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Da arte de reclamar – e se dar mal

Há cenas olímpicas que já nascem clássicas. Uma delas aconteceu no tatame da Arena Carioca 2, na manhã desta terça-feira, no Parque Olímpico da Barra da Tijuca. Inconformado com uma decisão do juiz, atalho para a desclassificação, o judoca brasileiro naturalizado libanês Nacif Elias, da categoria de até 81 quilos, não aceitou a punição. Inconformado, se recusou a amarrar a faixa preta para o cumprimento final. Recolheu a mão oferecida pelo vitorioso, o argentino Emmanuel Lucenti. Vaiado, a caminho do vestiário ele resumiu o que sentira: “Isso é catimba argentina, a federação internacional é uma vergonha. Abdiquei da minha vida para estar aqui. Talvez receba uma suspensão de dois anos por reclamar, mas fazem isso porque me naturalizei libanês.”  

Terminasse ali, a cena entraria para o rol dos grandes momentos – pela porta dos fundos. Mas houve um desfecho que a faz bonita, indelével. Elias, o libanês, retornou ao centro do ginásio, fez as reverências clássicas do judô e pediu desculpas ao destempero da derrota. E Elias voltou a ser brasileiro, aplaudido de pé pela torcida carioca. Escapou da inevitável punição e olimpicamente entrou no rol de bons exemplos. A seu lado, o treinador chorava como um bebê.

Teve juízo o paulista de Peruíbe agora em Beirute. A postura mercurial arruinaria sua carreira esportiva. Os cartolas do COI não aceitam desrespeito às draconianas regras do movimento de Pierre de Coubertain. Nos Jogos de Pequim, em 2008, o sueco Ara Abrahamian, da luta greco-romana, considerou equivocado o resultado de seu combate numa das semifinais. Saiu esbravejando como o nosso Elias. Disse que não disputaria a medalha de bronze, mas mudou de ideia. Ganhou e subiu ao pódio. Tirou a medalha do pescoço e, ao descer a escadinha, tratou de arremessá-la ao chão. Foi, definitivamente, um momento olímpico clássico, mas daqueles que entram na conta das más lembranças. O COI tirou a medalha do sueco, sob a acusação de desrespeito com os adversários. Nacif Elias, que não é bobo nem nada, e por lutar praticamente em casa (não esqueçamos, ele defende a bandeira do cedro verde), voltou atrás a tempo. “Ainda serei o melhor judoca do mundo na minha categoria”, resumiu.

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