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Uma proposta do que o algoritmo do Facebook poderia fazer…

Como mostrou matéria recente publicada por VEJA, assinada por mim, o Facebook tem sido alvo de pesadas críticas.

Por Matheus Editor - Atualizado em 11 mar 2020, 16h30 - Publicado em 7 dez 2016, 18h00

Como mostrou matéria recente publicada por VEJA, assinada por mim, o Facebook tem sido alvo de pesadas críticas por ter se tornado hoje uma plataforma para a proliferação de mentiras. Não bastasse, o jornal The New York Times ainda revelou, a partir de conversas com funcionários da empresa, que Mark Zuckerberg, o criador e CEO da rede social, estaria planejando o desenvolvimento de um software de censura prévia no site, que seria administrado indiretamente pelo governo chinês. Isso mesmo! O objetivo: ter o Facebook liberado na China e, com isso, o potencial acesso a 700 milhões de novos usuários. O cenário esquentou ainda mais nesta semana – notícias falsas acerca de um suposto clube de pedofilia liderado pela democrata Hillary Clinton, a perdedora das últimas eleições presidenciais dos EUA, e sediado em uma pizzaria em Washington, motivaram um ataque armado a esse estabelecimento. No centro de todas as discussões está um elemento: o algoritmo do Facebook.

montagemMontagem brinca com como muitas pessoas acreditam em qualquer coisa que veem pela internet

Por que as mentiras se espalham tanto pelas redes sociais (não só Facebook, como Twitter e outros)? O motivo é simples. A começar, há, no mundo online, um impulso das pessoas em querer ser o primeiro a saber de algo. É o já famoso FOMO (na sigla em inglês, o “medo de ficar de fora”). Isso faz com que indivíduos compartilhem manchetes apelativas, falsas, muitas vezes sem nem antes ler do que se trata (falei sobre isso algumas vezes neste blog, como nesse post). Aí, o embuste se prolifera pelas pessoas gostarem das histórias sensacionalistas, mesmo que mentirosas. No Brasil, por exemplo, os cinco links com conteúdo falso mais compartilhados sobre a operação Lava-Jato reverberaram mais do que os cinco verdadeiros do mesmo tema – na comparação, 1,4 milhão de interações nas redes sociais versus 1 milhão. Para piorar, uma mentira viaja muito mais rápido que seu desmentido, como evidenciou pesquisa recente.

Fruto de uma era na qual o que mais tem valido são os cliques, os views, a pura contagem de visualizações, o algoritmo do Facebook privilegia essas medidas. Então, se os usuários se mostram mais interessados pelas mentiras, são elas que se espalham. Se a fofoca rende, a rede social dá força a ela. Afinal, no fim, o conteúdo pode ser falso, ou não, pouca importa; o fundamental é ele ser clicado milhões de vezes e, com isso, aumentar o faturamento de anúncios ligados ao site. Ah, a lógica vale não só para o Facebook. O mesmo ocorre no Twitter, no Google etc.

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Há solução? Sim. Conversei sobre isso com o designer Tristan Harris, fundador de uma startup do ramo, vendida ao Google, e ex-funcionário da Apple e do mesmo Google. Afirmou ele, que recentemente criou uma organização, a Time Well Spent (Tempo Bem Gasto), que procura combater o vício em gadgets e redes sociais: “O algoritmo que guia uma rede social pode ser configurado de várias formas. Por exemplo, em vez de privilegiar fofocas e conversas banais para aumentar o número de acessos do site, poderia dar maior destaque a notícias de sites críveis, ao contato entre amigos de longa data e por aí vai.”

Para compreender o que Harris fala, vale entender o que o algoritmo do Facebook pode fazer hoje. Por exemplo, ele consegue detectar quais estabelecimentos perto de você são recomendados ou frequentados por amigos e, assim, sugerir um lugar para tomar um café ou jantar. Os servidores da rede social também podem censurar conteúdos antes mesmo deles serem publicados – é famosa no meio a expressão “mamilos polêmicos” por imagens de mamilos femininos serem proibidos de aparecer no site; o que acabou por gerar controvérsias, como a derrubada de reproduções de pinturas e outros trabalhos artísticos em vários perfis. E, claro, dentre várias outras possibilidades, o algoritmo escolhe o que os usuários veem de acordo com o potencial que determinado conteúdo tem de viralizar, de ser compartilhado, de ser curtido.

Agora, a questão é: o que o algoritmo do Facebook poderia fazer? Ele seria capaz, por exemplo, de cruzar informações para checar quais contatos de seu perfil são amigos de longa data, e quais são desconhecidos que acabam sendo adicionados por impulso. Assim, poderia incentivar a interação entre velhos amigos. No lugar de ser usado para censura na China, uma ideia seria utilizar ferramentas similares para punir, ou mesmo banir, perfis de sites especializados em disseminar mentiras. Também conseguiria, por fim, indicar ao usuário o que tem cara de ser uma fofoca, pelo padrão do conteúdo, e o que deve ser acreditado por ter tido origem em uma fonte de credibilidade.

Até hoje, os esforços do Facebook estão em muito voltados a ganhar mais e mais cadastrados (sabe-se da obsessão em chegar à marca dos 2 bilhões de perfis) e conquistar mais e mais acessos. Contudo, há pressão para que isso mude – vinda da sociedade, em especial da americana e da europeia; de políticos; da mídia. Espera-se por uma nova fase, mais madura, da rede social. Uma na qual se privilegie a qualidade do conteúdo e das interações entre usuários (e que se lucre mais com isso, vendendo esse material “de confiança”, e não um de “desconfiança”, aos anunciantes); não tão-somente os números grandiosos que a companhia gosta de apresentar a investidores. É possível fazer essa transição? Sim. Ainda mais para uma empresa enorme como o Facebook, que reina absoluta em seu ramo e tende a guiar o que é padrão, e o que não é, no mercado da internet. Com isso, a belíssima invenção de Zuckerberg ainda ficaria mais apta a cumprir com a missão que ela mesma tem para si: “dar às pessoas o poder de compartilhar informações e fazer do mundo um lugar mais aberto e conectado”. Em outras palavras, promover o debate, a liberdade de expressão e a democracia. Não o ódio alimentado por falsidades que se multiplicam.

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