, risível) notícia da moça que cortou o pênis do marido enquanto ele dormia. O motivo? Vários — e violentos. O casamento de Lorena e John Wayne Bobbitt durou quatro anos e terminou no lance do orgulho masculino extirpado (que se desdobraria numa cirurgia de reimplante do dito-cujo). Apesar da repercussão, poucas análises escaparam da piada pronta. Debaixo do tapete ficaram discussões sobre machismo, violência doméstica e estupro. Vinte e cinco anos depois, a série documental Lorena — disponível no Prime Video, da Amazon — examina esses temas.

Se na época o marido se manteve mais em evidência que a mulher, em virtude de bizarrices como sua conversão em ator pornô, o programa de quatro episódios revê o caso pela ótica dela — bem ao espírito dos tempos de movimentos como o Me Too. “Minha intenção era desmistificar a ideia da louca que mutilou o marido por vingança”, conta o diretor Joshua Rofé, que também assina a produção ao lado de Jordan Peele, do filme Corra!. “Lorena foi abusada e agredida. A razão que a levou ao extremo se perdeu em narrativas erradas. Queremos contar essa história de forma honesta e factual.”

Bandeiras feministas à parte, a série reforça um filão momentoso: o dos documentários que fundem investigação e drama de tribunal. Antes um primo pobre do cinema e da TV, o gênero documental ganhou súbita popularidade nas plataformas de streaming ao revisar com lupa (e algumas licenças narrativas capciosas) crimes já julgados pela Justiça. A tendência ganhou fôlego no universo dos podcasts e caiu nas graças da Netflix, dona de sucessos como Making a Murderer, Amanda Knox e o recente e controverso Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy.

Como os demais programas, Lorena se vale de táticas ficcionais para tornar a trama mais atraente. Há um trabalho de pesquisa profundo, com depoimentos de ambos os lados. A parte do tribunal é a espinha dorsal da série. Enquanto o primeiro julgamento, em que o marido era acusado de estupro, não pôde ser acompanhado pelas TVs, aquele que teve Lorena no banco dos réus foi televisionado. Ambos foram absolvidos, mas a série tem outro veredicto: em briga de marido e mulher, às vezes é preciso meter a colher — antes que a faca entre em ação.

Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2019, edição nº 2622

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