Hoje é um bom dia para ver (ou rever)… Os Agentes do Destino

Matt Damon e Emily Blunt em um intrigante jogo especulativo adaptado de Philip. K. Dick (de Blade Runner, Minority Report…)

Hoje o primeiro teaser de Blade Runner 2049 entrou no ar mostrando a que veio: para provar que as intenções são sérias, ele começa com o nome de Ridley Scott, beeem grande, e termina com uma aparição de Harrison Ford. Em comemoração, então, decidi indicar uma outra adaptação de um conto de Philip K. Dick, menos célebre e grandiosa, mas muito inteligente e bem sacada: Os Agentes do Destino, que entrou faz pouco tempo na grade da Netflix. Matt Damon, um político em campanha eleitoral, conhece Emily Blunt, uma bailarina. O encontro muda a vida de ambos; mas, por mais que tentem, eles não acham uma maneira de permanecer juntos – resultado, ao que parece, das manipulações de Anthony Mackie, um misterioso homem de chapéu.

divulgação

Os Agentes do Destino não foi exatamente um sucesso. Talvez tenha frustrado as expectativas do público que esperava ver uma ficção científica com mais ambientação e mais futurismo – a exemplo do próprio Blade Runner e de Minority Report, também adaptado de Philip K. Dick. Não é essa, porém, a jogada do diretor estreante George Nolfi: aqui se está de fato no território da especulação conceitual. Eu mesma, porém, adoro o filme, e acho difícil ele decepcionar quem entre na história com o espírito desprevenido. E, se você acompanha a política americana, fique de olho nas figuras conhecidíssimas dos bastidores que interpretam a si mesmas – como o apresentador Jon Stewart, o atual prefeito de Nova York Michael Bloomberg e os consultores/estrategistas James Carville e Mary Matalin.

Leia aqui a resenha que publiquei quando Os Agentes do Destino foi lançado nos cinemas:


Corram que a paranoia vem aí

Em Os Agentes do Destino, uma destilação sóbria e muito inventiva da ficção viajandona do escritor Philip K. Dick

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Quase sem falha, o americano Philip K. Dick (1928-1982), luminar da ficção científica viajandona, ventilou em seus romances e contos um tipo específico de paranoia – a de que corporações/autoridades/outros poderes de contornos fascistas estão no controle dos seres humanos, manipulando sua mente, seus rumos ou até sua origem. Como, por exemplo, em Blade Runner, que junto com O Vingador do Futuro e Minority Report, compõe o trio das adaptações mais célebres da obra de Dick para o cinema. Por razões insondáveis, é improvável que Os Agentes do Destino atinja igual notoriedade: provocou pouco impacto no circuito americano esta excelente versão de um conto do autor, em que Matt Damon, no papel do deputado David Norris, perde uma eleição certa para o Senado porque algumas estripulias suas vieram à tona – e então, minutos antes de fazer o discurso em que concederá a vitória ao adversário, conhece no banheiro de um hotel Elise (uma inspiradora Emily Blunt) e muda o dito discurso, reiniciando espetacularmente sua carreira. A paixão entre Norris e Elise é fulminante, mas eles nunca conseguem ficar juntos, por mais que tentem. Nada, claro, é por acaso: nem o primeiro encontro, nem os sucessivos desencontros posteriores. E tudo tem a ver com Harry (o ótimo Anthony Mackie) e outros homens como ele, de sobretudo e chapéu, que parecem saídos de um episódio da série Mad Men (um deles, aliás, o é: John Slattery, uma figura eminente desse grupo).

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Dirigido pelo estreante George Nolfi, roteirista de O Ultimato Bourne, o filme é um primor tanto na destilação do espírito de Philip K. Dick quanto nos ajustes sutis que imprime a ele por meio da encenação sóbria e imaginativa: nesta ficção que é mais conceitual do que propriamente científica, a revelação de quão extenso é o poder dos homens de chapéu ganha em voltagem na mesma proporção em que o romance tão espontâneo e crível entre os personagens ganha em urgência. E, ao contrário do mundo habitualmente em preto e branco de Dick, neste aqui o birô de agentes (sobre o qual nada, nadinha mesmo, se deve contar) ocupa uma empática zona cinzenta: eles privam os seres humanos de decisões reais, deixando-os apenas com a ilusão de decidir. Mas, quando o chefão de chapéu ardilosamente interpretado por Terence Stamp explica por que é assim, há de se concordar: ele tem lá suas razões, e elas não são ruins.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 11/05/2011
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2011

Trailer


OS AGENTES DO DESTINO
(The Adjustment Bureau)
Estados Uni­dos, 2011
Direção: George Nolfi
Com Matt Damon, Emily Blunt, Anthony Mackie, Terence Stamp, John Slattery

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