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Editorial do Estadão: Lá fora, o quadro é inquietante

A reforma do sistema de aposentadorias e pensões é só um primeiro passo

O novo governo terá de cuidar da economia num ambiente global perigoso, marcado por muita incerteza, entraves ao comércio internacional e grande aversão ao risco, segundo o panorama de 2019 e 2020 recém-divulgado pela OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Para o Brasil as dificuldades são ainda agravadas pela perspectiva de mais um ano de recessão na Argentina, o terceiro maior mercado para suas exportações. O quadro externo torna mais urgente a execução do item primeiro da pauta oficial, a reforma da Previdência, acompanhada, é claro, de um novo aperto orçamentário. Talvez convenha falar ao presidente Jair Bolsonaro sobre o cenário internacional e suas implicações para um governo com pouca margem para erros e hesitações.

Os novos cálculos da OCDE para a economia brasileira apontam crescimento de 1,90% neste ano e 2,40% no próximo. A estimativa anterior, de novembro, havia indicado expansão de 2,10% em 2019. A projeção para 2020 foi mantida.

Os economistas da OCDE continuam menos otimistas que os do mercado financeiro local, consultados semanalmente pelo Banco Central (BC) na pesquisa Focus. Na pesquisa publicada ontem, a mediana das projeções ficou em 2,30%, 0,20 ponto menor que a de quatro semanas antes. No próximo ano, de acordo com a Focus, o Produto Interno Bruto (PIB) aumentará 2,70%.

Maior confiança dos empresários, menor incerteza quanto às políticas, desinflação e melhora no mercado de trabalho sustentarão no Brasil a demanda interna, segundo a avaliação da OCDE. Para passar da recuperação moderada a um crescimento mais forte, no entanto, será indispensável uma bem-sucedida implementação da agenda de reformas do novo governo, “particularmente da reforma da Previdência”, de acordo com a análise.

Quanto a esse ponto, a avaliação da OCDE coincide com a de outras instituições multilaterais e do mercado. A reforma do sistema de aposentadorias e pensões é só um primeiro passo, indispensável, mas insuficiente para levar a economia a um crescimento mais intenso. A mudança de patamar dependerá de reformas adicionais, como a tributária, e de investimentos bem maiores em capacidade produtiva. Segundo a pesquisa Focus, o aumento do PIB, depois de uma aceleração para 2,70% em 2020, deverá manter-se em torno de 2,50%, por causa do modesto potencial de crescimento do País.

Neste ano e em 2020, o governo brasileiro terá de agir sem contar com qualquer impulso adicional fornecido pela economia internacional. A expansão global, segundo a OCDE, continua perdendo impulso. Entre novembro e março a projeção de crescimento em 2019 diminuiu de 3,50% para 3,30%. A estimativa para 2020 caiu de 3,50% para 3,40%. A expansão do comércio internacional passou de 5,25% em 2017 para cerca de 4% em 2018 e o ritmo ainda poderá ser menor neste ano, como indicam as programações de exportação da China, da Europa e de várias economias da Ásia.

As tensões comerciais, originadas principalmente do conflito entre Estados Unidos e China, contaminaram vários mercados e minaram a confiança dos empresários e os planos de investimento. Os entraves ao comércio, combinados com vários fatores de insegurança (incluído o Brexit), continuam minando o crescimento econômico nos países mais avançados, com reflexos na maior parte do mundo. Deve somar-se a isso o esforço chinês de reestruturação econômica. Enfim, uma longa fase de juros muito baixos no mundo rico estimulou endividamento e operações arriscadas. Com isso, as finanças voltaram a ser motivo de inquietação.

A projeção para a Argentina melhorou, mas ainda se calcula uma contração econômica de 1,5% em 2019, seguida de crescimento de apenas 0,4% no próximo ano. Se o governo precisasse de mais alguma razão para se organizar e acelerar sua agenda, o panorama da OCDE deveria bastar. Ao contrário do que recomenda o ministro de Relações Exteriores do Brasil, é bom manter a janela aberta e olhar para fora.

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