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Argentina de volta para o passado: bondades e maldades

Pacotão econômico de estreia do novo presidente não tem nenhuma novidade que já não tenha sido tantas vezes testada e reprovada

Por - 16 dez 2019, 08h54

Desemprego é um problema sério? Fácil: basta dobrar a multa paga pelos empregadores nos casos de demissão sem justa causa.

Reservas esgotadas? Vamos lá, produtores rurais, façam um “esforço” e paguem mais pelo privilégio de produzir e exportar.

O dólar sumiu? Suba-se o imposto por gastos em moeda forte, inclusive passagens aéreas e assinatura de Netflix, para 30%.

Alguém está surpreso com o pacotão de estreia do novo presidente, Alberto Fernández, com supostas bondades para os desfavorecidos e maldades para os ricões?

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Só se for em algum planeta onde nunca se ouviu falar da precursora escola econômica peronista-populista.

Em nome dos fatos, é bom lembrar que muitas das medidas para tapar os desesperadores buracos da economia argentina já estavam em vigor via o governo de Mauricio Macri, que fracassou no papel de antípoda da mesma milonga de sempre.

A diferença é que a facada agora é maior, voltaram os cabeludinhos que parecem jogadores de futebol (argentinos) e se consideram capacitados a tirar o país do buraco, eliminar a pobreza, reativar a economia e pagar a dívida externa sem, propriamente, fazer isso. E tudo ao mesmo tempo, claro.

O mais ativo deles no momento é Santiago Cafiero, o novo chefe de Gabinete, equivalente a ministro da Casa Civil ou de Governo.

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O pacotão tem “uma lógica solidária e contributiva”, recitou o jovem (e cabeludinho) ministro, peronista de berço, numa linhagem que começou com seu avô, Antonio Cafiero.

Com uma carreira icônica, e personalidade marcante, o Cafiero original começou na fonte, com Perón e Evita.

Pelos padrões normais, deveria tê-la encerrado com o desastre da segunda mulher de Perón e sua substituta como vice-presidente (toc, toc, toc), Isabelita, de quem foi ministro da Economia.

Mas não só sobreviveu à catástrofe e à ditadura subsequente, como voltou e foi governador da província de Buenos Aires.

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Dramaticamente, estabeleceu uma grande admiração por Raúl Alfonsín, o outro político que fracassou em ser uma alternativa ao peronismo.

Teve uma atuação importante em impedir o golpe dos carapintadas contra Alfonsín.

Depois, virou o mais importante aliado de Carlos Menem, um político da periferia do peronismo que conseguiu ser eleito presidente com suas folclóricas costeletas e, surpreendentemente, introduziu a paridade com o dólar. Acabou, claro, em desastre.

Por que relembrar histórias assim?

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Para resumir a rosário dos fracassos dos ciclos que se repetem: líderes peronistas tradicionais arruínam o país, líderes peronistas alternativos fazem a mesma coisa e os poucos que rompem a barreira se saem tão mal ou pior ainda.

Detalhe: ao contrário do que aconteceu no Chile e no Brasil, o regime militar argentino, além da brutalidade inimaginável, também chafurdou na lama da inépcia econômica, culminando com a autodestruição que foi a desastrosa invasão das Ilhas Malvinas.

ALUNO ESPERTO

Alberto Fernández não sabe tudo isso?

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Claro que sabe. Além de ser considerado mais equilibrado e informado do que os quadros dirigentes habituais, ele testemunhou diretamente crises homéricas.

Talvez a mais significativa tenha sido o fim melancólico do governo Menem (melancólico para o país, hoje Menem é senador, embora o casamento com a ex-miss Universo Cecilia Bolloco tenha acabado), sua substituição mais infeliz ainda por Fernando De La Rúa, obrigado não só a renunciar como a fugir da Casa Rosada de helicóptero, incinerado por uma crise devastadora.

Seguiram-se os múltiplos presidentes provisórios e uma eleição surreal da qual o relativamente desconhecido Néstor Kirchner acabou vencedor, com 22% dos votos.

Alberto Fernández foi chefe de gabinete, a mesma posição ocupada hoje por Santiago Cafirero, de Kirchner.

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E, depois de dois mandatos, de sua mulher e substituta, Cristina, até que rompessem.

Viu de muito perto, portanto, não só o estado crônico de crise do país que tinha tanto para ter tudo, e fez tudo para não ter nada, os fracassos em série e as muitas brigas internas entre os próprios peronistas.

Foi, também, um aluno esperto na escola da cara de pau característica de seu meio.

Ao aumentar as “retenções”, ou impostos adicionais extraídos da suprema vaca leiteira, o espetacularmente rico agronegócio, disse, na cara dura: “Não estamos aumentando nenhuma retenção”.

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O aumento de alíquotas sobre a soja, o ouro verde, passou para 30% (teve variações durante o governo Macri, sendo que na última delas estava a 24,7%).

Milho, de 6,7% para 12%. Trigo, idem. Sorgo, girassol, cevada, tudo vai custar mais caro para os produtores rurais.

Para enfiar a faca e revirar, os aumentos foram por decreto, no sábado.

Hoje, saem as “bondades”, os benefícios sociais incrementados para compensar a inflação, o retraimento econômico, o aumento da pobreza e outros males para os quais a escola populista preconiza abrir os cofres – terrivelmente vazios.

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O custo das demissões, dobrado, já foi antecipado.

Ah, sim, o governo Fernández-Fernández fala em “lei de solidariedade social e reativação produtiva no quadro da emergência econômica” não apenas por discurso viciado.

Quer poderes extraordinários do Congresso para acelerar o pacotão e fazer reformas por decreto, sem controle do Congresso.

E assim caminha, como sempre, a Argentina.

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Pronto: viram como é possível falar do governo de Alberto sem mencionar sua vice?

E como ele é capaz de fazer suas próprias besteiras sozinho?

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