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A última noite

Por seis domingos, milhões de pessoas ao redor do mundo vão assistir ao mesmo tempo aos episódios finais de 'Game of Thrones'

Por - 12 abr 2019, 07h00

O que torna uma série grande? Se a resposta começar pela história que os números contam, a televisão contemporânea não conhece série maior do que Game of Thrones: uma recordista em custo (ao norte de 100 milhões de dólares por temporada), recordista em audiência (na sétima temporada, 30 milhões de espectadores por episódio só nos Estados Unidos) e, lamentavelmente, recordista também em pirataria (estima-se que essa mesma sétima temporada tenha sido pirateada 1 bilhão de vezes). Nunca se montou, também, uma operação tão ambiciosa: como uma versão moderna de Júlio César e Marco Antônio, os criadores David Benioff e D.B. Weiss estabeleceram o quartel-­general da produção na Irlanda do Norte e orquestraram sua campanha de ocupação da cultura pop revezando-se entre Belfast e os postos avançados na Croácia, na Islândia, no Marrocos, na Espanha e em Malta. Cenas avulsas foram rodadas em mais um punhado de países, e o trabalho de finalização foi espalhado pelo mundo — uma internacionalização sem precedentes na TV. É possível, também, que nenhuma outra série tenha empregado tanta gente: mais de 700 atores no elenco (incluindo-se dois brasileiros, o menino Lino Facioli, que interpretou Robin Arryn, e Diogo Sales, que figurou como um cavaleiro dothraki), até 5 000 figurantes numa mesma temporada, algo como 6 000 integrantes na equipe. Cerca de metade desta, aliás, foi destacada para os efeitos visuais: os 67 episódios lançados até aqui somam mais de 10 000 tomadas com interferência digital — outro recorde. Game of Thrones é, de certa forma, uma economia em si própria, tão vigorosa que foi capaz de impulsionar outras economias — como a da Croácia, onde a medieval Dubrovnik, aproveitada até o sumo como locação, virou um destino turístico fervilhante.

QUEBRANDO TABUS - Lena Headey e Nikolaj Coster-Waldau como os gêmeos e amantes Cersei e Jaime: incesto, violência crua e muita nudez

Números, porém, não dão conta do significado real de Game of Thrones. Para compreendê-lo, é preciso lembrar o que se desenrolou desde 17 de abril de 2011, quando o episódio inaugural foi ao ar, até o que está por vir agora, com a oitava e derradeira temporada. Por seis noites, entre 14 de abril e 19 de maio, dezenas de milhões de pessoas ao redor do mundo vão pôr de lado o que estão fazendo para assistir a um mesmo programa, ao mesmo tempo — e talvez seja a última vez em que o façam. Quanto mais o streaming se pulveriza e se talha aos hábitos de cada espectador, mais distante vai ficando essa bela liturgia, a da audiência simultânea e do prazer compartilhado. Hoje, na televisão, só GoT faz com que ela seja ressuscitada em uma medida expressiva, alguns domingos por ano. Esse poder de unir num mesmo lance de imaginação indivíduos diversos e dispersos é a razão de ser do ato de narrar. GoT desempenhou sua missão com brilhantismo, e por isso seu poder cresceu de maneira vertiginosa a cada temporada. O clima febril com que o retorno da série está sendo aguardado indica que a progressão vai se manter, e que a noite de 19 de maio será memorável — a mais memorável de todas.

GoT virou uma potência, mas estreou como uma aposta incerta. Fantasias vão bem no cinema, mas tendem a claudicar na TV: nem as telas menores são o palco ideal para elas nem os recursos de produção costumam fazer jus às exigências visuais do gênero. Ademais, a saga escrita pelo americano George R.R. Martin era popular, mas nem de longe nos termos de O Senhor dos Anéis. O americano Peter Dinklage, que faz Tyrion Lannister, recebeu ressabiado o convite dos produtores: Dinklage é um ator de prestígio muito sério, e interpretar um anão de fantasia lhe parecia uma ideia altamente suspeita. “Nunca fiz nada tão realista”, diz ele hoje — “apesar de estar cercado de dragões e de mortos que caminham.”

Rever as sete temporadas lançadas até aqui é obrigar-se a dar razão a Dinklage. David Benioff e D.B. Weiss decantaram e filtraram as quantidades prodigiosas de enredo dos livros publicados por Martin até que restasse apenas o fundamental. Como também deste há quantidades colossais, a dupla se dedicou então a torná-lo não apenas domável, mas ágil e elegante. Eles saíram-se ainda melhor quando se descolaram dos livros (Martin promete e promete, mas não publica os volumes finais): puxaram a ação para algumas locações e alguns personagens, e dobraram a voltagem da narrativa. Vale notar, da mesma forma, a perícia com que os diálogos são escritos. Inteligentes e espirituosos, são um prazer de ouvir — e são também exemplares do ponto de vista da funcionalidade, já que expõem a trama sem que o espectador se dê conta do peso maciço que cada fala está carregando.

