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Para limpar balanço, Caixa repassa R$ 23 bilhões em ‘créditos podres’

No Brasil, venda de "créditos podres" ainda é mercado recente, que só agora deslancha com a adesão dos grandes bancos nacionais

Depois de ser usada pelo governo como locomotiva de crédito para impulsionar a economia nos últimos anos, a Caixa Econômica Federal recorreu à venda recorde de 23 bilhões de reais em “créditos podres” – débitos considerados de difícil recuperação – desde 2014 para limpar o balanço da instituição.

No ano passado, o banco estatal vendeu 13,1 bilhões de reais a empresas especializadas na recuperação de dívidas, quase o triplo da soma das operações do mesmo tipo feitas pelos três principais concorrentes – Banco do Brasil vendeu 3 bilhões de reais, Itaú Unibanco, 2,2 bilhões de reais, e Bradesco não efetuou esse tipo de negócio. Pelas transações feitas no ano passado, a Caixa recebeu apenas 439,3 milhões de reais.

Em fevereiro, o banco colocou à venda mais 1,5 bilhão de reais da carteira de empréstimos inadimplentes de micro e pequenas empresas. Em 2014, a Caixa já tinha desovado 8,3 bilhões de reais em créditos em atraso que estava carregando no balanço, ou mesmo já baixados para prejuízo. Por essa venda, recebeu 1,6 bilhão de reais.

Depois de ser protagonista na expansão de crédito no Brasil nos últimos anos, com crescimento da carteira até superior a 40% ao ano, a Caixa passa por brusca desaceleração na concessão de empréstimos e financiamentos. Fechou 2015 com aumento de 11,9%, ritmo bem menor do que os 22,4% de 2014 e os 36,8% de 2013.

Com a recessão prolongada, a inadimplência aumentou, o que obrigou o banco a fazer provisões maiores para cobrir eventuais calotes. A exigência diminuiu o lucro do banco, que não contará com novas injeções do governo e depende de lucros retidos para reforçar o capital.

“A Caixa entrou numa série de linhas que nunca tinha entrado antes, foi muito agressiva na oferta de crédito, viu a inadimplência subir e não tem a expertise na recuperação de inadimplentes”, afirma Guilherme Ferreira, da Jive, empresa de recuperação de dívidas.

O banco, seguindo recomendação do governo, seu controlador, entrou nas operações de crédito a empresas. Também foi obrigado a tocar o Minha Casa Melhor, linha de financiamento de até 5 mil reais para compra de móveis e eletrodomésticos para os beneficiários do Minha Casa Minha Vida. A inadimplência do programa, rejeitado pela equipe técnica do banco, é de 35,2%, enquanto a taxa de calotes de linhas similares oferecidas pela rede bancária é de 10%.

Mercado recente – No Brasil, a venda de “créditos podres” ainda é um mercado recente, que só agora deslancha com a adesão dos grandes bancos nacionais. Com folga de capital, as instituições vinham preferindo manter os créditos após as tentativas de cobranças dos clientes inadimplentes.

O aumento da inadimplência e o endurecimento gradativo das regras de Basileia – acordo internacional que visa garantir solidez ao sistema financeiro – incentivaram os bancões a repassarem o estoque de devedores. “Os bancos estão vendo de um lado o capital deles sendo comprimido por perdas de inadimplência, por outro lado exigências de capital maior”, diz Guilherme Ferreira, da Jive.

Em 2015, o Itaú Unibanco vendeu um portfólio de 2,2 bilhões de reais em operações de crédito de empresas clientes que estavam inadimplentes a um fundo especializado. O “prêmio” pago foi de 24 milhões de reais.

O Banco do Brasil repassou cerca de 3 bilhões de reais de operações já baixadas em prejuízo à Ativos, empresa do grupo especializada na recuperação de dívidas. O lucro do banco com a transação depende da taxa de sucesso da empresa na cobrança dos calotes. Em média, são empréstimos de tíquete baixo, entre 3 mil reais e 4 mil reais, sem garantias. O Bradesco não fez cessão de carteiras no ano passado.

No setor, a conta é que a venda de créditos podres em 2015 chegou a 20 bilhões de reais – não há dados oficiais sobre a venda dessas carteiras no país. Os bancos brasileiros registram cerca de 100 bilhões de reais por ano em novas operações de créditos inadimplentes. O mercado ganhou empresas e fundos especializados, além da Jive, RCB e Recovery, do BTG Pactual, o que também impulsionou as operações. O aumento da concorrência é visto como saudável.

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(Com Estadão Conteúdo)

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