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“A economia se fortalecerá após a Lava Jato”, diz diretor do FMI

Otaviano Canuto afirma que investidores estrangeiros veem oportunidades no país, que pode aproveitar o combate à corrupção para aumentar a competição entre as empresas

O momento político no Brasil é crítico e a recessão, a mais severa desde o início da década de 30. Mas, nos escombros dessa crise, o país pode encontrar elementos para se fazer atrativo para investidores externos, diz Otaviano Canuto, diretor brasileiro do Fundo Monetário Internacional (FMI). Um desdobramento da Operação Lava Jato, afirma ele em entrevista exclusiva ao site de VEJA, pode ser uma economia mais transparente, eficiente e com mais concorrência. “O desmonte dos esquemas de corrupção amplia a competição entre as empresas que atuam com o poder público”, avalia. “O noticiário, hoje, é negativo, mas analistas mais experientes estão entusiasmados. O país está abrindo a chaga ao sol.”

Canuto será uma das autoridades presentes à reunião de primavera do FMI, que começa na próxima quarta-feira em Washington. O encontro discutirá, entre outros temas, a perda de força do crescimento global – e o Brasil, claro, é um dos fatores para a freada. Leia os principais trechos da entrevista:

De que forma o impasse político tem freado avanços na economia? Na medida em que decisões de investimento privado são suspensas em um ambiente desfavorável, como o atual, é natural, em qualquer lugar do mundo, que o imbróglio político gere uma certa paralisia em decisões do setor privado. Isso ocorre até quando houver uma estabilidade desse quadro. Daí saberemos as direções e os parâmetros que o cálculo do investimento seguirão. É evidente, portanto, que um encaminhamento de saída da crise política seja uma pré-condição para que tenhamos uma retomada da atividade econômica.

O que poderia ser feito no curto prazo, em um cenário com Dilma Rousseff no poder? O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, conseguiu formular uma proposta para que se ganhe flexibilidade, no curto prazo, na área fiscal, como uma revisão da Previdência. Em troca, ele cita um programa de um aprofundamento no regime de responsabilidade fiscal, um programa de reformas, com efeitos no médio e longo prazos. Os agentes econômicos certamente atribuiriam um valor presente a essas propostas, mesmo sendo uma agenda futura. É um caminho promissor, mas que ficou ofuscado pelo impasse político.

A retomada do crescimento passa por um revisão do gasto público, a exemplo do que defende o ministro Nelson Barbosa? Certamente. A revisão do gasto público tem sido mencionada várias vezes pelo ministro da Fazenda e por outros agentes. O ministro do Planejamento, Valdir Simão, também já observou como fazer esse exame em detalhe, aumentando a transparência sobre a execução orçamentária, para também melhorar a eficiência. A questão é menos o que fazer e mais construir as condições dar cabo a essa agenda. Dessa forma, o país encontrará espaços fiscais para utilizar na contribuição pelo setor público em gastos em infraestrutura. Isso se daria nas parcerias público-privadas, que são necessárias e beneficiam a economia no futuro. E também para preservar e até ampliar políticas sociais exitosas, com boa relação de custo-benefício. Para poder encontrar espaço fiscal para essas duas demandas, há necessidade de passar um pente fino: examinar o que hoje está no gasto público e avaliar seus impactos para poder hierarquizar e sustentar o que funciona.

Algumas dessas medidas são consensuais, mas mesmo assim não são levadas adiante. Por quê? É um processo delicado, pois alguns ganham mais do que outros do jeito que as coisas estão. E essa distribuição entre “ganhadores e perdedores” será diferente num quadro pós-mudanças. Existe uma normal resistência de grupos de interesses a mudanças. É aí onde a política entra para ajudar ou atrapalhar, na medida em que alguns caminhos dependem de decisões legais, que dizem respeito a reforma de leis – e, portanto, passam pelo Congresso. É preciso ter um quadro em que a discussão congressual não esteja contaminada por outros assuntos.

O senhor concorda com a leitura de que o mercado financeiro reage positivamente e, logo, anseia a saída da presidente Dilma Rousseff? Isso é passível de interpretação. O mercado quer uma definição, que isso seja resolvido logo. Ele sabe que é ruim a indefinição do quadro político porque, enquanto ela perdurar, decisões do setor privado são adiadas. Isso puxa a queda dos investimentos e, consequentemente, da economia.

Em entrevista concedida em 2014, o senhor disse que o Brasil não estava à beira de uma crise econômica. O senhor se arrepende dessa avaliação? Não. Contextualizando: fiz essa afirmação ao me referir a crises clássicas vividas por emergentes nas décadas de 1990 e 2000. Elas foram marcadas, entre outros fatores, por processos massivos de fuga de capital e crises gêmeas cambial e fiscal. Continuo achando a mesma coisa. Não via na época, nem neste momento, alguma chance elevada de um processo de saída em massa de dinheiro. Não creio que o Brasil viva hoje um cenário de crise clássica de emergentes.

