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O mensageiro é inocente

Em vez de fazer algo contra a alta taxa de desemprego, Bolsonaro resolve combater o IBGE — e traz à lembrança a manipulação dos Kirchner na Argentina

Guillermo Moreno foi o secretário de Comércio Interior argentino entre 2006 e 2013, passando pelos governos de Néstor Kirchner e sua sucessora, Cristina Kirchner. Era ele o responsável por manipular os índices oficiais de inflação e desemprego enquanto esteve no cargo. A situação foi denunciada por funcionários do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos da Argentina nos jornais. Consultorias privadas investiam fortunas para refazer o trabalho do Indec e eram atacadas publicamente por Moreno quando divulgavam uma inflação duas ou até três vezes maior que a oficial. Era o barraco da manipulação.

Na semana passada, Jair Bolsonaro atacou abertamente o IBGE, órgão análogo ao argentino Indec, o que já causa temores entre técnicos do governo de que ele enverede pelo caminho do casal Kirchner. Diante da divulgação dos dados da última pesquisa realizada pelo instituto, que mostrou aumento do desemprego no trimestre encerrado em fevereiro, o presidente desancou o trabalho do órgão. “Com todo o respeito ao IBGE, essa metodologia, em que pese ser aplicada em outros países, não é a mais correta”, afirmou. “É uma coisa que não mede a realidade.”

O motivo da crítica é que, há dez dias, o Ministério do Trabalho divulgou outro levantamento que indicava um aumento de 211 000 vagas de trabalho com carteira assinada nos dois primeiros meses do ano — dado comemorado pelo presidente no Twitter. O problema é que a Pnad, pesquisa realizada pelo IBGE para aferir o nível de desemprego no país, apontou um aumento de 892 000 pessoas desocupadas, o que levou a um total de 13,1 milhões de brasileiros sem trabalho. “A economia é complexa, e a taxa de desemprego é um indicador que sempre demora a reagir porque a decisão de contratar é um processo longo. O IBGE segue protocolos internacionais e não tem culpa se o desemprego está alto”, diz Renan de Pieri, economista do Insper.

A crítica do presidente diz respeito aos termos usados pelo IBGE, que são mesmo confusos para leigos. Ele se queixa de que, quan­do a economia se aquece, pessoas que não estavam procurando trabalho se animam a fazê-lo, o que, paradoxalmente, aumentaria a taxa de desemprego do IBGE em um momento em que vagas são abertas. De fato, a taxa diz respeito àqueles que não receberam remuneração nos trinta dias anteriores à pesquisa mas estão ati­vamente à procura de emprego. Quem não tem ocupação nem está tentando arrumar uma não é chamado de “desempregado”, e sim de “desalentado”. O que Bolsonaro não sabe, ou esconde, é que os “desalentados” também estão em uma alta histórica, em impressionantes 4,9 milhões de pessoas. Ou seja, se o IBGE juntasse as duas rubricas, a taxa de desemprego seria ainda maior que a divulgada. Há três meses no Planalto, Bolsonaro não tem responsabilidade pelos números decepcionantes da economia. Mas, se ele tentar mudar os indicadores na marra, em vez de implementar políticas que destravem o crescimento do país, a população terá motivos para culpá-lo — mesmo que os números oficiais digam que está tudo bem.

Publicado em VEJA de 10 de abril de 2019, edição nº 2629

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