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Com Kristen Stewart, Woody Allen faz deliciosa viagem aos anos 1930 em ‘Café Society’

'Sempre me achei romântico. Não necessariamente é algo compartilhado pelas mulheres da minha vida', disse o diretor em entrevista coletiva sobre o filme que abre o Festival de Cannes

Aos 80 anos de idade, Woody Allen consegue manter a impressionante marca de um filme anual. Isso significa que há altos e baixos. Magia ao Luar (2014), por exemplo, foi um quase desastre e um retrocesso em relação a Blue Jasmine (2013), que contava com uma poderosa atuação de Cate Blanchett. O Homem Irracional (2015), com a dúvida do professor interpretado por Joaquin Phoenix em cometer ou não um crime, em tom predominantemente cômico, era melhor que Magia ao Luar. Café Society, que abre oficialmente, fora de competição, o 69º Festival de Cannes na noite desta quarta-feira (11) e foi exibido para jornalistas pela manhã, é um bom longa-metragem, seu melhor desde Blue Jasmine.

O diretor, agora produzido pelo cada vez mais poderoso Amazon Studios, volta ao passado, coisa que fez em vários de seus trabalhos anteriores, como o recente Meia-Noite em Paris (2011) ou o mais antigo A Era do Rádio (1987). Aqui, a viagem é aos anos 1930. Bobby (Jesse Eisenberg) está descontente com os rumos de sua vida em Nova York, onde trabalhava na joalheria do pai. Decide tentar a vida em Hollywood, onde seu tio Phil (Steve Carell) é um grande agente, que trata famosos como Ginger Rogers pelo primeiro nome. Depois de tomar vários chás de cadeira do tio ocupado (e meio desinteressado em princípio), Bobby é contratado para fazer pequenos trabalhos. Phil pede a sua assistente Vonnie (Kristen Stewart) que apresente Los Angeles ao novato.

Seu primeiro passeio é um tour pelas mansões dos astros e estrelas da época em Beverly Hills. Vonnie tem plena consciência da superficialidade daquela vida e trata tudo com ironia. Bobby apaixona-se imediatamente, mas ela tem um namorado. Os dois continuam sendo amigos e passando bastante tempo juntos. Até que, um dia, Vonnie bate à porta do rapaz aos prantos porque foi abandonada por seu par, um homem casado e mais velho.

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Tudo, claro, é banhado daquela nostalgia, atmosfera de sonho e humor tipicamente allenianos. Mas, desta vez, também com uma boa dose de melancolia. “A vida pode parecer divertida. Ver um marido inventando coisas porque está tendo um caso pode ser cômico. Mas também é triste, porque a mulher está sendo traída”, disse o diretor em entrevista coletiva após a sessão. “Muitas vezes dizemos: se eu não rir, me mato. Adotamos uma perspectiva cômica em nossa existência para lidar com a tristeza e a crueldade.”

O diretor retoma temas já abordados em sua obra: o mistério contido na paixão, a indecisão entre alguém totalmente diferente ou alguém bastante parecido, a busca pela fama, a magia da Hollywood antiga, as dificuldades da vida amorosa. “Sempre me achei romântico. Não necessariamente é algo compartilhado pelas mulheres da minha vida”, disse, arrancando gargalhadas. “Algumas podem dizer que eu era. Mas não no sentido Clark Gable. Mais como um pateta romântico. Elas diriam que eu romantizo Nova York, o passado, os relacionamentos amorosos. E provavelmente eu faço isso, e é bobo. Mas fui criado com filmes de Hollywood, que têm uma grande influência em mim.” A família do filme, em que pai (Ken Stott) e mãe (Jeannie Berlin) vivem brigando e falando iídiche, a irmã (Sari Lennick) cuida dos irmãos Bobby e do gângster Ben (Corey Stoll), é parecida com a do próprio cineasta. “Escrevo sobre o que conheço. Cresci numa família judia. Eu vivi isso.”

Como sempre, um dos destaques de Café Society é o elenco. Woody Allen parece escolher o ator perfeito para cada personagem. Jesse Eisenberg (Rede Social) é ideal para fazer o papel de Allen, com seu humor autoirônico e cheio de tiques neuróticos. Seu Bobby, porém, é injetado de uma vivacidade e suavidade que o próprio Allen nunca teve. “Se fosse anos atrás, eu teria interpretado o papel”, admitiu o diretor. “Mas teria sido mais unidimensional, pois sou comediante, não ator, como Jesse.” Grande admirador do cineasta, com quem trabalha pela segunda vez (a primeira foi em Para Roma com Amor, de 2012), Eisenberg escreveu uma peça sobre Woody Allen quando era adolescente. “Nunca falamos sobre o assunto, então fico feliz de ser trazido a público aqui nesta entrevista”, brincou o ator. “Na época, tentei vender o roteiro, Woody não ficou muito feliz com isso, seus advogados me mandaram parar. Foi o fim da história. Agora, pode ser o fim desse relacionamento profissional aqui”, disse, provocando risos.

O cineasta elogiou Kristen Stewart. “Precisava de alguém que pudesse ser uma secretária adorável do Nebraska, mas também se transformar numa mulher elegante.” Para a atriz, foi uma chance de ser vista de maneira diferente. “Ele enxergou algo que eu mesma nunca percebi”, disse. “Mas tive de fazer um teste e provar que podia ser essa garota doce.” No material de divulgação, Stewart conta ter dito a Allen não estar representando, que tinha vivido tudo aquilo. Dá para enxergar paralelos com sua vida sob os holofotes, muito jovem, frequentando festas em que as pessoas ficam citando os famosos que conhecem, e com o escândalo em que se envolveu ao ser fotografada com o diretor Rupert Sanders, um homem mais velho e casado.

Mas nem tudo em Café Society é igual à obra anterior de Woody Allen. Conhecido por trabalhar com alguns dos maiores diretores de fotografia, como Gordon Willis e Carlo di Palma, ele estreia uma colaboração com o italiano Vittorio Storaro (Apocalypse Now, O Último Imperador), vencedor de três Oscar, e filma pela primeira vez em digital no lugar de película. “Para mim foi exatamente a mesma coisa, o processo foi o mesmo”, declarou Allen. “Tenho 80 anos! Não posso acreditar. Me sinto tão jovem.” O diretor, que teve dificuldades de entender algumas perguntas por causa de problemas de audição, salientou que é uma questão de sorte, já que seu pai passou dos 100 anos, e sua mãe quase chegou lá. “Um dia, vou acordar de manhã e ter um derrame”, disse, naquele seu tom engraçado e pessimista. “Vou ficar numa cadeira de rodas, as pessoas vão comentar: Lembra-se dele? Mas, enquanto isso não acontece, continuarei a fazer filmes.”

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