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Cannes: Premiação foi a mais controversa dos últimos anos

Júri foi vaiado na entrada da sala de coletiva por celebrar os filmes de Xavier Dolan e Olivier Assayas, mal recebidos pela imprensa

O júri sempre provoca uma surpresa ou duas no Festival de Cannes. No ano passado, foi a Palma de Ouro para Dheepan, de Jacques Audiard. Em 2013, foi o prêmio de direção para o mexicano Amat Escalante (Heli). E no ano anterior, o troféu de direção para outro mexicano, Carlos Reygadas, por Post Tenebras Lux. Mas fazia tempo que os prêmios não eram tão controvertidos quanto neste 69º Festival de Cannes. Parece que o júri presidido por George Miller pensou: “Vamos ver o que dá mais confusão”. A certo ponto, chegou a parecer possível sobrar alguma coisa para The Last Face, de Sean Penn, ou Mal de Pierres, de Nicole Garcia.

Foi quase isso. Dois filmes bastante polêmicos, mal recebidos por grande parte da imprensa, saíram vitoriosos. Xavier Dolan, o menino-prodígio, ganhou o Grande Prêmio do Júri, um vice-campeonato, com Juste la Fin du Monde. E Olivier Assayas, com Personal Shopper, compartilhou o troféu de direção com Cristian Mungiu (Bacalaureat). A divisão numa categoria tão importante deixa evidente um racha no júri: os dois longas, inclusive, não poderiam ser mais diferentes. Personal Shopper é uma história de fantasmas impressionista, enquanto Bacalaureat mostra o dilema moral de um pai na corrupta sociedade romena. Outro indício dos desentendimentos do júri foi a Palma de Ouro para I, Daniel Blake, de Ken Loach. É um filme forte, contundente, sobre a realidade de muita gente ao redor do mundo, mas não deixa de ser uma escolha segura, sem controvérsia. Nenhum dos preferidos da crítica – Elle, de Paul Verhoeven, Toni Erdmann, de Maren Ade, e Paterson, de Jim Jarmusch – levou nada, nem prêmios óbvios como melhor atriz para Isabelle Huppert ou Sandra Hüller ou ator para Adam Driver. Mads Mikkelsen descreveu o processo como “sangrento”, meio na brincadeira, meio sério. Todos definiram as discussões como apaixonadas. “Foi uma experiência incrível, rigorosa e vigorosa”, disse Miller na coletiva de imprensa após a cerimônia. Pode ter sido, mas com certeza vai ficar para a história, no mau sentido.

O júri foi vaiado na entrada da sala de coletiva, mas depois as entrevistas transcorreram sem grandes problemas. Laszló Nemes, que ganhou o Grande Prêmio do Júri ano passado com Filho de Saul, vencedor do Oscar de produção em língua estrangeira, defendeu o troféu dado a Xavier Dolan. “Fiquei empolgado, foi o primeiro filme que vimos rodado em 35 mm, e eu sou a favor de vermos mais obras projetadas em película. Era uma jornada emocional, em que dava para sentir a voz específica do diretor. Gosto de ver cineastas procurando caminhos pessoais, sem repetir coisas que outros já fizeram.”

Em seguida vieram os premiados. O curta-metragista brasileiro João Paulo Miranda Maria, que levou menção honrosa por A Moça que Dançou com o Diabo, alertou para o momento complicado do país. O iraniano Shahab Hosseini, melhor ator por Forushande, de Asghar Farhadi, disse que sentia “a alegria que meu povo deve estar sentindo. Dois prêmios foram dados ao meu país”. Mais tarde, ele declarou: “Passei dias ótimos aqui, conversando com muita gente diferente. Talvez pela arte seja possível acreditar num mundo em que o diálogo é possível”.

Xavier Dolan, que aos 27 anos ganha o Grande Prêmio do Júri, o segundo mais importante, falou da sua experiência com o polêmico Juste la Fin du Monde, que foi vaiado em sessão de imprensa e mal recebido pelos críticos. “Cannes é imprevisível. Mas foi duro ver como as pessoas compreenderam mal meu filme. Foi chocante, porque você faz um trabalho com tanto amor e paixão. E sempre vou ficar curioso sobre o que os outros acham dos meus trabalhos. No fim, percebi que o importante é ser fiel a você mesmo. É assim que me sinto agora.”

Próximo de completar 80 anos, Ken Loach, vencedor da Palma de Ouro pela segunda vez, com I, Daniel Blake, disse estar surpreso “porque nessa idade você fica feliz se vir a luz do sol no dia seguinte”. Ele se declarou incomodado quando seus filmes são definidos como sociais. “Porque, se você fizer um longa sobre a aristocracia, ele também será social.”

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