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Cannes: Primeiros filmes da competição discutem sexo e relações familiares

O romeno 'Sieranevada', o francês 'Rester Vertical' e o inglês 'I, Daniel Blake' disputam a Palma de Ouro no festival

O Festival de Cannes não costuma selecionar filmes com fórmulas de fácil digestão. O início da competição da 69a edição é uma prova disso. O romeno Sieranevada, de Cristi Puiu, primeiro longa-metragem da disputa pela Palma de Ouro, por exemplo, é uma reunião familiar exibida em tempo (quase) real, o que, no caso, significam quase três horas de duração. O personagem principal é o médico Lary, que, depois de uma hilária discussão com a mulher no carro sobre fantasias de princesas da Disney, segue para a homenagem aos 40 dias de morte de seu pai. Lary é um sujeito impulsivo, que não pensa muito antes de agir, ao contrário de sua mulher.

O diretor, que ganhou o prêmio da mostra Um Certo Olhar em 2005 com A Morte do Senhor Lazarescu, inspirou-se em coisas que de fato aconteceram no velório e funeral de seu pai, que morreu em 2007, quando ele atuava como membro do júri da mesma seção. Ele se lembra de discutir no velório com uma pessoa que tinha saudades do regime comunista, um debate que também acontece no filme.

Na casa da Sra. Mirica (Dana Dogaru), a viúva e mãe de Lary, juntam-se irmãos, filhos, netos e sobrinhos, numa daquelas confusões típicas de famílias em geral, latinas em particular. Eles esperam o padre que vai fazer a cerimônia e, apesar de terem preparado um banquete, não podem comer enquanto o ritual não for terminado. Enquanto isso, acontecem discussões sobre um pouco de tudo, de teorias conspiratórias sobre o 11 de setembro até um cunhado infiel. Nos pequenos cômodos da casa, quase sempre a portas fechadas que impõem um obstáculo para os personagens, são revelados segredos e pedaços de história. Sieranevada demora um pouco para engrenar, mas, com habilidade, o diretor mergulha o espectador naquele caos trágico e divertido, com um abre e fecha de portas desafiador do ponto de vista técnico.

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Já o francês Alain Guiraudie estreou na competição de Cannes depois de fazer sucesso três anos atrás na mostra Um Certo Olhar com Um Estranho no Lago, que levou os troféus de filme e direção. Mas Rester Vertical (“Ficar na vertical”, em tradução livre) tem pouco em comum com o filme anterior, a não ser pelas cenas bem explícitas de sexo e closes de genitália. Enquanto Um Estranho no Lago era um suspense, o novo trabalho é uma comédia dramática surrealista, mais parecida com seu primeiro longa, Pas de Repos Pour les Braves (algo como “Os Corajosos não têm Descanso”, de 2003).

Aqui, o protagonista é Léo (Damien Bonnard), um roteirista que faz uma viagem pelo interior da França. Ele encontra um rapaz na beira da estrada e faz uma proposta quase indecente, que Yoan (Basile Meilleurat) não aceita. Numa caminhada pelo campo, conhece a pastora Marie (Linda Hair), que ajuda o pai Jean-Louis (Raphäel Thierry) a proteger as ovelhas dos lobos, mas está louca para sair dali. Léo e Marie têm um caso, que termina com o nascimento de um bebê. Ela vai embora, e Léo torna-se pai solteiro. Enquanto isso, o roteiro que deveria entregar vai ficando em segundo plano. Tanto Léo quanto todos os outros personagens masculinos usam e abusam da sexualidade fluida.

Guiraudie tem um especial talento em filmar cenas na natureza e algumas que parecem saídas de um sonho – ou pesadelo, dependendo do ponto de vista. Seus filmes também são fortemente inspirados por contos de fada, e a escolha dos lobos não é um acaso. Acima de tudo, ele gosta de desconcertar, seja mostrando um parto normal sem truques ou apostando em cenas absurdas, como a da curandeira (fada-madrinha?) na floresta, que consulta Léo com ramos de árvores em vez de eletrodos. O que é realidade, o que é sonho e o que é mito se misturam de forma interessante. Neste caso, nem sempre funciona. Pouco carismático, Bonnard atrapalha um pouco.

A tarde da quinta-feira trouxe I, Daniel Blake (“Eu, Daniel Blake”), o novo filme de Ken Loach, Palma de Ouro em 2006 com Ventos da Liberdade. Conhecido por sua obra de forte cunho político e social, o cineasta volta a fazer um drama, depois de dois longas seguidos em que escolheu o caminho da leveza, A Parte dos Anjos (2012) e Jimmy’s Hall (2014).

Daniel Blake (Dave Johns) é um marceneiro quase sexagenário que perdeu a mulher recentemente, teve um ataque cardíaco e foi proibido de trabalhar. Ele solicita pensão por invalidez, que é negada, e se vê no meio de uma estrutura burocrática impossível de vencer. Daniel topa com Katie (Hayley Squires), a jovem mãe de duas crianças, Daisy (Briana Shann) e Dylan (Dylan McKiernan). Abandonada pelo namorado, ela se vê sem dinheiro em Londres e é enviada para Newcastle, a 400 quilômetros de distância. Eles acabam se ajudando como podem, mas esbarram em dificuldades de encontrar empregos inexistentes, preconceito e organizações governamentais que deveriam ajudar, mas acabam punindo os mais pobres.

Loach e seu roteirista habitual, Paul Laverty, fizeram uma grande pesquisa para mostrar a situação atual para os menos favorecidos na Inglaterra. Começaram pela cidade natal do diretor, Nuneaton, onde visitaram instituições de caridade e bancos de comida, e também conversaram com os funcionários do equivalente ao INSS.

I, Daniel Blake conta com atuações poderosas, das crianças a Dave Johns, um comediante de stand-up que faz seu primeiro filme, passando pela jovem Hayley Squires. Johns e Squires já se inscrevem na lista de possíveis candidatos aos prêmios de atuação. Loach infunde seus personagens de tanta humanidade que é impossível não se compadecer. Mas não se trata de um cineasta exatamente sutil: ele quer ter certeza de que está passando sua mensagem.

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