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A habilidade decisiva de Benioff e Weiss, entretanto, é outra. Veja-se o caso dos atores de estatura extraordinária de GoT. Não há muitos bons papéis por aí para homens na casa dos 2 metros de altura, mas a dupla achou lugar para vários deles: por exemplo, Ian Whyte (o gigante Wun Wun, 2,16 metros), Kristian Nairn (Hodor, 2,13), Hafthór Júliús Björnsson (Montanha, 2,06), Rory McCann (Cão de Caça, 1,98). E então a série fez algo quase miraculoso: deu a eles arcos dramáticos de verdade. O tímido, gentil e medroso Hodor carregou Brandon Stark por toda Westeros pronunciando uma única palavra — o próprio nome. Kristian Nairn o repetiu 101 vezes enquanto esteve em cena, e achou para ele nuances tocantes. O escocês Rory McCann, por sua vez, brilhou ao transformar Cão de Caça, um brutamontes cruel, em um homem que nunca deixará de ser um brutamontes, mas não suporta mais ser cruel. GoT dedicou o mesmo respeito à atriz Gwendoline Christie, de 1,91 metro: como Brienne de Tarth, uma cavaleira sempre em busca de alguém a quem possa servir com honra, Gwendoline explorou com delicadeza as constrições que a aparência pode impor a uma pessoa — e também a libertação que se pode encontrar nela.

É aí que talvez esteja o talento maior da dupla de produtores: a maneira como aprofundaram seus personagens (ou boa parte deles) e deixaram que eles mesmos fossem se revelando para o público, cada um a seu tempo — do humanismo que move o intrigante Lorde Varys à frieza escondida em Arya; do coração largo de Tyrion ao espírito submisso de seu irmão Jaime; da bravura do covarde Samwell Tarly à fibra que Daenerys encontra em si. Tornar cada personagem único e inteiro é a primeira regra para quem almeja conquistar o espectador — e é a mais difícil de cumprir na íntegra. GoT conseguiu criar fileiras de personagens assim graças, também, ao seu equilíbrio entre veteranos e estreantes. Atores experimentados, como Charles Dance, Iain Glen, Liam Cunningham e Sean Bean, fizeram parceria com jovens estreantes, como Emilia Clarke (Daenerys), Sophie Turner (Sansa), Maisie Williams (Arya) e Kit Harington (Jon Snow), para quem GoT acabou se tornando o trabalho de toda a adolescência, ou toda a juventude. “Daenerys me obrigou a crescer, a encontrar em mim uma força que eu não sabia ter. Ela me moldou, na verdade, tanto quanto eu a moldei”, diz Emilia Clarke, que caiu do cavalo — literalmente — na primeira cena que teve de filmar e é um desses casos espantosos de atores que passam a olhos vistos da inexperiência para a maturidade. A revelação, há poucas semanas, de que a série correu o risco de perder sua personagem mais amada em razão de um grave problema de saúde só amplia a dramaticidade de sua evolução Todos esses novatos têm agora a carreira aquecida pela frente — embora ninguém mais que o músico americano Ramin Djawadi. Ao renovar a música épica com sua ênfase nas cordas graves e o gosto por instrumentos exóticos, ele é hoje um dos profissionais mais requisitados da área na TV e também no cinema.

UM PRATO FRIO - Arya Stark (Maisie Williams) mata o traidor Walder Frey (David Bradley): mocinha faminta de vingança

GoT está longe de ser a primeira série em que a HBO lida com violência explícita, sexo gráfico, nudez frontal masculina, profanidade e tabus variados — para ficar em um único caso, a excelente Roma, exibida entre 2005 e 2007, tinha doses generosas de tudo isso. Mas foi, talvez, seu laboratório mais avançado: tratando de incesto (e com filhos nascidos dele), tornou autêntico o sentimento entre os gêmeos Cersei e Jaime Lannister (Lena Headey e Nikolaj Coster-Waldau); mostrando atos de barbaridade monstruosa, como a morte do príncipe Oberyn (Pedro Pascal), chocou sempre pela fragilidade com que o corpo derrota a arrogância; pondo em cena dúzias de homens e mulheres nus, nos bordéis de Porto Real, lembrou como pode ser degradante esse comércio para os que são explorados por ele. Caminhando sobre o fio de uma navalha, enfim, Benioff e Weiss conseguiram manejar facetas sempre fascinantes do comportamento humano sem torná-las propriamente sedutoras.

O mais difícil de explicar em GoT, porém, é a alquimia que fez com que todos os seus elementos — do elenco à música, do figurino às locações, do sexo e violência à urgência do drama — se amalgamassem em uma substância nova e rara. GoT captura a imaginação com os dragões de Daenerys e com os mortos que vêm do gelo; faz com que os espectadores amem e odeiem seus personagens com uma força irascível; apela para o vasto repertório dos contos de fadas e comenta com notável virulência a geopolítica. É uma fórmula irreplicável. O que significa que também o vazio que a série deixará talvez não possa mesmo ser preenchido.