Que tipo de crise o país enfrenta, então? Uma coisa é crise mais aguda, acentuada. Por outro lado, mesmo com a ausência dessa crise aguda, existem fatores que se apresentam como impedimento para aceleração do crescimento. São problemas mais crônicos, e não agudos. Temos que reverter a perspectiva de retração no médio ou longo prazos, resolver a rolagem da dívida corporativa, em dólares. Enquanto não houver uma confiança de que esses fatores podem ser revertidos, sem grandes traumas, não teremos crise aguda, e ainda assim ter um problema crônico de baixo crescimento, que é o que vivemos.

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A perda do selo de bom pagador, o grau de investimento, na avaliação das três grandes agências de classificação de risco alonga o horizonte da retomada? Os ratings são mais consequência do que causa. Não quer dizer que eles não importam. Afinal, eles delimitam as possibilidades de os fundos aplicarem dinheiro no país. As razões para o rebaixamento são as mesmas que obstruem o crescimento do Brasil: a trajetória, o tamanho e a composição da dívida pública, além do endividamento corporativo. Se esses problemas forem enfrentados – e trata-se de pré-condição para o país voltar a crescer -, naturalmente as notas de créditos voltam a ser melhores.

Com os desdobramentos da Lava Jato e o avanço do processo de impeachment, cresce a exposição negativa do Brasil na mídia internacional. Isso tem contaminado a percepção e alterado planos do investidor estrangeiro? O meu testemunho é de quem é procurado por uma frequência bastante alta por investidores e potenciais aplicadores de recursos no país. Os investidores estão acompanhando o que acontece no país de perto porque eles visualizam oportunidades. O noticiário imediato é negativo, mas os analistas mais cuidados e experientes estão entusiasmados. Tenho amigos de outros países latino-americanos que dizem que têm inveja do Brasil. O país está abrindo a chaga ao sol. Enquanto em outros países impera o ceticismo sobre a possibilidade de as instituições responderem a sinais de corrupção, no nosso caso, há dois anos, quem imaginaria que pessoas importantes para a economia e política estivessem respondendo à Justiça? Todo mundo está de olho no Brasil por saber que o país vai se tornar um exemplo no combate à corrupção.

O que alimenta essa esperança dos investidores? São três principais. O primeiro: a prevalência da lei. Esse motivo é um compenete importante nos cálculos de risco que os investidores usam quando decidem fazer operações em algum país. Quanto maior a prevalência da lei, menores os riscos. Mesmo os que acham que podem operar em um ambiente “chamuscado” consideram um componente de risco. Se o Brasil é visto como um país em que a lei vale, isso melhora a percepção dos negócios. O segundo: a tendência do desmonte dos esquemas de corrupção aumenta a concorrência entre os agentes privados em setores que atuam com o poder público. O aumento da concorrência também estimula a busca por eficiência, qualidade, etc. A intensidade da competição aumenta em todos os setores do lado privado que dependem da relação com o setor público. O terceiro: o gasto público tende a melhorar. Não apenas porque a prestação de serviços pelo setor privado melhorará com a maior concorrência mas também porque diminuirá o “pedágio”, a contrapartida dos esquemas de corrupção. O resultado de cada real gasto pelo governo, portanto, melhora. O investidor estrangeiro e também o brasileiro estão atentos a essas três fonte de ganho, que são um bônus no médio e longo prazos.

E no curto prazo? Esses fatores, de fato, não se materializam no curto prazo – e, em muitos setores, os investidores estão esperando para ver. Eles sabem que os agentes que estavam lá dentro têm de se ajustar, vender alguns ativos para quitar dívidas. Daí se pensa duas vezes antes de criar capacidade instalada em um setor sem saber se quem está lá dentro será obrigado a oferecer ativos a preços de banana. Então, ocorreu uma certa paralisa de investimentos privados, tanto dos diretamente afetados, como de outros, que são observadores e estão esperando o momento. O interesse pelo Brasil segue grande, dada a importância regional e sistêmica do país, mas também porque os investidores visualizam um quado melhor, do ponto de vista de oportunidade de investimentos, para quando a crise passar.

Entre os fatores externos, qual pode afetar o crescimento brasileiro? A variável que poderia nos afetar mais diretamente é uma aterrizagem forçada da China. O país asiático está num processo de transição para um crescimento de menor ritmo, mais sustentado pois será mais assentado no aumento no poder de compra da população local, com um peso maior para o setor de serviços. Esta mudança é cercada de receios e dúvidas e não é um processo suave. Hoje, a percepção da transição da China é a principal variável na aversão a riscos em emergentes. Nos últimos tempos, porém, conforme expresso em prêmios de risco, o sentimento tem sido mais favorável.

Existe alguma possibilidade de o país voltar a tomar empréstimo do FMI? Isso está longe de acontecer. Não atribuo uma probabilidade elevada para isso. Se tem uma direção da economia brasileira em que o ajuste acontece melhor que o esperado é no lado da conta corrente, da balança de pagamentos. Então a necessidade de envolvimento financeiro do FMI não tem razão de acontecer no quadro atual.

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