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Afonso Poyart, o novo brasileiro a conquistar Hollywood

Diretor comanda ‘Presságios de um Crime’, suspense que conta com Anthony Hopkins e Colin Farrell no elenco

Apenas um filme foi necessário para o brasileiro Afonso Poyart chamar a atenção de Hollywood. Após dirigir o nacional 2 Coelhos (2012), o diretor foi convidado a comandar um longa americano com ninguém menos que Anthony Hopkins no elenco. Ao lado de nomes como Walter Salles (Diários de Motocicleta), Fernando Meirelles (Ensaio Sobre a Cegueira) e José Padilha (RoboCop), o cineasta natural de Santos, São Paulo, é o mais novo membro do grupo de talentos brasileiros com qualidade tipo exportação. O resultado é o suspense Presságios de um Crime, em cartaz no país.

A trama gira em torno de um misterioso serial killer, que assassina suas vítimas com objetos pontiagudos e deixa o mínimo de rastros em seus crimes. Sem pistas e perdidos no caso, os agentes do FBI Joe Merriweather (Jeffrey Dean Morgan) e Katherine Cowles (Abbie Cornish) recorrem a um médico com poderes de vidência, John Clancy (Hopkins). Porém, a situação se mostra mais complexa do que foi imaginado à medida que Clancy vai desvendando o quebra-cabeças ao lado dos investigadores. Além do intérprete do icônico Hannibal Lecter, de O Silêncio dos Inocentes (1991), o elenco conta também com o popular Colin Farrell, de O Vingador do Futuro (2012).

A experiência, como diz o diretor ao site de VEJA, foi difícil, mas gratificante. Agora, Poyart se volta novamente para o mercado nacional, com o filme Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo, já em pós-produção sobre o lutador de MMA, ainda sem estreia marcada.

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Poyart consegue prender a atenção do público ao longo de pouco mais de uma hora e meia de ação e se mostra uma revelação no comando de thrillers policiais. Com sequências criativas, especialmente durante as visões de Clancy, o diretor leva o filme com segurança até um desfecho surpreendente, seu grande trunfo.

Confira abaixo a conversa com o cineasta:

Quais aspectos do seu primeiro filme, 2 Coelhos, chamaram a atenção de Hollywood para que surgissem convites para trabalhar nos Estados Unidos? Acho que o roteiro com uma construção não-linear, e o jeito que isso desembocou em uma surpresa no final. A estrutura de 2 Coelhos é algo que os profissionais da indústria do cinema gostam muito. Outra coisa é a inventividade visual, com várias sequências diferentes e mistura de estilos.

Você recebeu outras propostas além de Presságios de um Crime? Por qual motivo optou por pegar esse roteiro? Sim, eu estava entre alguns roteiros. Me ofereceram O Protetor, com o Denzel Washington. Era um filme que estava mais ou menos na mesma etapa de desenvolvimento. Mas Presságios de um Crime tinha um componente mais inteligente. O roteiro é sofisticado, com uma mensagem forte. Além disso, ter Anthony Hopkins, que já estava confirmado, também me seduziu. Fiquei animado em trabalhar com ele.

Como foi a escolha do elenco? O Hopkins já estava acertado, os demais eu ajudei a escolher. Obviamente que o Colin Farrell é um nome forte, então foi uma escolha baseada no mercado. Além de funcionar bem para o papel, ele tinha a popularidade que precisávamos. Claro que a sugestão do Colin veio junto com uma lista de pessoas possíveis e ele era um dos que a gente mais gostava. Fomos atrás e ele topou. Às vezes não dá certo ter alguém no elenco porque a agenda não bate, porque o cara não se identifica com o projeto ou por ter feito um filme parecido. Mas com ele deu tudo certo.

Hopkins já venceu um Oscar, Farrel um Globo de Ouro. Como foi estrear em Hollywood com pessoas tão experientes? Foi muito legal. São pessoas bem fortes. Claro que para trabalhar com atores como eles, é preciso mostrar convicção nas ideias. É uma bola que se bate em um nível alto. Se você chegar com uma conversa fraca, eles podem refutar seus pedidos e questionar: ‘Pra que você quer que eu faça isso?’. É uma situação complexa, não foi fácil. E também foi meu primeiro filme lá, tem uma desconfiança natural: ‘Quem é esse cara?’. Um diretor pode colocar um ator em uma situação ridícula. Isso acontece. Tem que ter muito cuidado. E devagar, vendo o projeto, as cenas, minhas escolhas, consegui conquistar a confiança de ambos.

As diferenças em produzir um filme nacional e um em Hollywood devem ser gritantes. Quais as principais que você notou? A principal diferença é a quantidade de dinheiro envolvida na produção, o que traz responsabilidades maiores. Filmes americanos são mais consumidos internacionalmente, enquanto os brasileiros rodam principalmente por aqui. Eles podem até viajar um pouco, fazer carreira internacional, mas nem se compara a um americano. Então existe também essa preocupação de viajar, de agradar o mercado internacional, essa é uma diferença. Você está fazendo conteúdo para o mundo. E também o jeito de fazer cinema, que é um pouco mais burocrático. O nosso é mais autoral e improvisado. No set de Presságios, eles tinham um pouquinho de medo de improvisação na última hora.

Quais são as metas do filme em termos de bilheteria? E premiações? O filme é uma produção independente que foi vendida no mundo todo, ele tem diversas distribuidoras. Então essa meta fica mais a critério delas. Sei que foi lançado no México e foi muito bem, com 1 milhão de espectadores. Quanto a premiações, o longa não foi mandado para festivais, os produtores não fizeram esse circuito.

A trama lembra um pouco Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995), com um serial killer que mata com um padrão. Quais filmes serviram de referência para Presságios de um Crime? Eu tenho diversas referências, não só filmes. Às vezes é uma sequência de videogame, um vídeo no YouTube, um comercial que a solução visual é interessante. É claro que também me inspiro no David Fincher, um pouco desse tom de crime thriller. Outro filme interessante é A Hora da Zona Morta (1983), do David Cronenberg, que é sobre um vidente, com o Christopher Walken. Foi um longa que eu vi e tentei fazer algumas coisas inspiradas nele, principalmente no jeito que o personagem recebe as visões.

Algumas cenas foram gravadas em São Paulo. Sim, boa parte das aéreas foi feita em São Paulo. As externas do trem, cenas da cidade de cima, uma floresta com uma estrada; que é na Serra da Cantareira. Tem também a cena de um sonho que um dos personagens tem com a filha, ela está em meio a ruínas. Isso também foi filmado em São Paulo.

O filme tem uma visão interessante sobre o fim da vida. Em alguns momentos, o roteiro remete à eutanásia. Quis promover uma discussão ao redor do assunto? Minha pretensão nunca foi dar uma opinião, ela não existe ali. A história serve para abrir essa discussão. Acho que chegar a uma conclusão é quase impossível nessa história. É uma questão muito delicada, difícil, que envolve tanta coisa. Principalmente religião. A eutanásia é tratada no longa de maneira paralela. O que eu gosto desse roteiro, aliás, é que em torno de toda essa discussão, o vilão nem é tão vilão e o mocinho nem é tão mocinho, eles são ambíguos. O discurso do vilão é muito forte e contundente. Uma coisa que eu gostei é que as pessoas saem do cinema discutindo sobre. A produção vai muito bem com pessoas em torno dos 30 anos. Essa questão sobre vida e morte parece atingir menos os mais jovens, que ainda não conseguem se conectar com o tema.


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