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HERÓI INSUSPEITO Dinklage, como Tyrion: “O drama mais realista”

Para a HBO e para a TV a cabo em geral, essa é uma perspectiva assustadora. Quando GoT estreou, o cabo ainda reinava supremo sobre a revolução da televisão americana. Dois anos depois, entretanto, em 2013, o jogo subitamente mudou para o campo de um adversário que ninguém na indústria de entretenimento fora capaz de antever: com House of Cards e a tática inédita de disponibilizar todos os episódios de uma temporada simultaneamente, a Netflix fez dois lances táticos poderosos de uma só vez — provou que podia oferecer qualidade comparável à da HBO, da AMC, do Showtime e de outros canais a cabo, e instituiu o hábito hoje inarredável da maratona das séries. O cabo agora luta para preservar seu formato e suas qualidades únicas num ambiente repleto de distrações e hostil a ele do ponto de vista financeiro.

O 19 de maio, assim, se anuncia como uma data de ocaso; por mais desgastado que seja o clichê, tudo conspira para que, nessa noite, uma era se encerre. Desde seus primórdios, a TV foi uma experiência comunitária — à frente dela se reunia a família — e coletiva — todas as famílias tinham de se reunir à frente dela na mesma hora. O stream­ing não só tornou esse ritual obsoleto; ele caminha para suprimi-­lo. E, até aqui, foram frustradas as tentativas de forjar outro fenômeno de massas como GoT. Mas elas prosseguem: ainda neste ano, a própria HBO lança a fantasia His Dark Materials, adaptada dos livros de Philip Pullman. Pelo sim, pelo não, tem outra carta na manga — um ás, na verdade. Enquanto o exército da produção de GoT depõe armas, uma nova legião já se forma: no meio do ano, iniciam-se as filmagens de uma série passada entre 5 000 e 10 000 anos antes dos eventos de GoT, com estreia em 2020. As atrizes Naomi Watts e Miranda Richardson já assinaram contrato, mas o argumento é segredo absoluto. Foi criado, porém, pelo próprio George R.R. Martin, em parceria com a inglesa Jane Goldman, produtora de Kick-­Ass e Kingsman, que será a encarregada de fazer a série marchar — Benioff e Weiss vão atuar só como produtores executivos. Quando o grande mistério de GoT for conhecido na sua última noite, um novo mistério vai se apresentar: se o George R.R. Martin de 2020 será capaz de ombrear com o George R.R. Martin de 2019.


GLÓRIA FEITA DE SANGUE

Seis cenas que provam a grandeza de Game of Thrones


A DECAPITAÇÃO DE NED STARK

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TEMPORADA 1, EPISÓDIO 9

Nada, ainda, se iguala ao choque de ver o petulante Rei Joffrey mandar cortar a cabeça do protagonista — Sean Bean era o primeiro nome do elenco — diante da multidão de Porto Real e de suas filhas Sansa e Arya Stark. Ficou provado (e, depois, inúmeras vezes confirmado) que ninguém está a salvo em GoT


A TOMADA DE ASTAPOR

TEMPORADA 3, EPISÓDIO 4

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Daenerys vagou faminta pelo deserto, teve os dragões roubados, foi traída e, na cidade de Astapor, aguentou uma torrente de insultos. Assim que assegurou seu exército de 8 000 Imaculados, porém, mostrou pela primeira vez a inteira força de sua realeza. Não por acaso, é o momento preferido da atriz Emilia Clarke


O CASAMENTO VERMELHO

TEMPORADA 3, EPISÓDIO 9

Robb Stark, o Rei do Norte, pediu desculpas humildes ao lorde Walder Frey por uma grave desfeita. Mas o mesquinho Frey, em conluio com os Lannister, transformou um casamento em seu castelo numa chacina dos convidados. Uma cena horripilante, de emudecer o espectador — é o único episódio que termina sem música

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A AVALANCHE DOS MORTOS

TEMPORADA 5, EPISÓDIO 8

 

Jon Snow arrisca a vida para convencer os selvagens da gélida Durolar a migrar para a Muralha e unir-se à Patrulha da Noite. Seu êxito é breve: mal começam todos a rumar para o cais, uma avalanche desce sobre eles — encostas de neve misturadas a milhares de mortos. É a primeira sequência de ação ininterrupta da série, e é brilhante

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A CAMINHADA DA PENITÊNCIA

TEMPORADA 5, EPISÓDIO 10

Tanto Cersei Lannister trama que se vê ela própria vítima de sua armação: capturada pelos ortodoxos Pardais, é obrigada a atravessar Porto Real nua, sob apupos e agressões, enquanto uma septa toca um sino e grita: “Vergonha!”. Um momento de satisfação só comparável ao da morte do detestado Rei Joffrey


A BATALHA DOS BASTARDOS

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TEMPORADA 6, EPISÓDIO 9

Os exércitos de Jon Snow e do psicopata Ramsay Bolton se enfrentam nos campos que circundam Winterfell durante 23 minutos de violência, desespero e excelência cinematográfica: é, até aqui, o episódio mais caro da série (15 milhões de dólares) e sua sequência mais impressionante e bem concebida

Publicado em VEJA de 17 de abril de 2019, edição nº 2630

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