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“Continuamos sem resposta para estancar a crise”, alerta economista

Armando Castelar, pesquisador do Ibre/FGV, critica falta de ação do governo e diz que não há atualmente uma agenda concreta para a retomada do crescimento

A queda de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2015, divulgada nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmou as expectativas dos analistas financeiros. Se o mercado novamente tiver razão, o cenário para 2016 seguirá desanimador. Uma das razões para o horizonte de recessão é a falta de uma agenda para a retomada da atividade. Esta é a opinião de Armando Castelar, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV).

“Você tem muita conversa, mas não medidas concretas. Há balões de ensaio, ideias jogadas, algumas desmentidas por pessoas do próprio governo. Continuamos sem uma resposta que permita estancar essa crise de confiança”, afirmou, em entrevista ao site de VEJA. Dentro do resultado PIB, ele destaca as retrações acentuadas dos investimentos, que recuaram 14,1% em 2015 sobre 2014, e no consumo das famílias (-4%), que “refletem uma queda muito forte na demanda interna”.

O economista ainda diz que, diferente de outros cenários de crises, como em 1999 e 2003, desta vez, não há respostas. “As contas públicas pioram, a inflação aumentou no começo do ano passado. E então se aguarda uma resposta de política econômica que faça frente a essa deterioração”, diz. Ele acrescenta que vê com bons olhos a intenção de Congresso de propor uma agenda econômica alternativa à do governo, já que as medidas favorecem o ambiente de negócios do país. Confira trechos da entrevista.

Ainda que amplamente esperada, algo chama a atenção dentro da queda de 3,8% do PIB em 2015? Não houve novidade. O resultado – e sua composição – veio bastante alinhado com o que se previa, inclusive com o nosso número, de queda de 3,8%. Um número muito negativo para o agregado de investimentos [-14,1%] e consumo das famílias [-4%], que refletem uma queda muito forte na demanda interna, que também já era esperado.

O que não veio dentro do esperado? Um resultado melhor para as exportações, mais positivo. Além da alta do dólar, motivou o fato de a demanda doméstica estar fraca. Teve aumento das vendas de petróleo, produtos siderúrgicos. Em tempos de crise interna, procura-se exportar esses produtos.

O que reflete essa queda na demanda interna? Uma crise de confiança muito séria. Olhamos para o futuro e vemos uma crise fiscal séria, uma economia que está mergulhando numa velocidade grande, sem ter uma resposta de politica econômica. Ninguém tem a menor ideia do que se pretende fazer para interromper esse processo. As contas públicas pioram, a inflação aumentou no começo do ano passado. E então se aguarda uma resposta de política econômica que faça frente a essa deterioração, como aconteceu em 1999 e 2003. Desta vez, tivemos a crise, mas não a resposta. Então, vemos o resultado piorando.

Por que a confiança é tão importante? Se o empresário não tem a confiança sobre o futuro, ele não investe. Se o consumidor não tem confiança sobre o futuro, ele não vai se endividar para comprar um bem durável, se ele não sabe o dia de amanhã. O banco também, ele não sabe se empresta, pois não tem certeza se as empresas estarão lá, se os consumidores vão pagar. Todo mundo se retrai.

Algo está sendo feito para reverter esse cenário? Não. Você tem muita conversa, mas não tem medidas concretas. Há balões de ensaio, ideias jogadas, algumas desmentidas por pessoas do próprio governo. Continuamos sem uma resposta que permita estancar essa crise de confiança. Por isso, teremos este ano outro PIB ruim. É a continuação do processo: não tivemos nenhuma resposta a essa crise de confiança. Temos um agravamento da situação fiscal, e, com isso, o receio sobre o futuro fica maior. Começamos ver noticiário sobre calote da dívida. Enxergarmos uma alta mais forte do desemprego este ano e mais dificuldades em relação ao crédito. Isso convence o consumidor e o empresário de que fizeram bem em segura o dinheiro.

Como vê a intenção do Congresso em apresentar uma agenda econômica independente da do governo? Acho bastante positiva. Sinaliza que o Congresso, sobretudo o Senado, está entendendo o problema e oferecendo alternativas na direção certa. São medidas, de maneira geral, favoráveis ao ambiente de negócios do Brasil, como a independência do Banco Central, melhor governança de estatais, entre outras. A questão do pré-sal, de permitir conseguir explorar essa riqueza, isso tudo é bastante positivo. Não são suficientes, pois mudam muitas regras, mas não resolvem a questão mais urgente da dinâmica fiscal.

O horizonte cada vez mais distante de uma recuperação do selo de bom pagador, pelas três principais agências de classificação de risco, acentua a crise? Costumo comparar essas avaliações a um exame médico. O mais assustador do resultado desses três ‘exames’ que as principais agências fizeram é que a saúde da economia brasileira vai muito mal. E a tendência é de que vai piorar mais ainda, por isso a perspectiva negativa, nos três casos. O fato de o Brasil ter sido rebaixado por três agências, que entendem do assunto, tem seu impacto. O investidor que não tem tempo de fazer um diagnóstico tão completo da economia local, se orienta por essas coisas. Isso sem falar de determinados investidores institucionais que são proibidos de investir em países com o grau de risco do Brasil.

Acredita que é possível fazer a economia entrar nos trilhos em 2018 ou a ‘batata-quente’ ficará para o próximo presidente? Possível é. A questão é dar uma resposta. O problema é que a resposta de fazer um ajuste fiscal mais significativo, uma reforma da previdência rápida, não vem. Parece muito improvável que este governo dê uma resposta que estabeleça a confiança. O cenário mais otimista é que a confiança comece a ser retomada com a proximidade das eleições de 2018, com as expectativas depositadas em um próximo governo.

Que efeitos para a economia traria um eventual impeachment da presidente Dilma Rousseff? O impeachment é só o começo. O que interessa é o governo posterior a isso. Precisamos ter uma resposta de política econômica que ataque o problema fiscal de maneira significativa. Se o impeachment terá sucesso ou não, depende de se ele vai ocorrer num governo de união nacional e que se faça as mudanças que precisam ser feitas. Se tiver um governo fraco e não comprometido com reformas, o impeachment resolve pouco. A questão principal é a mudança da política econômica.

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